A Educação em Pequenas Histórias – A F. chegou à escola. E agora?

A Educação em Pequenas Histórias

A F. chegou à escola. E agora?

• Equipa do CRI da ASSOL

A F. chegou à escola, já o ano letivo tinha começado. Dizia-se que era uma menina com muitas dificuldades, com alguns desafios comportamentais, vinda de outro país (nem sequer sabíamos se dominava o português) e que tinha frequentado uma “escola especial”. Curiosos com este relato, fomos dar uma vista de olhos ao processo longo que a acompanhava (todo ele em francês) e percebemos que lhe tinha sido atribuído o diagnóstico de Trissomia 21.

Sentimos, naquela altura, que a comunidade escolar estava apreensiva, desdobrando-se em reuniões para decidir qual a turma mais indicada para esta aluna, quais os apoios que deveriam ser canalizados e quais os professores que deveriam vir a trabalhar com ela. Esta ansiedade prendia-se com os relatos que ouviam, vindos da comunidade que conhecia bem a família e do peso do nome do diagnóstico presente nos relatórios que chegavam à escola.

Em equipa, optámos por deixar o diagnóstico de lado e começamos a refletir, no que poderíamos fazer para garantir a inclusão desta aluna. De antemão, sabíamos que tinha o direito de ser educada junto das crianças da sua idade e também que era importante promover a articulação e o diálogo entre a escola e a família, envolvendo, sempre que possível, os recursos da comunidade.

Nas primeiras semanas de trabalho, o objetivo principal foi criar uma relação positiva com a F. e com a sua mãe, garantindo que se sentiam seguras na nossa presença, já que sabíamos da importância das relações pessoais e emocionais nos processos de aprendizagem e de crescimento, tal como preconiza a Pedagogia da Interdependência. Estes dias permitiram conhecer a criança, explorar os seus talentos e os seus interesses, perceber que projetos e que sonhos tinham ambas para o futuro, facilitando a proximidade e a confiança necessárias para um processo de apoio.

Conhecendo os valores do Planeamento Centrado na Pessoa, pensámos em estratégias capazes de criar, na aluna, o sentimento de pertença ao seu grupo de pares e à sua comunidade. Em conjunto com os professores, trabalhou-se no sentido da F. ser inserida numa turma com crianças da mesma idade cronológica, participando ativamente em algumas das aulas e atividades do grupo. Além disso, incentivou-se o convívio com os seus pares nos intervalos, promovendo o sentimento de pertença.

Focámo-nos nos interesses e talentos da F., que participava ativamente nas festas da escola, sentindo-se valorizada. Fora da escola, veio a integrar um grupo de dança, mostrando orgulho nessa atividade.

No fim, as expetativas criadas, sobretudo as mais negativas, tendo em conta o que se sabia acerca da F., caíram por terra. Atualmente, toda a comunidade escolar sabe quem é a F., reconhecendo-lhe a simpatia e o sorriso fácil. Nela, foram criadas novas memórias, de um contexto escolar em que se sente segura, envolvida, amada e valorizada.

29/09/2022


 

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