Crónicas do Olheirão de Mário Pereira

Quem semeia ventos colhe tempestades

Vem este dito popular a propósito dos recentes episódios de violência no futebol, nomeadamente o apedrejamento do carro da família do treinador do Futebol Clube do Porto, após uma derrota por 4 a 0.

Gerou-se uma onda de justa indignação contra um pequeno grupo, ao que se sabe pessoas com antecedentes criminais, esquecendo os grandes responsáveis.

O Futebol Clube do Porto tem, há décadas, um presidente que é especialista em usar as emoções dos adeptos para atingir os seus fins. Aliás, os dados financeiros mostram que é bem melhor nisso do que a gerir as contas do clube.

A presidência de Luís Filipe Vieira no Benfica foi uma tentativa de imitar este estilo de liderança, mas a imitação mais radical e quase caricatural foi a presidência de Bruno de Carvalho no Sporting. Como ele não dominava estas técnicas, que em Pinto da Costa são um modo de atuação intuitivo e natural, a aventura acabou com a invasão da Academia de Alcochete por um grupo, que se julgava incumbido da missão de vingar os adeptos face ao menor rendimento dos jogadores.

A atuação destas figuras é sempre amoral, no sentido que não respeitam coisas básicas como a verdade ou a ideia de que todos somos seres humanos com igual valor e merecedores de respeito e com grande à-vontade funcionam nos limites da legalidade e criam esquemas para dificultar o trabalho das autoridades.

Um elemento central neste modelo de liderança é a criação de inimigos e de ameaças que podem ser fictícias ou imaginárias, o que faz com que no futebol se vivam as coisas como se não houvesse adversários, mas apenas inimigos.

O caso da família de Sérgio Conceição é uma situação típica em que quem semeia ventos colhe tempestades. As pessoas que atiraram pedras ao carro, fizeram-no não por uma decisão racional, mas porque a desilusão da derrota fez do treinador inimigo e estariam convencidos de representarem o sentimento coletivo.

O próprio tem contribuído muito para deste clima, contando com grande ajuda de figuras do seu clube e dos outros e muitos comentadores. Não por acaso, foi a comentar futebol na televisão que André Ventura ganhou fama e jeito.

Os casos do Sérgio Conceição e da Academia do Sporting, tal como, o congresso do Chega mostram que faz parte destes líderes tratar pior os inimigos internos do que os externos.

As emoções são essenciais à nossa vida e sobrevivência, além disso o nosso cérebro está melhor preparado para reagir rápida e intensamente às emoções do que ao raciocínio ponderado, o que foi vital quando vivíamos em pequenos grupos isolados.

É este cérebro das emoções que é explorado pelos líderes populistas.

A vida em grandes comunidades, é uma experiência recente da humanidade, que para funcionar exige um elevado controlo das emoções, pelo que atiçá-las pode ser um exercício perigoso, que no limite pode levar à guerra e à destruição, veja-se a Ucrânia, ou deixar à beira da guerra civil países como os Estados Unidos.

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