“40 anos a Dar Notícias de Lafões”
Gazeta da Beira comemora 40 anos de edição com Exposição e Colóquio em Vouzela
• Redação

Decorreu no passado fim de semana, no belo edifício do Museu Municipal de Vouzela, o ato comemorativo do 40º aniversário da Gazeta da Beira (GB), com uma exposição centrada em primeiras páginas marcantes desde a saída do nº 1, precisamente a 25 de junho de 1982, e um colóquio com um painel de convidados ligados ao jornalismo e, nalguns casos, a Lafões.
A participação foi muito significativa, num dia em que se festejava em Vouzela o S. João com grande animação de rua. Foi gratificante contar com a presença de anteriores diretores do jornal, desde logo de Fernando Luís Santos que, com apenas 29 anos de idade, assumiu a primeira direção da GB. Os ex-diretores Carlos Matias e António Alexandrino também participaram e intervieram. António Bica, o diretor que esteve mais tempo à frente do jornal, enviou mensagem de congratulação pela iniciativa, tal como Patrícia Fernandes que foi a mais jovem diretora deste periódico lafonense.

O Município anfitrião fez-se representar ao mais alto nível, com o presidente Rui Ladeira e os vereadores Carlos Oliveira e Carla Maia. Muitos amigos da GB e membros das várias equipas de direção não quiseram deixar de se juntar ao evento, como Ester Vargas, que foi diretora adjunta, Paula Jorge e Mário Pereira, atualmente diretora adjunta e subdiretor, respetivamente.

Colaboradores permanentes ou ocasionais, como João Fraga de Oliveira, Manuel Silva, Graça Barão e Mário Oliveira, uma delegação da Confraria dos Gastrónomos de Lafões, liderada pela sua Grão-Mestre, Celeste Carvalho, e também da Casa de Lafões em Lisboa, representada pela dirigente Carla Bica. A Câmara de São Pedro do Sul, na impossibilidade de se fazer representar, enviou mensagem, tendo sido apreciada a presença de personalidades da vida de Lafões como Carlos Carvalhas, Isabel Silvestre, João Carlos Gralheiro ou o cineasta José Alexandre Cardoso Marques, lafonense que já foi distinguido com o Prémio Prestígio-Carreira Anim’Arte.
Adelino Gomes trouxe duas prendas para o colóquio da Gazeta da Beira
O jornalista Adelino Gomes, autor de “Os rapazes dos tanques”, esteve em Vouzela.
O colóquio abriu com breves palavras de boas-vindas do diretor da GB, Pedro Soares, que se referiu à importância do jornalismo local que, para além de “fazer a história de uma região”, é “essencial para a saúde da democracia local”. Pedro Soares agradeceu os apoios da Câmara Municipal de Vouzela para a realização do colóquio e saudou todos os que “ao longo de 40 anos asseguraram, enfrentando todas as dificuldades e contrariedades, a continuidade da Gazeta, equipas de direção e colaboradores em geral, sempre de forma voluntária”, fazendo uma referência especial “à diretora que nos deixou há dois anos, a Maria do Carmo, uma apaixonada pelas gentes de Lafões”.
Participaram como oradores no colóquio o presidente Rui Ladeira, os jornalistas Adelino Gomes, Luís Pinheiro de Almeida e Manuela Goucha Soares, e a professora Carla Martins (ver textos dos próprios nesta edição), com intervenções que prenderam a atenção dos participantes e suscitaram reflexões sobre o papel da imprensa local a partir das suas próprias experiências.
Adelino Gomes, o conhecido repórter do 25 de Abril, trouxe à colação um texto de Carlos Castilho, jornalista brasileiro, professor universitário e membro do Observatório da Imprensa, com o título “O futuro da imprensa está no jornalismo local” (disponível na Internet). Adelino Gomes, em declarações para a GB, refere que “o melhor presente que se pode dar a um jornal local com 40 anos, é um artigo de um jornalista emérito que faz uma profissão de fé no jornalismo local”. De facto, Carlos Castilho diz que “alguns podem achar que estou a exagerar, outros que o título reflete interesses pessoais não identificados, mas quem for até ao fim do texto verá que a nova conjuntura da comunicação mundial transformou o jornalismo local na melhor alternativa para atender às necessidades informativas da sociedade digital.”
O outro presente foi ter levado o testemunho de um jovem que não sabia se regressaria a casa vivo ou preso e que fez uma coisa extraordinária que foi, num momento de tensão extrema, ter tido a capacidade de ponderar uma ordem do capitão Salgueiro Maia, comandante da coluna de 240 homens que saiu de Santarém em direção a Lisboa na madrugada do dia 25 de Abril de 1974. O alferes Sampaio é de Tondela, vizinho de Lafões, comandava a viatura blindada, uma Panhard EBR, posicionada frente ao Quartel do Carmo, onde se tinha refugiado Marcelo Caetano, e, perante o impasse a que as negociações para a rendição tinham chegado, recebeu ordem para disparar o canhão de 90 mm contra o edifício *.
No colóquio, o “alferes” Sampaio conta que receou pelo efeito dos estilhaços de um projétil sobre os populares que enchiam o Largo do Carmo. Esta ponderação foi o tempo suficiente para que tivesse chegado um mensageiro de Spínola para obter a rendição de Marcelo. Adelino Gomes diz que “foi assim que se garantiu que no 25 de Abril não tivesse havido sangue provocado pelos militares antirregime. Foi um homem desta região, um verdadeiro herói, que o fez e ainda hoje tem orgulho nisso.”
Os 40 anos da Gazeta da Beira foram assim, com alegria e determinação para lutar pelo futuro, que os tempos que aí vêm advinham-se muito difíceis. A partilha do bolo de aniversário e de um branco de Lafões, da Quinta da Comenda, foi apenas o pretexto para as conversas e o convívio que se prolongou e acabou por se transferir para os festejos de S. João.
* Este episódio é descrito por Adelino Gomes no livro “Os rapazes dos tanques”, editado pela Porto Editora.
É um orgulho escrever sobre Lafões
• Luís Pinheiro de Almeida*
É uma honra e um grande prazer participar nos 40 anos da “Gazeta da Beira”, para quem tenho uma dívida de gratidão. No Verão deste ano, e porque estava “bloqueado” na escrita de um livro, e através da Manuela Goucha Soares, Pedro Soares abriu-me as portas do jornal e de 15 em dias escrevia um texto que foi o grande “empurrão” para o livro. Muito, muito obrigado.
Luís Pinheiro de Almeida no 40º aniversário da Gazeta da Beira à conversa com Carlos Carvalhas e Michelle Rosarosso
A “Gazeta da Beira” é um excelente jornal. Comparo-o ao “Notícias da Amadora”, ao “Jornal do Fundão” e ao “Comércio do Funchal”, grandes jornais locais que se tornaram referências nacionais!
Vale o que vale, mas um dia, em casa de família em Pinheiro de Lafões, sentado num sofá a ler a Gazeta, José Pacheco Pereira, historiador e fundador da associação cultural Ephemera, atirou-me: “mas que belo jornal, muito bem feito!”. Fiquei estupefacto e quinzenalmente recebe o jornal na Associação.
É sempre um orgulho escrever sobre Lafões, o meu Pai nasceu em Oliveira de Frades, o meu irmão mais novo vive em Pinheiro e eu, com muita frequência venho cá acima e procuro sempre informação relevante para a partilhar nas redes sociais, agora que estou reformado da profissão que abracei há 49 anos!
* Jornalista com origens em Oliveira de Frades, ex-chefe de redação da ANOP e diretor de informação da LUSA (1990).
“um dia, em casa de família em Pinheiro de Lafões, sentado num sofá a ler a Gazeta, José Pacheco Pereira, historiador e fundador da associação cultural Ephemera, atirou-me: “mas que belo jornal, muito bem feito!”. Fiquei estupefacto e quinzenalmente recebe o jornal na Associação.” Luís Pinheiro de Almeida
Desafios e transformações do jornalismo local
• Carla Martins *
Carla Martins participou no Colóquio do 40º aniversário da Gazeta da Beira
Segundo dados recentes do regulador da comunicação social, o setor da imprensa local e regional é constituído por um número elevado de publicações, 741, que representa 43% do total de publicações registadas. Perto de 6% destes jornais e revistas está sedeada no distrito de Viseu.
Em muitos estudos esta imprensa é também designada de “proximidade”, que aqui expressa a ideia de uma comunidade geográfica e simbólica e está conectada com território, identidade, quotidiano, memória e história.
Esta mesma imprensa tem perante si desafios complexos.
O primeiro relaciona-se com a sustentabilidade económica. Os meios locais foram os mais afetados pela pandemia de Covid-19 e agora a imprensa enfrenta a escalada do preço do papel. A fragilidade económica é um obstáculo à profissionalização, ao pluralismo, à independência.
Nem todos os meios estavam preparados para o impacto da crise pandémica, que acelerou a digitalização da comunicação social. A adaptação ao digital é outro grande desafio a considerar, mas com especificidades no que diz respeito à imprensa local que, segundo Quintanilha e outros (2018), é um “bastião da imprensa tradicional no país”.
Os editores reconhecem que os modelos conduzidos pelos produtos impressos estão em declínio, e de que têm de prosseguir outras abordagens editoriais e comerciais, embora seja complexa a transição entre gerações de leitores.
De acordo com várias pesquisas recentes, a boa notícia é que a imprensa local tem futuro. Num ambiente de saturação informativa e comunicacional, há um retorno da atenção às “raízes”, num sentido muito profundo de identidade e pertença comunitárias.
Dever-se-á ter presente que a rarefação da paisagem da imprensa local e regional não é apenas uma perda para o pluralismo e a diversidade, mas tem consequências ao nível da participação política e cidadã.
Recupero um artigo de Joshua Benton, no Nieman Lab, intitulado “Quando os jornais locais encolhem, menos pessoas se dão ao trabalho de concorrer para presidente da câmara”. Esta problemática está a ser tratada no projeto “Deserto de Notícias”, trazido dos Estados Unidos, desenvolvido em Portugal por um investigador da Universidade da Beira Interior. Em setembro de 2021, Giovanni Ramos detetou 61 concelhos sem qualquer meio local, imprensa ou rádio. Como se informam os cidadãos destas comunidades sobre as suas próprias instituições políticas? Esta situação contribui para um menor envolvimento político e para o aumento da abstenção? E é terreno fértil para a desinformação?
Tem sido sistematicamente apontada a ausência de políticas públicas adequadas dirigidas à realidade dos órgãos de comunicação social regional e local. Avultam as críticas de que os poderes públicos têm ignorado ou desvalorizado o papel que aqueles desempenham em prol das comunidades, sobretudo em regiões mais desertificadas e deprimidas.
Em paralelo, estando a descentralização e a regionalização na agenda política, é válido questionar se se pode conceber uma estratégia de coesão territorial sem se considerar a existência de media locais fortes. Colocar o país – todo ele – no mapa informativo é um motor de desenvolvimento económico, social, cultural e político.
* Coordenadora da Unidade da Transparência dos Media da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social; Professora na Universidade Lusófona.
“Avultam as críticas de que os poderes públicos têm ignorado ou desvalorizado o papel que aqueles desempenham em prol das comunidades, sobretudo em regiões mais desertificadas e deprimidas.
Em paralelo, estando a descentralização e a regionalização na agenda política, é válido questionar se se pode conceber uma estratégia de coesão territorial sem se considerar a existência de media locais fortes.” Carla Martins
A importância do jornalismo do ‘fim da rua’
• Manuela Goucha Soares *
Manuela Goucha Soares foi uma das oradoras no 40º aniversário da Gazeta da Beira
No ano em que a Gazeta da Beira nasceu (1982), Portugal vivia entre duas intervenções do Fundo Monetário Internacional (1977 e 1983), a moeda era o escudo, a taxa de analfabetismo – de acordo com o Censo à população do ano anterior – era de 18,6%, sendo de 13,7% nos homens e 23% nas mulheres, sequela de décadas de baixa alfabetização de toda a população, em que as mulheres foram as mais penalizadas.
Os jornais nacionais – sobretudo os publicados no Porto (Jornal de Notícias, Comércio do Porto e Primeiro de Janeiro) – tinham correspondentes nos vários distritos e, também, na região de Lafões. Esses correspondentes eram (maioritariamente) pessoas muito atentas a tudo o que se passava na região, apesar de raramente terem formação jornalística. Recolhiam informação nas diversas localidades, escreviam os textos à máquina ou à mão porque não existiam computadores, ditavam-nos muitas vezes a partir de uma cabine telefónica ou do posto de correio, porque poucos tinham telefone fixo instalado em casa.
Nesse ano de 1982, os fundadores da Gazeta da Beira entenderam que tinham espaço para uma nova publicação sobre Lafões, um novo olhar que viesse complementar o trabalho do jornal regional Notícias de Vouzela que já tinha mais de quatro décadas. Deram um sinal de atenção à história, recuperando o nome Gazeta, quem sabe se em homenagem à Gazeta da Restauração, o primeiro jornal português, cujo primeiro número tinha 12 páginas e foi posto a circular a 3 de dezembro de 1641 – para relatar “as Novas Que Houve Nesta e Que vieram de Várias Partes”.
Mais de três séculos depois, a Gazeta da Beira nasce dois anos após a primeira emissão a cores da RTP – a única empresa televisiva que existia. Por esses dias, a região de Lafões mudava, progredia, assistia à construção de novas infraestruturas como a rede de abastecimento de água e o saneamento básico em muitas aldeias – a rede elétrica começara a ser ampliada na ‘primavera Marcelista. O tecido social local também dava mostras de progredir com a consolidação da Democracia, e a instalação na zona dos chamados retornados de Angola e Moçambique, apesar de muitos deles não estarem a retornar, mas a migrarem para as terras de onde tinham partido os seus ascendentes, décadas antes (houve uma migração significativa de várias localidades de Lafões para as duas ex-colónias a partir dos anos 20 do século passado, como acontecera para o Brasil no final do século XIX).
No final da década de 80 e no princípio da década de 90 do século passado, surgem as rádios locais, a SIC e a TVI, novos jornais e projetos editoriais. A rádio TSF renova o panorama informativo, lembrando a importância do jornalismo do ‘fim da rua’, de como é urgente saber o que se passa na nossa rua, na nossa comunidade: É esta a essência do jornalismo local que os jornais locais e regionais também fazem.
Os anos passam, as redações informatizam-se, o telex é substituído pelo fax (depois pelo e-mail), títulos como os dos vespertinos lisboetas Diário Popular e Diário de Lisboa começam a enfrentar dificuldades, e acabam por deixar de se publicar. O mesmo se passa a Norte com o Comércio do Porto e o Primeiro de Janeiro.
Com a entrada do século XXI, a internet confronta a imprensa escrita com uma mudança de paradigma. Os semanários e diários passam a ter sites de actualização constante, as rádios seguem o exemplo, as televisões também. Torna-se mais fácil ler jornais estrangeiros, mas, paradoxalmente, ficamos cada vez mais distantes das notícias da nossa comunidade, do sítio onde crescemos ou fizemos férias em crianças. Os jornais locais começam a enfrentar novas dificuldades. São muitas vezes feitos com o esforço e voluntarismo de ‘carolas’ que lutam para manter os laços da comunidade.
A pandemia da covid-19 começou por provocar uma quebra de venda dos jornais impressos, as pessoas saíram menos de casa, muitos pontos de venda fecharam ou reduziram o horário de atendimento, a distribuição complicou-se, o ritmo de procura de informação por parte dos leitores passou a ser o momento.
Essa quebra na venda de jornais impressos, levou as empresas produtoras de papel de jornal a procurarem novos mercados – muitas delas passaram a fabricar cartão para embalagens. Tudo isto contribuiu e contribui para uma enorme escalada no preço do papel de jornal (como já não existia desde a Grande Guerra).
Quarenta anos depois da GB ‘nascer’, todos queremos e precisamos de saber o que se passa na nossa rua, na nossa comunidade, e é por isso que a informação local continua a ser necessária e fundamental.
* Jornalista do semanário “Expresso”
“a Gazeta da Beira nasce dois anos após a primeira emissão a cores da RTP – a única empresa televisiva que existia. Por esses dias, a região de Lafões mudava, progredia, assistia à construção de novas infraestruturas como a rede de abastecimento de água e o saneamento básico em muitas aldeias – a rede elétrica começara a ser ampliada na ‘primavera Marcelista’. O tecido social local também dava mostras de progredir com a consolidação da Democracia, e a instalação na zona dos chamados retornados de Angola e Moçambique” Manuela Goucha Soares.
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