Crónica do Olheirão por Mário Pereira

O professor homofóbico e o professor catorzofóbico

Foi notícia recente, que, na Universidade de Aveiro, um professor foi suspenso depois de ter escrito numa rede social que era homofóbico e feito alguns comentários desagradáveis sobre a homossexualidade.

Esses comentários geraram tal clamor entre alunos e colegas do professor que o reitor acabou por abrir um inquérito e decretar a suspensão do dito professor com o argumento de que algum aluno ou aluna homossexual poderia sentir-se intimidado nas aulas ou que o professor poderia vir a prejudicar alguém na avaliação devido aos seus preconceitos. Note-se que a notícia não diz que isso já aconteceu.

Depois de ler a notícia ao conversar com amigos contaram-me que um/a estudante da Universidade de Aveiro, que já tinha feito as disciplinas todas do semestre, ia ficar mais uns dias em Aveiro a estudar para tentar fazer um exame de melhoria da nota de uma certa disciplina. Até aqui tudo normal.

A anormalidade começa quando me dizem que ia fazer melhoria a uma disciplina a que tinha 12, mas que os colegas lhe diziam que não valia a pena porque já tinha uma nota fantástica, uma vez que a nota máxima que o professor costumava dar era 13.

Quero deixar claro que não conheço nenhum dos professores e nem sequer são os comentários de um ou as notas do outro que me interessam.

Mais do que isso preocupam-me as reações dos alunos, dos professores e do reitor da Universidade de Aveiro, porque revelam algo que me parece estar errado.

Um professor foi suspenso na sequência da onda de indignação gerada pelos seus comentários nas redes sociais, porque eles indiciariam uma propensão para discriminar e prejudicar alguma aluna ou aluno homossexual.

Enquanto isso um outro professor que, ano após ano, prejudica todos os alunos, quer sejam homossexuais, bissexuais ou heterossexuais, não gera nenhuma onda de indignação entre os alunos nem entre os colegas professores.

Os prejuízos para um aluno que tenha 12 a uma disciplina, porque um professor guarda as notas para si, são objetivos, porque pode ser preterido na admissão a um mestrado ou a um doutoramento, por ter uma nota que estraga a sua média, com sérios impactos no seu futuro pessoal e profissional.

O professor homofóbico pode ter escrito e dito algumas parvoíces, mas em democracia as opiniões parvas não se condenam, combatem-se. Se aceitamos que alguém seja processado e condenado pelas suas opiniões e não pelos seus atos corremos o risco de um dia destes haver quem nos condene pelo que escrevemos na Gazeta.

Enquanto isso um/a professor/a que, com os seus critérios de avaliação, prejudica todos os alunos pode continuar, em nome da autonomia pedagógica e da sua autoridade, a carreira sem riscos de ser criticado em público ou de ser suspenso pelo reitor.Do meu ponto de vista, se algum deles merecia ser suspenso, sem dúvida, seria este. Objetivamente, estas situações revelam uma dualidade de critérios muito perigosa.

15/09/2022


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