Entrevista a Eva Vieira de Almeida
Eva Vieira de Almeida – a menina de Cambarinho (Vouzela) que começa no ballet da ACROF em Oliveira de Frades, passa pela academia em Londres e funda em Oeiras uma escola internacionalmente premiada

• Redação
A origem da Eva é a Casa da Portela, em Cambarinho, onde viveram os avós maternos e onde continua a residir a mãe, descendente das Casas do Cimo e do Vale na mesma aldeia. Mantém uma grande ligação com aquele território onde teve uma infância livre e feliz, e confessa que tem uma pedra “escondida lá no fundo” do parque dos Loendros, onde muitas vezes se senta para refletir e pensar no desenho das suas coreografias.
A carta que dirigiu aos alunos da sua Escola de Dança quando decidiu criar uma Companhia de Bailado foi escrita sentada nessa pedra, uma descoberta da sua adolescência na aldeia que fica paredes meias com a maior reserva de toda a Península Ibérica de Rododendros (popularmente conhecidos por Loendros) – uma relíquia do Jurássico – situada na freguesia de Campia, Vouzela.
Eva Nogueira Vale Vieira de Almeida chega a Cambarinho com apenas 2 anos, em 1982, e aí vive até aos 9 anos. Frequentou a escola primária em Campia, e depois disso foi para o Colégio da Bonança em Vila Nova de Gaia, onde fez os dois primeiros anos do ensino secundário em regime interno, até os pais se instalarem no Grande Porto.
Ter crescido em Cambarinho deu-lhe um gosto e uma sensibilidade especial pela natureza, pela magia de certos momentos, e determinou o seu espírito independente e criativo. Crescer na aldeia, em liberdade, permitiu-lhe sair de manhã para o monte com uma merenda e ficar por lá todo o dia. Eva gostava de estar perto de um antigo relógio solar, onde desfrutava a natureza quase íntegra. Adorava observar a natureza e a vida simples ao contrário dos dias de hoje carregados de problemas em cima de problemas nos ombros.
Nos anos 80, a vida era muito dura para a maioria das pessoas da aldeia. Quando apareceu o primeiro trator em Cambarinho, a Eva tinha 6 ou 7 anos. Tinha consciência que, naquele contexto marcadamente rural, era uma privilegiada, não só pela abertura de espírito dos pais, habituados a viajar – a mãe vivera vários anos fora do país – mas também pelas condições materiais da família.
“O legado que o meu percurso pelo mundo rural de Lafões me deixou, tem-me acompanhado ao longo da vida”

Gazeta da Beira (GB) – Quando pensa em Cambarinho, o que lhe vem de imediato à memória?
Eva Vieira de Almeida (Eva) – Para além do cheiro das torradas feitas na lareira, recordo com saudade a broa com chouriça ou com sardinha. Durava muito tempo. Lembro-me de a minha avó a fazer no forno de lenha. Também os maravilhosos rojões, conservados em banha dentro de potes de barro. Na escola primária, lembro-me da professora Margarida, de Oliveira de Frades, conhecida por professora Guida, de quem gostei muito. Nos intervalos das aulas fazíamos espetáculos.
GB – O bichinho das artes performativas já lá estava… Como começou no ballet?
Eva – Comecei as minhas primeiras aulas de ballet em Oliveira de Frades, com a professora Maria de Lurdes. Quando tinha três anos, os meus pais convenceram a professora de ballet de uma escola de Viseu a ir uma vez por semana a Oliveira de Frades. Começo a frequentar a ACROF – Associação Cultural e Recreativa de Oliveira de Frades, onde de facto fiz boa parte da minha formação inicial, e era a alternativa que existia em Lafões nessa época.
GB – No final do secundário encontramo-la em Londres, numa famosa escola de dança. Foi um grande salto!
Eva – Sim, fui com 17 anos para Londres, depois de ter feito formação durante vários anos na escola Balleteatro, no Porto. Ao decidir ir para Londres, o que envolveu um esforço da família, o objetivo era frequentar a Urdang Academy, uma escola superior fundada e dirigida por uma antiga bailarina russa do Teatro Bolshoi, que tinha casado com um lorde inglês. A escola fica em Covent Garden, o centro artístico da cidade, onde se realizavam os castings do West End, e onde ensaiavam musicais famosos como o Cats ou Os Miseráveis. Foi empolgante ter essa possibilidade e esse privilégio.

GB – Regressa a Portugal com 21 anos e vai para Lisboa, com uma formação de alto nível na bagagem. Como foi a sua vida na capital, depois de ter passado por Cambarinho, Porto e Londres?
Eva – Quando já estava em Lisboa, há um dia em que acordo e não me consigo mexer. Tive um problema de coluna complicado, entre as vértebras L5 e S4. Os primeiros diagnósticos indiciavam que corria o risco de ficar numa cadeira de rodas. Para uma bailarina jovem, a situação era impensável, foi dramático. Regressei a casa dos meus pais, no Porto, e foi a equipa médica do Boavista que iniciou o meu tratamento e conseguiu recuperar-me, com muita fisioterapia, e muita força de vontade da minha parte. Foram-me avisando que, provavelmente, nunca mais poderia dançar.
GB – Felizmente melhorou. Retoma a ideia da dança?
Eva – Com as melhoras, vim para casa dos meus tios em Lisboa. Vi num anúncio que estavam à procura de bailarinos para um novo programa da RTP com o Filipe La Féria, o homem dos musicais em Portugal. Fui aos castings e fiquei no corpo de bailarinos do “Sábado à Noite”, um programa de entretenimento na TV, lançado no início de 2001 em homenagem à revista à portuguesa. Quando o programa acabou, comecei a coreografar de imediato, e fiquei quase um ano a trabalhar para um projeto que só durou dois dias, o que deixou toda a equipa muito deprimida.

GB – Como ultrapassou essa frustração?
Eva – Decido ir para o Brasil com a minha mãe. Achei que precisava de desenvolver a minha parte teatral, dramática, para acompanhar a parte vocal e de dança que já estava mais desenvolvida. Cheguei ao Rio de Janeiro, em 2004, inscrevi-me no curso do Centro de Artes das Laranjeiras, onde apanhei professores incríveis como o Fábio Barreto que tinha acabado de ganhar um Óscar pela participação no Melhor Filme Estrangeiro, ligado à Globo. Quando essa experiência estava a correr em pleno, ligam-me de Portugal a propor-me um projeto para coreografar. Se não regressasse, entregariam o projeto a outra pessoa. O dilema, é que o Fábio Barreto também me diz que vai fazer uma minissérie, e queria que eu entrasse. Essa série só iria começar dentro de três meses… voltei para Portugal, mas se calhar devia ter ficado no Brasil.
GB – Uma decisão cheia de mix feelings, que lhe abriu caminho para novos projetos…
Eva – Trabalhei dois ou três meses no projeto que me trouxe de volta, mas acabou por ir por água abaixo. Perante este cenário, opto por ir dar aulas. Fisicamente já não tinha as melhores condições para dançar, e recusei-me a coreografar uma coisa que não iria evoluir como eu queria, e que poderia não ter a qualidade que eu queria. Comecei por dar aulas na Dance Etc., uma prestigiada escola de dança em Campo de Ourique, da Margarida Calais. Conheci o meu marido nessa altura, engravidei, o meu primeiro filho, o Bernardo, nasceu em 2008 e, passado dois anos, nasceu a minha filha, a Sofia. O Samuel veio uns anos depois.

GB – Quando se começa a perspetivar a ideia de criar a sua própria Escola?
Eva – Durante 5 ou 6 anos fiz um programa na televisão de Angola, e passei lá 3 ou 4 meses seguidos para cada edição do programa. Andávamos por todas as províncias a fazer casting, escolhíamos os miúdos, que depois faziam formação intensiva durante mês e meio em Luanda. A participação no concurso televisivo permitia que os miúdos que venciam as eliminatórias, pudessem fazer cursos no estrangeiro. Mudámos a vida de muitas crianças angolanas, ainda colaborei, praticamente pro bono, com um projeto para tirar jovens da rua envolvendo-os num grupo de dança. Foi por essa época que o meu marido começou a incentivar-me a montar uma escola de dança. Entusiasmei-me, encontrei um espaço que podia ser adaptado, perto da estação ferroviária de Oeiras, e comecei devagarinho. A minha ideia era conseguir uma escola de formação. No primeiro ano dei três ou quatro aulas por semana, mas depois a escola foi crescendo.
GB – Começa assim a Escola de Dança Eva Vieira de Almeida, sediada em Oeiras.
Eva – Hoje em dia tenho a escola a funcionar em pleno, com três turmas vocacionais e 12 turmas abertas de vários níveis, mas quero que a escola ganhe mais escala. Vai ser preciso aumentar o espaço físico, para poder vir a ser equiparada a Conservatório como desejo, apesar de o Ministério da Educação considerar que já cumpro os requisitos técnico-pedagógicos necessários. Neste momento temos 8 professores e cerca de 100 alunos.
GB – Imaginamos que fervilham novos projetos.
Eva – Este ano constituímos uma companhia jovem, a Mahatma Dance Company, e fomos convidados pela conhecida artista plástica Joana Vasconcelos para um projeto conjunto no espaço de uma antiga fábrica em Lille, a segunda maior cidade de França, onde a Joana expôs várias peças da sua autoria. Na estação de comboios de Lille, também esteve exposta uma obra gigantesca da Joana, uma orquídea valquíria, e a nossa companhia foi dançar sobre essa valquíria, mas no espaço da antiga fábrica. Fizemos o fecho da exposição que integra o Festival Utopia de Arte Contemporânea de Lille, a 6ª edição do projeto Lille 3000 que anualmente toma conta da cidade. A utopia tem muito a ver com a forma como concebo a dança, é preciso que a dança seja capaz de transmitir algo ao público, que desperte as pessoas para a realidade que vivemos, e para os sonhos que todos temos. Que nos permita sair da apatia, que possa ser reivindicativa.
GB – Sabemos que vem com frequência a Lafões, para a sua casa de família em Cambarinho. Gostaria de um dia regressar acompanhada da sua escola ou da sua companhia de dança?
Eva – A estreia da companhia em Lille foi feita com uma pequena parte de um espetáculo maior que estamos a preparar, e que se chama Êxodus, que encerra em si uma impressionante atualidade e tem muito a ver com o tempo atual, em que vivemos uma terrível guerra na Europa. Esperamos poder estreá-lo numa grande sala de espetáculos da área metropolitana de Lisboa, mas gostaríamos muito de a poder trazer a Lafões, ao Cine-Teatro de Oliveira de Frades onde comecei, a Vouzela, o concelho da minha aldeia, e ao Cine-Teatro Jaime Gralheiro, de S. Pedro do Sul, uma bonita sala com muita tradição. Já pus a hipótese de criar uma escola de dança em Lafões, mas tenho o problema da distância. Sou muito perfecionista e teria de estar em Lafões para acompanhar permanentemente os trabalhos. Por agora, a estrutura da Escola em Oeiras está muito apoiada em mim.

GB – Haveria alguma outra forma que não fosse em permanência?
Eva – O que seria possível era fazer uma espécie de summer school em Lafões. Trazer os meus professores até aqui, e colocar nessa iniciativa o mesmo rigor que temos na Escola. Já pensei nisso… Com a nossa Companhia, a Mahatma Dance Company, promover a dança na região. De certo modo, prestar o meu tributo ao lugar que me viu nascer para a dança. A designação da companhia – Mahatma – tem muito a ver com o que aprendi na infância e adolescência em Cambarinho. Mahatma significa “grande alma”, simboliza a sabedoria dos mais antigos que são os nossos mestres, os irmãos mais velhos. Na cidade os idosos estão em grande parte escondidos, fechados em casa ou nos lares. Na aldeia não é assim, os idosos estão nos largos, conversam, convivem, ajudam em certos trabalhos, são reconhecidos pelos mais novos, os seus conhecimentos são valorizados, são em geral pessoas prestigiadas pela comunidade. Gostava muito que a Mahatma Dance Company, apesar de ser composta por jovens e ser muito técnica, tivesse essa alma, esse cunho de que a idade é um posto. Esse é o legado que o meu percurso pelo mundo rural me deixou e que me tem acompanhado ao longo da vida. Sim, Lafões está no meu horizonte.
GB – Obrigado, Eva, e esperamos poder contar para breve com o seu trabalho e dedicação no cenário cultural lafonense.
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