Francisco de Almeida Dias

Portugal é mátria

Maria Flavia Monsaraz , astrologa , fotografada na casa dela .
Estoril , 02 de Julho de 2013 . ©Enric Vives-Rubio

Em 1985, quando fui ao Brasil, inaugurei, por razões que me transcendem, o primeiro Congresso de Astrologia em língua Portuguesa. Aí foi-me dito que teria de ser eu a criar, em Portugal, o primeiro Centro de Astrologia. Esta decisão não estava no meu desejo, nem nas minhas aspirações, nem em qualquer outra forma de projeção. No entanto senti que era a Verdade do meu Destino. Para Portugal, para a divulgação da Astrologia, este Centro era necessário. Mais que necessário, urgente…

Descendente de nobre linhagem, escultora e introdutora da “nouvelle tapisserie” em Portugal, comproprietária do bar “Metro e Meio” na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa, por onde passou, nos anos quentes de 1974 e seguintes, toda a intelligentsia da Revolução, Maria Flávia de Monsaraz (1935-2019) considerou-se sobretudo, até ao fim, uma inadaptada. E foi exatamente essa «fidelidade à interrogação» (como disse, falando de si) que a levou pelo caminho da sua vida até àquela que era a sua grande vocação, pela qual será recordada: a Astrologia – cármica, humanística e transpessoal.

Cármica, na fé que professava na transmigração da alma e dessas várias vidas que é necessário atravessar ao encontro da própria identidade. Humanista e transpessoal, no desvendamento dos símbolos que religam o ser humano ao seu lugar no universo, desenvolvendo a consciência de quem somos na matéria que habitamos. Por isso, numa entrevista a São José Almeida (in Público, 2 de agosto de 2013), referia-se à Astrologia como “a escrita de Deus” –  «A forma como Esse, de quem nada pode ser dito, revela através de símbolos o propósito e a intenção inteligente da criação aos seres por Si criados.»

Assim sendo, Maria Flávia de Monsaraz nunca sentiu a necessidade de renegar o Cristianismo em que fora criada, tendo-se embora afastado da estrutura dogmática da Igreja, da qual estivera, aliás, muito próxima – quando fora presidente, na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, da Juventude Universitária Católica (JUC). Acrescentaria, na já citada entrevista: «O próprio Cristo ensina isso quando diz que só o Amor salva. O Amor é a única vibração capaz de unir o Céu e a Terra em nós. Estamos aqui para integrar a dualidade, aceitá-la, vivê-la e transcendê-la. Quando percebi isto, percebi que a vida faz sentido, tudo faz sentido.»

Fundou e dirigiu durante 29 anos o Quíron – Centro Português de Astrologia – através do qual refundou os estudos astrológicos em Portugal e formou várias gerações de astrólogos, naquela síntese provocatória do racionalismo ocidental dominante a que chamou “Ciência Esotérica” – e de que deixou testemunho não só nas suas aulas, em palestras e entrevistas, mas também em mais de duas dezenas de títulos que publicou. Entre eles, Astrologia – Aprofundamento: Capítulos, Recados e Reflexões, Apelo Urgente a Verdades Eternas (Edições Mahatma, 2020) é uma coletânea dos textos inéditos em que em que trabalhou nos últimos meses da sua vida.

Em páginas mais íntimas, referidas do grande luto que atravessou dos 23 aos 27 anos (quando desaparecem, quase em simultâneo, o pai e a avó paterna, entre outros familiares muito queridos) repete a frase «A família protege profundamente a Vida». Esta tinha sido o esteio da sua infância tranquila e equilibrada, passada no Estoril. Como tantas vezes acontece, foi esse grande embate a primeira prova à sua espiritualidade, à sua capacidade de vencer a tristeza que então a invadiu e que parecia pôr em causa toda a sua existência.

Havia já nessa altura, e muito apoiada pelo pai, frequentado o curso de Escultura nas Belas Artes, que concluiu com 19 valores, período em que, paralelamente, frequentara também os ateliês de Martins Correia e Lagoa Henriques, a que se referia como o artista de maior sentido estético que conhecera e que a ensinara a ver e a sentir a qualidade das formas. Estava a dar aulas na Escola Artística António Arroio quando decidiu concorrer – e ganhou, em 1963 – a uma bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian, que a levou a Paris para fazer um ano de estágio na École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs.

O ano projetado de estadia transformou-se rapidamente em seis, o início de um novo ciclo da sua vida, aos 27 anos de idade. Para além de acompanhar, do centro nevrálgico da Europa, as grandes mudanças que o mundo estava a atravessar nesses anos, e de que Portugal salazarista tentava e conseguia em boa parte manter-se isolado, foi ali que, certo dia, o grande amigo António Alçada Batista a apresentou a José Maria Leite Faria, seu companheiro de vida nos anos seguintes e pai do seu filho Gil, nascido em 1967.

Paris era também a ocasião de viajar e de conhecer – e foi numa dessas deambulações, em Lausanne, que se deparou com aquela que viria a ser, durante a década seguinte, a sua forma privilegiada de expressão. A “nouvelle Tapisserie” dava volume escultórico à antiquíssima e mítica arte do tear, através da inserção de diversos materiais na tela; mas dava igualmente cor e macieza às formas da escultura. Essa procura artística desenvolveu-a no atelier que abriu em Campo de Ourique com Carmo d’Orey, Manuel e Graça Costa Cabral, no regresso a Portugal.

Mas foi ainda antes, numas férias, que Alberto Vaz da Silva a pôs pela primeira vez em contacto com a Astrologia. Era o início de um percurso de estudo e aprofundamento como autodidata, que fez até ao fim: «Sempre me guiei pelos livros que sempre me vinham parar às mãos. E acabava por conseguir escolher aqueles que tinham algo diferencial para me transmitir. Fiz um caminho solitário. Tinha de o fazer.»

Assim, essa verdade que Maria Flávia dizia não se impor, mas irradiar e vir ao nosso encontro, veio ao seu em três momentos – primeiro, através da obra do astrólogo Dane Rudhyar; depois, com a descoberta do Taoísmo e da harmonização da dualidade do mundo; enfim, com a introdução à Ciência Esotérica de Djwhal Khul, escandida nos escritos de Alice Bailey.

Maria Flávia de Monsaraz acha-se catapultada para a abertura do primeiro Congresso de Astrologia em língua portuguesa no Rio de Janeiro, em 1985, em coincidência exata com o seu 50º aniversário («É verdade, eu e o primeiro Congresso de Astrologia somos gémeos, porque eu renasci naquele dia, e àquela precisa hora. Nesse dia em que Quíron voltou à sua posição natal. A Astrologia ensina que esse é o tempo em que as pessoas podem encontrar o sentido da Vida»).

Dois anos depois, em agosto de 1987, funda em Lisboa o Quíron – Centro Português de Astrologia (https://www.quiron.pt/) que «durante nove anos, cresceu como crescem as sementes: na obscuridade da Terra, na humildade de tudo o que é verdadeiro, sem nenhuma expectativa de reconhecimento social». Mais tarde irá mudar a sua sede para o Estoril, para essa casa familiar de que se despedira havia trinta anos; o destino completava um círculo, voltava a reuni-la com o território feliz da sua infância, de que Maria Flávia desejava agora abrir as portas a uma família alargada, porque, como dizia:

A Astrologia é uma linguagem simbólica, sagrada, reveladora de uma Ordem maior, que sempre afirma e manifesta algo que eu nunca pus em causa: o Amor como Lei, o Poder Unitário do Amor.

26/05/2022


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