Entrevista a Clara Vieira
Professora em S. Pedro do Sul, ex-vereadora em Oliveira de Frades e membro do grupo “Vozes da Terra”

• Paula Jorge
Participar no Canto a Vozes, o grupo informal que surgiu no âmbito dessa candidatura, foi das experiências mais maravilhosas que tive!
Identifico-me com o mundo associativo na sua vertente colaborativa e comunitária; gosto de trabalhar e desenvolver projetos, estabelecer parcerias, lidar com as pessoas.
A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
Ficha Biográfica
Nome: Clara Vieira
Idade: 51
Profissão: Professora
Um dos Livros preferidos: Os Contos de Eva Luna, Isabel Allende
Destino de sonho: Angola, minha terra natal
Personalidade que admira: Papa Francisco
Muito obrigada, Clara Vieira, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.
Paula Jorge (PJ) – Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
Clara Vieira (CV) – Iniciei os meus estudos na Escola Primária de Joane, V.N. de Famalicão, tendo depois continuado na Escola Preparatória da Senhora da Hora, e fiz todo o ensino secundário na Escola Secundária Augusto Gomes em Matosinhos. Candidatei-me à Escola Superior de Jornalismo do Porto onde conclui o bacharelato em Comunicação Social. Sempre gostei muito de línguas e, por isso, resolvi continuar os estudos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde conclui a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (Inglês e Alemão), tendo optado pelo Ramo de Formação Educacional. Fiz posteriormente uma Pós-Graduação no Ensino da Língua Inglesa para o 1º ciclo na Universidade Católica e formação para o ensino de Inglês através da música para o Pré-Escolar. Após esta última formação, desenvolvi o projeto Kindermusik with Clara na Associação Cultural e Recreativa de Oliveira de Frades (ACROF) durante cerca de cinco anos. Um projeto que me deu imenso prazer, momentos de partilha com pais e crianças onde a brincar, a cantar e a tocar se aprende uma língua, neste caso, o Inglês. Enquanto estudante, trabalhei na Rádio Universidade de Coimbra [RUC]; após a conclusão do meu estágio na Escola Secundária de Mira, lecionei um pouco por todo o país, em especial nas regiões norte e centro; passei por períodos sem qualquer colocação e, por isso, trabalhei como agente de seguros de saúde; e trabalhei na autarquia de Oliveira de Frades, exercendo o cargo de vereadora. Neste momento, exerço a minha profissão no 1º ciclo do Agrupamento de Escolas de S. Pedro do Sul, onde sou efetiva.

PJ – O ensino é uma paixão? Como se revê nesta função?
CV – Quando terminei a licenciatura em Inglês e Alemão concorri a estágio, mas ainda sem saber se queria realmente ser professora. Apaixonei-me pela profissão pela liberdade criativa que me permite ter na preparação das aulas, pelo contacto com os jovens e pela possibilidade de transmitir conhecimento. Sou extremamente curiosa e procuro sempre inovar as minhas práticas pedagógicas. Foi a profissão que me escolheu e sou uma privilegiada por isso. Foram mais de 20 anos com a casa às costas, conhecendo comunidades muito diferentes, mas isso é também uma mais valia, pois todos os anos é uma nova aprendizagem, uma reinvenção constante. Sou grata por toda a aprendizagem adquirida através do contacto com diferentes comunidades escolares, alunos, pais e professores ao longo destes anos.
PJ – Outra missão que abraçou em prol da comunidade foi a de Vereadora no Executivo do Presidente Paulo Ferreira. Como foram estes anos de entrega às gentes do concelho de Oliveira de Frades?
CV – Foram 4 anos vividos em contextos muito complicados: os incêndios de 2017, as tempestades que assolaram o nosso concelho e dois anos de pandemia; são situações para as quais ninguém está preparado, nem espera que lhe aconteçam, mas que resultaram num crescimento pessoal, em experiências profissionais muito diversas das que estava habituada. A experiência vivida durante 4 anos ligada a pelouros como a Educação, a Cultura, a Ação Social, o Desporto e o Turismo permite-me, agora, ser uma cidadã ainda mais atenta às políticas locais e mais conhecedora das dificuldades de pôr em prática ideias e projetos que idealizámos concretizar. Estou consciente que fiz e dei o meu melhor enquanto exerci as minhas funções no executivo camarário, numa entrega total durante o mandato.
PJ – Sei que abraçou há alguns anos o projeto “Vozes da Terra”. Fale-nos sobre esta sua experiência até aos dias de hoje.
CV – A minha entrada para o grupo Vozes da Terra foi casual. Enquanto Vereadora da Cultura fui contactada por um dos elementos, a Carla Almeida, com a proposta de realização de um concerto comemorativo do 25 de Abril. Sem qualquer dúvida, aceitei a proposta para concretização desse espetáculo no cineteatro de Oliveira de Frades, e na brincadeira fiz a contraproposta de tocar com o grupo um ou dois temas. Aceitaram a minha contraproposta, tendo ido aos ensaios para esse concerto e acabei por ser integrada a tempo inteiro. Desde esse dia, partilhamos muitos e bons momentos, viagens e muitas peripécias! Foi com muito orgulho que ajudei a desenhar o espetáculo de apresentação do CD “Origens”, um trabalho de vários meses e com muita gente envolvida. Foram momentos de grande desgaste, mas o resultado final foi maravilhoso e foi uma noite de muitas emoções. A recente viagem à Madeira proporcionou-nos momentos de muito convívio e de fortalecimento de laços de amizade com o grupo que nos acolheu.
PJ – Destaque 1 ou 2 concertos que mais a marcaram no grupo “Vozes da Terra”.
CV – O espetáculo comemorativo do 25 de Abril em 2019 – o primeiro em que participei – e o espetáculo comemorativo dos 25 anos do grupo Vozes da Terra, um evento muito emotivo, que juntou várias gerações e onde também prestámos homenagem a António Sá. Recentemente, destaco o espetáculo de apresentação do CD “Origens”, em maio do corrente ano, onde conseguimos ter em palco imensos artistas locais, num tributo às nossas origens e tradições, com uma moldura humana fantástica!

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida e profissional. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais o marcou?
CV – Nesse ano tinha sido reconduzida em Vale de Cambra. Era a primeira vez que tal me acontecia em tantos anos de serviço! Fui desafiada para lecionar disciplinas que em nada estavam relacionadas com a minha área, e claro, aceitei de imediato sair da minha zona de conforto. Uma das áreas era Expressões, onde de tudo um pouco fazíamos: música (estava dentro da minha área de conforto aqui), teatro e artes plásticas. Foi na preparação de adereços para uma apresentação de teatro que em conversa com uma aluna lhe sugeri acrescentar um acessório aos fantoches que estava a criar. Era uma aluna sempre cheia de vida, sorriso rasgado, a boa disposição em pessoa. No decorrer da conversa e troca de ideias, disse à aluna que compraria o tal acessório para que ela não tivesse gastos. A aluna rapidamente respondeu: “Ah não se preocupe professora. O meu pai este fim de semana vem a casa e vamos juntos às compras.” – Oh fantástico! O teu pai está fora do país? – perguntei eu.
– ” Não, está preso, mas este fim de semana é o que tem autorização para vir a casa.”
O meu coração caiu no chão. Fiquei sem saber o que dizer, porque nada fazia transparecer o quanto aquela adolescente teria passado nos seus curtos 16 anos. A conversa continuou e ela, sentindo confiança em mim, foi partilhando as suas lutas diárias. E que vida, meu Deus…. ainda hoje quando casualmente nos encontramos há um abraço forte e sentido que sempre damos, e um sorriso, carinhos que trocamos. Mantém sempre um sorriso e um olhar brilhante.

PJ – Quer falar-nos de outro projeto em que esteja envolvida e que não tenha sido aqui falado?
CV – A música sempre fez parte da minha vida. Acordava todos os dias com a emissão da Rádio Renascença, pois a minha mãe era ouvinte assídua. O meu pai sempre adorou cantar, aliás, o canto é um elemento comum a toda a família. Desde cedo me incentivaram a aprender música e a tocar um instrumento. Cantei e canto no coro da igreja, faço parte do grupo Vozes da Terra, no qual canto e toco guitarra, fiz parte da fundação da Tuna Feminina da Universidade de Coimbra – As Mondeguinas, que estão quase a completar 30 anos de existência, e é um dos projetos que fica para a minha vida. As meninas do malmequer, como são conhecidas, ainda hoje me acolhem com um sorriso e de braços abertos e, sempre que tenho oportunidade, partilho as minhas histórias, as histórias de tantas gerações de mulheres que por ali passaram e ouço as histórias das que vivem intensamente este projeto no momento presente. Um malmequer que simboliza as Mulheres e a Música que nos une ao longo de gerações. Um orgulho!
Um dos projetos que me entusiasmou e ainda entusiasma é o Canto Polifónico Feminino. O meu conhecimento desta prática tradicional da região era diminuto. O primeiro contacto surgiu através da Programação Cultural em Rede e do projeto Cultura Entre Pontes, iniciado enquanto fui Vereadora da Cultura. No desenho desse projeto a base sólida foi o Canto Polifónico Feminino. Participar no Canto a Vozes, o grupo informal que surgiu no âmbito dessa candidatura, foi das experiências mais maravilhosas que tive! As mulheres que se envolveram, que deram voz a tantos temas tradicionais e, numa segunda fase, a temas originais, foram fantásticas. Paralelamente ao conhecimento musical adquirido, os laços humanos criados ao longo dos dois anos do projeto são especiais e ficarão sempre guardados na memória do coração.
PJ – Para além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?
CV – O associativismo. Tenho experiências fantásticas na vida associativa às quais estive ou estou ligada: umas porque fui fundadora, outras porque sou sócia, outras ainda porque fui ou sou dirigente associativa. É uma forma de voluntariamente servir e trabalhar para e pela comunidade. Identifico-me com o mundo associativo na sua vertente colaborativa e comunitária; gosto de trabalhar e desenvolver projetos, estabelecer parcerias, lidar com as pessoas.

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
CV – Resiliente.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Clara Vieira! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve para os nossos leitores.
CV – Caros leitores, continuem a apoiar a imprensa local e regional. Leiam e deem o vosso contributo e sugestões. Mantenham vivas a voz e a escrita das nossas gentes. Bem hajam por estarem desse lado!
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