António Moniz Palme

Adriano Moreira, um Humanista com um século de sabedoria e de experiência aos ombros

Adriano Moreira, um Humanista com um século de sabedoria e de experiência aos ombros

“Tendo em atenção o falecimento do Sr Prof. Adriano Moreira, o seu amigo e admirador António Moniz Palme pretende que se publique em sua Honra, o artigo que elaborou para comemorar o seu Centenário”

Adriano Moreira, escudado na sua idade centenária, é uma figura verdadeiramente singular, sendo um humanista respeitado por gente de todas as facções e ideologias. É uma personalidade rara e fascinante, pois nunca perdeu a ligação com as constantes transformações que nos rodeiam. Nunca se enquistou em si mesmo, fechando-se em copas, atrás da sua cultura e discernimento fora de vulgar… Está sempre aberto às novas ideias, aos movimentos político filosóficos que vão aparecendo em cada esquina do tempo, nunca sendo o seu pensamento considerado, por ninguém, ultrapassado. Como o grande intelectual refere no prefácio que fez o favor de escrever no meu livro, “O Almofariz”, os portugueses que se interessam e pretendem resolver os problemas do seu País, têm que organizar a sua vida, tendo em conta a percepção da circunstância num ambiente de conflito entre a tradição de referência e a explosão de rutura.

Na sua juventude, foi considerado um homem de esquerda, como tantos outros que ousavam pensar de modo diferente dos cânones oficiais, nunca deixando, no entanto, de difundir as suas ideias que encantavam todos os homens livres e cultos. Já agora direi que Adriano Moreira, transmontano de Grijó, Macêdo de Cavaleiros, imbuído dos valores da boa gente da sociedade agrícola portuguesa, que sempre suporta todos os sacrifícios, provocados pelas  crises e pela má governação, é doutorado pelo Instituto  Superior de Ciências Sociais e Políticas  e  em direito pela Universidade Complutense de Madrid. Concomitantemente, com as suas actividades intelectuais, foi professor catedrático em diversos estabelecimentos universitários, em Lisboa e no Rio de Janeiro, além de Director do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Ainda foi delegado da ONU, desde 1957 a 1959, e fundador do Movimento da União das Comunidades de Cultura Portuguesa, tendo presidido pelo menos a dois congressos, em 1960 e em 1966.

Apesar da ortodoxia da república do Estado Novo duvidar deste intelectual, que subiu a pulso na sua vida profissional e que sempre se mostrava independente em relação a todas as forças do cenário político nacional, foi chamado para chefe de gabinete do Ministro Almirante Lopes Alves. Nessa situação teve oportunidade de proclamar alto e em bom tom o que pensava do Ultramar Português.  Ouvir o mestre Adriano Moreira, era recordar a doutrina dos antigos Comissários Régios, António Enes, Mouzinho de Albuquerque, Freire de Andrade, Aires de Ornelas, Paiva Couceiro e do republicano Norton de Matos. O seu pensamento era uma lufada de ar fresco que veio animar a juventude portuguesa. Da tribuna de uma sacada da Câmara de Coimbra dissertou para centenas de estudantes que o aplaudiram entusiasmados e esperançados com as modificações que sugeria para os problema dos territórios africanos. A principal modificação, seria a política de assimilação levada a cabo, pretendendo liquidar o Estatuto do Indigenato de uma vez por todas. Mesmo os estudantes ultramarinos já conheciam o seu trabalho “O problema Prisional do Ultramar”, publicação de 1953, e toda a juventude universitária culta passou a ler avidamente, as Lições de Política Ultramarina, publicadas pela Junta de Investigação do Ultramar. Para espanto de muitos, foi chamado a fazer parte do governo. Acabou imediatamente com a Lei do Indigenato e iniciou a criação dos Estudos Gerais disseminados pelo Ultramar. Claro que foi corrido num ápice. E os que tiveram esperança numa mudança radical da política seguida, na gestão das províncias ultramarinas, perderam as esperanças. As necessárias alterações da política central governativa para o Ultramar iriam ficar por ali.

Apos o 25 A, o oportunismo, a ignorância política crassa e a falta de preparação e de cultura dos revolucionários, bem como as determinações motivadas pelos interesses económicos de Moscovo e de Washington não permitiram que uma personalidade independente e bem preparada como Adriano Moreira aparecesse na ribalta da governação, na primeira fase da nova vida política portuguesa. Todos tiveram a consciência disso, fosse qual fosse a sua preparação ideológica. Só muito mais tarde, o bom senso começou a renascer no espírito da maioria da população, sendo então criadas circunstâncias que permitiram a autêntica liberdade de expressão e de reunião e o saudável exercício da inteligência à volta dos valores fundamentais que ligam os anseios da grande maioria dos portugueses. Por essas razões, foi metido a contragosto num partido político, todos temendo que se iria sentir espartilhado por um determinado programa político e pela rigidez de uma ideologia, tão desconforme com as alterações que aconteceram e cuja solução teria que ser encontrada. No fundo, estava numa organização formada por estrategas dos grandes gabinetes económicos e políticos do antigamente, ficando necessariamente com os pés travados por liames ultrapassados. E acabou por se afastar desiludido da política partidária que senão coadunava com o espírito humanista, democrático e planetário do grande pensador português Adriano Moreira.

Por impossibilidade pessoal não me foi possível estar na manifestação que lhe foi feita no seu Aniversário, mas continuo a ler e a ouvir esse grande homem da cultura portuguesa, pedindo a Deus Lhe dê saúde.   Na verdade, Adriano Moreira talvez seja o expoente máximo, na pátria portuguesa, do espírito humanista de Unamuno.

27/10/2022


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