Entrevista a Carla Almeida

Professora

“Gente Que Ousa Fazer”

 Olá! Estarei convosco para responder a mais um desafio. Espero não vos desiludir.

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

“Saber que marquei alguém de alguma forma e contribuí para o seu desenvolvimento, cognitivo, social, físico, emocional e artístico é sem dúvida um motivo de orgulho pessoal.”

• Paula Jorge

Ficha Biográfica

Nome: Carla Almeida

Idade: 48

Profissão: Professora

Livro preferido: O Leitor, de Bernhard Schink

Destino de sonho: Nova Iorque (na época de Natal)

Personalidade que admira: Já falecido: Aristides Sousa Mendes; Da atualidade: Cristiano Ronaldo; Sem ser figura pública: a minha mãe.

 

Muito obrigada, Carla Almeida, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio.Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?

Carla Almeida (CA) – Olá Paula! Antes de mais agradeço o convite para esta entrevista, sinto-me muito honrada por me considerares “Gente que Ousa Fazer” … (risos)

Estudei durante os Ensinos Básicos e Secundário na Escolas de S. Pedro do Sul. No ensino Superior, frequentei o curso de professores na vertente de Educação Física, No Instituto Politécnico de Viseu – Escola Superior de Educação, onde fiz também uma pós-graduação em Desporto e Atividade Física. Frequentei, também, o Mestrado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em Educação Física.

Iniciei a minha carreira docente em 1996, dei aulas em todos os ciclos (Pré-Escolar, 1º, 2º, 3º ciclos e Secundário) e também estive destacada na Educação Especial durante alguns anos. Experiências muito variadas e enriquecedoras!

PJ O ensino é uma paixão? Como se revê nesta sua missão?

CA – Fui para professora por vocação, por opção e porque acreditava que tinha perfil para exercer esta tão nobre profissão (cada vez com menor reconhecimento) e porque entendia que era a exercer estas funções que iria ser feliz e me sentir realizada.

Sou professora há 26 anos e acredito ter cumprido e continuar a cumprir uma missão de grande relevância, formando crianças e jovens que serão os futuros cidadãos do nosso país. Prova disso é o facto de vermos ex-alunos realizados na sua profissão (alguns médicos, professores, engenheiros, advogados, … mas, também mecânicos, eletricistas, cabeleiros, entre outras profissões) e quando nos encontram décadas depois, vêm falar connosco e espelham o carinho e admiração que nos nutrem. Saber que marquei alguém de alguma forma e contribuí para o seu desenvolvimento, cognitivo, social, físico, emocional e artístico é sem dúvida um motivo de orgulho pessoal. Mais do que ensinar, é nossa missão formar pessoas capacitadas em vários domínios, mas acima de tudo pessoas com elevados princípios de cidadania.

 

PJ – Na sua perspetiva, como se encontra, atualmente, o ensino em Portugal?

CA– No início de carreira costumava dizer: faço o que gosto e ainda me pagam por cima! (risos)… Hoje não vejo as coisas dessa forma.

A profissão de professor é cada vez menos valorizada, cada vez mais desgastante, é um trabalho muito burocratizado, exige maior capacitação, entrega e disponibilidade de tempo para o exercício de todas as funções. Para além disso, o reconhecimento do empenho e dedicação docente não é tido em conta nas decisões políticas (congelam carreiras, criam cotas para acesso a escalões de progressão, alteram regras de concursos, não integram no quadro professores que sempre foram necessários nas escolas, mas continuam há décadas como contratados, retiram direitos conquistados pós 25 de abril…). Infelizmente assistimos a um número crescente e assustador de situações de burnout, onde encontramos os docentes no limite das suas capacidades físicas e psicológicas. É importante refletirmos: porque será que na entrada para o Ensino Superior há cada vez menos candidatos aos cursos de formação de professores? Com uma classe muito envelhecida e poucos jovens a integrar a carreira, adivinha-se uma situação muito preocupante para as próximas décadas no Ensino em Portugal.

Depois há também outras situações para reflexão como é o caso da importância que se dá aos resultados… rankings das escolas, diplomas de mérito/excelência, provas de avaliação externa (aferição e exames) … cada vez mais se valorizam os números e a estatística, e, infelizmente, em função de resultados são atribuídos às escolas recursos especializados quando, na minha opinião, deveriam ser disponibilizados obrigatoriamente em todas as escolas de forma igualitária.

Mas é claro que existe o outro lado…

Continua a ser enriquecedor ver o desenvolvimento dos nossos alunos. É positivo perceber que a escola é cada vez mais uma instituição que assenta nas características individuais e especificas de cada aluno, cada vez mais assenta no desenvolvimento de projetos e de trabalho colaborativo que desenvolvem a autonomia, competências cognitivas, sociais e emocionais, há um maior envolvimento das famílias e Comunidade.

PJ – Sei que abraçou já há alguns anos o projeto “Vozes da Terra”. Fale-nos sobre esta sua experiência até aos dias de hoje.

CA – O “Vozes da Terra” é um grupo de música tradicional e popular portuguesa, sediado em Vouzela, que iniciou a sua atividade em 1994. Cerca de 2 anos depois passei a integrar o grupo e, 26 anos passados, ainda faço parte deste projeto integrado por pessoas que, para além de amigos, considero como “uma segunda família”. Durante mais de um quarto de século muitos foram os projetos desenvolvidos na pesquisa e divulgação da música tradicional de todas as regiões do país, na adaptação de músicas de cantautores de nome reconhecido em Portugal no âmbito da música popular, a difusão da música de intervenção, e, posteriormente, a criação de músicas originais sempre na base da vertente tradicional.

Nestas quase 3 décadas de existência muitas foram as experiências vividas: atuar em palcos de todo o país, ingressões no estrangeiro, participações em programas de rádio e televisão e a gravação de 3 trabalhos discográficos. No entanto, tão ou mais importante do que estes exemplos, são os momentos de partilha e convívio que temos uns com os outros. Estas e outras experiências enchem-me, sem dúvida, de orgulho e enriquecem a minha pessoa.

 

PJ – Destaque alguns concertos que mais a marcaram no grupo “Vozes da Terra”.

CA – Apesar de terem havido concertos e participações muito importantes em vários contextos, não poderia deixar de destacar aqueles que mais me marcaram pessoalmente: os concertos de apresentação dos nossos 3 CD´s (“Rondó”, “Tributos” e “Origens”), o concerto de comemoração dos 25 anos do grupo Vozes da Terra e os concertos dedicados ao 25 de abril.

PJ – Fale-nos especificamente do último trabalho do “Vozes da Terra”, “Origens”, e qual o impacto que está a ter perante o público.

CA – Origens é um trabalho no qual tenho muito orgulho! É um CD de músicas originais na qual tive uma intervenção muito direta na criação de algumas letras e músicas. É um trabalho que retrata a cultura de um povo, o testemunho de gerações, as tradições de uma região e as vivências pessoais e a memória coletiva dos elementos do grupo.

A ideia de base foi falar das “nossas” origens, retratando o que nos foi transmitido pelas pessoas de gerações anteriores e pretendendo transmitir essas vivências às gerações futuras. Não podemos deixar esquecer a nossa história, a nossa cultura e as nossas tradições!

Os arranjos foram trabalhados no segundo trimestre de 2021 e a gravação foi feita em setembro de 2021. O espetáculo de apresentação foi em maio de 2022 com a participação de vários artistas locais, nacionais e de renome internacional (como é o caso de Celina da Piedade, madrinha deste projeto). Tem acolhido um grande reconhecimento do público em geral e a fase seguinte passa por levar este espetáculo a outros palcos.

PJ – Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso de vida e profissional, quer no ensino, quer na área musical. Quer partilhar connosco uma das histórias que mais a marcou?

CA – Poderia contar muitas histórias, mas… vou focar-me numa de cariz profissional enquanto professora… marcou-me para o resto da vida!!!

Há cerca de 12 anos atrás, estava a iniciar uma aula de Educação Física, numa turma do 5º ano e logo no início da aula, enquanto os alunos faziam o aquecimento, um menino perguntou-me:

– Stora, ainda falta muito tempo para acabar a aula? Respondi:

– João (nome fictício) mas a aula ainda agora começou!

Passado poucos minutos o João voltou a questionar:

– Stora quantos minutos faltam para acabar a aula? Retorqui:

– Mas João só estamos aqui há 10 minutos, a aula tem 90 minutos, ainda vamos fazer exercícios com bolas, fazer uns exercícios em grupo e no final vamos fazer um jogo. Tu gostas de jogar João! Não gostas de Futebol? O João respondeu comprometido:

– Gosto, stora! Em casa não tenho brinquedos nem bolas como as que há aqui na escola. Gosto muito de jogar Futebol, mas… a stora disse que no final da aula iriamos tomar banho. Ainda falta muito para irmos tomar banho? É que a água aqui na escola é tão quentinha!!! (vieram-me as lágrimas aos olhos…)

Nesse momento percebi que o mais importante não eram os conteúdos que iria abordar naquela aula. Naquele momento não era preciso ensinar-lhe nada! Aquele menino de 10 anos (que vivia numa aldeia isolada junto à Serra da Freita, numa casa sem condições) que em vez de brincar, trabalhava nas terras e tratava dos animais, aquele menino que ao domingo tinha de aquecer água na panela de ferro da lareira para tomar banho ou então tinha em opção a água fria do poço, aquele menino que saía de casa para vir para a escola às 6h30 e chegava já escuro às 18h30 (quando o transporte podia passar se não houvesse neve), aquele menino que não tinha ninguém em casa que soubesse ler para o ajudar a fazer os TPC`s, aquele menino que não tinha explicações, não andava no ballet, ou karaté, na música ou no teatro… aquele menino só queria tomar banho de água quentinha!!! Naquele momento, o João não precisava de uma professora que lhe ensinasse nada… precisava de alguém que lhe desse igualdade de oportunidades e Amor!!!

Chamei a funcionária e disse-lhe:

– Por favor, prepare uma tolha, produtos de higiene, roupa lavada (que tínhamos sempre guardada num armário) e acompanhe o João ao balneário para ele tomar banho durante o tempo que ele quiser… (novamente lágrimas nos olhos).

Aprendi uma lição com o João para o resto da minha vida…

 

PJ – Quer falar-nos de outro projeto em que esteja envolvida e que não tenha sido aqui falado?

– Eu toda a minha vida estive sempre envolvida em vários projetos em simultâneo. Nunca fui de fazer uma coisa só!

Quando era miúda para além da escola, tinha de ajudar no restaurante dos meus pais (trabalhava no duro, não tinha fins-de-semana nem férias!) e, para além disso, ainda fazia Atletismo, Andebol, Ginástica e Futebol. Andava sempre de um lado para o outro. Durante a minha formação, para além do curso Superior, fiz vários cursos técnicos das Federações como cursos de treinadores de Atletismo, de Natação, de Andebol e Formação de Juiz Nacional de Atletismo. Sempre senti necessidade de vivenciar várias experiências. Mais tarde, joguei Futsal e, posteriormente, fiz parte da equipa técnica da Equipa Unidos da Estação em Futsal feminino.

Hoje, quase com meio século de vida (!!!), não consigo ser diferente! Faço várias coisas ao nível profissional. Primeiro, enquanto docente, sou professora de Educação Física e também de outras disciplinas como Dança ou Expressão e Comunicação. Fora da Escola, desde há cerca de 20 anos, sou também professora num Jardim de Infância e professora responsável do Grupo de Ginástica Acrobática da ACROF. Estas duas vertentes permitem-me desenvolver a minha faceta criativa na criação de coreografias e espetáculos com crianças. Conseguir fazer espetáculos, com crianças do Ensino Pré-Escolar, de 3 aos 5 anos, fazendo musicais como Cinderela, Branca de Neve, Rapunzel, Alice no País das Maravilhas, Aladino entre outros, é qualquer coisa desafiante, motivante, mas que exige uma grande entrega e disponibilidade. No que diz respeito ao trabalho desenvolvido na ACROF, é ainda mais absorvente… para além dos treinos semanais, existem as saídas para saraus gímnicos e os espetáculos e eventos para os quais somos convidados ou que são organizados por nós. Fui a criadora do Sarau Gímnico “LAFOGYM” (que infelizmente nos últimos 2 anos não aconteceu devido à pandemia), onde estão presentes centenas de ginastas e clubes de renome nacional e internacional. Os espetáculos da ACROF são também momentos de grande orgulho, onde, quase sempre, temos de fazer o espetáculo em dois dias, porque os bilhetes esgotam rapidamente por não existirem lugares na plateia para tanto público. A questão é que para apresentar alguns minutos de espetáculo, são precisas horas e horas de trabalho, muitas vezes com poucos recursos humanos e materiais. Saliento que este trabalho tem apenas um cariz de exibição e não de competição, o que eu quero e costumo dizer com frequência é que as crianças sejam felizes naquilo que fazem!

 

PJPara além de tudo o que já foi referido, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?

CA– Sou mulher de muitas paixões…

Poucos sabem que gosto de escrever (há muito tempo que não o faço)… guardados num baú estão muitos textos (poesia e não só) que foram escritos ao longo de décadas. Quem sabe um dia não os publique…

Um dos meus objetivos a médio prazo é criar um texto dramático que dê origem a um espetáculo que contemple várias áreas artísticas (teatro, música, dança…). É um projeto que vou adiando e espero um dia concretizar (quando tiver tempo para isso).

Outra das minhas paixões é o Teatro. Tenho o Curso de Formação Teatral – nível Já fiz vários workshops de teatro e participações em espetáculos com a companhia de Teatro Trigo Limpo da ACERT (“Em Viagem”, “Personagens em Fuga”, “O Pequeno Grande Polegar”…) e ACROF (Retalhos de Teatro, Grupo Clown da ACROF…), para além de participações individuais para as quais fui convidada.

A minha última paixão passa pelo Canto Polifónico Feminino (candidato a Património Imaterial Da UNESCO). No ano passado participei nas oficinas de Canto Polifónico Feminino, no âmbito do Projeto Cultura Entre Pontes, e durante o ano tivemos imensas atuações por todo o país com o grupo Canto a Vozes (que resultou dessas oficinas). Este ano continuo a integrar o Projeto e tenho muito orgulho em poder participar na divulgação e reconhecimento do canto polifónico, tão característico das tradições da nossa região.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

CA – Eu sou… lutadora!

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

CA – O meu coração diz que sou uma pessoa realizada e feliz!

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Carla Almeida! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve para os nossos leitores.

CA – Nunca deixem de perseguir os vossos sonhos! Não deixem de fazer as coisas que vos fazem felizes… Sejam… GENTE QUE OUSA FAZER!

14/07/2022


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