EDITORIAL 828
A forma “invisível e incolor” que destrói salários, pensões e poupanças
A situação começa a ficar cada vez mais complexa com o aumento da inflação (IPC) e a escalada de preços resultante do acumular de crises, desde a pandemia às consequências da brutal invasão da Ucrânia, mas também pela especulação dos agentes que dominam o mercado e até do efeito ricochete das sanções.
A degradação dos rendimentos do trabalho, dos pensionistas e até das poupanças, que já afeta toda a economia, inclusive o pequeno comércio e a pequena produção, seja industrial ou agrícola, é uma realidade que não pode ser subestimada ou desvalorizada, como está a acontecer em certos discursos políticos.
Pensar que o aumento do PIB suportado no crescimento espectável do turismo resolverá a generalidade dos problemas económicos e sociais, constitui uma falácia que conduzirá a uma maior fragilização das condições de vida da maioria das pessoas.
Segundo um estudo do economista Eugénio Rosa, divulgado esta semana, um salário ou uma pensão de 1000€ atualmente, corresponde, a preços de abril.2021, apenas a 932€. Ou seja, com 932€ em abril.2021 comprava o mesmo que em abril.2022 com 1000€.
Refere o economista que o salário mínimo nacional atual – 705€ – equivale na realidade a 657€ de jan.2022. Trata-se de um valor inferior ao salário mínimo nacional de 2021 (665€). O mesmo acontece com as poupanças ou depósitos que os portugueses têm nos bancos. Uma poupança ou um depósito de 50.000€ em abril.2021, agora só valerá 46.598€.
Escreve Eugénio Rosa, no seu recente estudo que é “desta forma ‘invisível e incolor’ que a inflação está a destruir salários, pensões e poupanças e as condições de vida dos portugueses e a gerar milhares de pobres.”
Porém, apesar de o Governo se recusar a proceder a atualizações nos salários e nas pensões, de acordo com a inflação, as receitas do Estado estão a aumentar fortemente. Nos primeiros 3 meses deste ano o Estado já arrecadou de impostos sobre os produtos petrolíferos mais 152,4 milhões € do que em 2021 e mais 1.006,3 milhões € de IVA.
O Primeiro-ministro visitou há dias Kiev e, entre outros apoios, prometeu uma ajuda de 250 milhões de euros ao governo ucraniano. Não está em causa a necessidade de canalizar apoios para o martirizado povo ucraniano. O que se torna incompreensível é que António Costa não tenha em conta a degradação da situação no país e persista em não fazer qualquer ajustamento nas pensões e remunerações com o argumento de, apesar do aumento das receitas do Estado, poder colocar em causa a redução do défice, essa “vaca sagrada” dos altares neoliberais. E quem cuida do povo, desde logo de quem vive de salários, pensões e outros baixos rendimentos?
26/05/2022

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