Carlos Vieira e Castro
Portugal, O Bom Colonizador?

Este título foi o tema de uma conversa com o historiador Miguel Cardina, no passado 18 de Maio, em Viseu, na Carmo 81 (onde também esteve patente a exposição de fotografias sobre a Guerra Colonial “As Lavadeiras da Guerra”, de Fátima Teles, a documentar a violência cultural e sexual sobre as mulheres africanas colonizadas), uma iniciativa da Plataforma “Já Marchavas” e da CULTRA, inserida nas comemorações dos 50 anos da revolução de Abril – ABRIL É AGORA.
Cardina utiliza a expressão “nacionalismo banal”, teorizada por Michael Billig, para aludir ao “conjunto de práticas, de rituais e de discursos que tecem as formas como a nação se imagina e reproduz a si própria”. E dá exemplos: discursos de Cavaco Silva recuperando o “lusotropicalismo” do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, de que Salazar se apropriara, apresentando os portugueses como colonialistas diferentes dos demais, de “brandos costumes”, que se miscigenaram (como se outros não o tivessem feito, muitas vezes à força, como nós!) ; as letras de algumas canções dos Heróis do Mar ou dos Da Vinci (“O Conquistador”), nos anos 80,naturalizando o nacionalismo, já não com o colonialismo como elemento essencial, enquanto realidade política, mas enquanto imaginário. Como disse Eduardo Lourenço: “um colonialismo não colonial, imaginado por Portugal”.
Esta “afasia colonial” (Ann Laura Stoler), a incapacidade de nomear o passado colonial e verbalizar a violência constitutiva do colonialismo, já começou a ser posta em causa na sociedade portuguesa, o que levou o actual presidente da República a exortar ao seu estudo, mas sem “autoflagelações excessivas”, acabando por caír, também ele, no Senegal, num discurso mistificador e mitológico, dizendo que “ Portugal foi pioneiro na abolição da escravatura, em 1761”. Ora, na verdade, Pombal apenas proibiu o tráfico negreiro directamente para a metrópole, onde a escravatura continuou permitida até 1773 e no restante império (incluíndo o Brasil) até 1878, quando já tinha sido abolida em 15 países.
O racismo, do mais subtil e estrutural ao vociferado pelos broncos da extrema-direita, está umbilicalmente ligado ao nosso passado colonial que não pode ser obliterado, nem mitificado pela História e urge, por isso, estudá-lo e debatê-lo sem peias.
16/06/2022

Comentários recentes