Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Natália Nunes
A morte é um problema trágico; é um escândalo. Não aceito a morte na condição humana, embora creia em Deus e seja muito religiosa. Como presentemente preciso de um amparo moral e de uma consolação perante o escândalo que é a morte, estou a tentar reelaborar todos os conhecimentos que tenho de antropologia, de psicanálise, de psicologia e de filosofia, para ver se consigo aceitar coisas da religião católica que ainda não consigo.
Palavras da Natália Nunes, numa entrevista conduzida por Maria José Mauperrin e publicada no jornal Expresso a 13 de junho de 1998. A escritora tinha então 76 anos e haveria de sobreviver outros vinte a estas palavras, enfrentando pessoalmente o “escândalo da morte” a 13 de fevereiro de 2018, depois de com este ter convivido por quase cem anos. É que a morte pairou desde cedo sobre a sua casa, quando a tuberculose atacou mortalmente o pai, levando a família a mudar-se para Oliveira de Frades, onde residiam os parentes paternos e de onde se mais comodamente se podia chegar ao Sanatório do Caramulo.
O pai acabaria afinal por viver anos bastantes para se preocupar com a relação de Natália com um homem quinze anos mais velho, divorciado e com um filho, que conhecera na Biblioteca Nacional a propósito de um lápis… Dois anos de namoro e a maioridade aos 21 anos levaram-na enfim ao casamento com o cientista e historiador Rómulo de Carvalho – mais conhecido como António Gedeão, pseudónimo que adotou para assinar a sua obra poética, de onde se destaca a icónica “Pedra Filosofal” cantada por Manuel Freire.
Dessa infância em terras beirãs, dessa infância «no centro de tudo» – e o tudo era a casa de família, construída no antigo passal, a igreja e a escola – surgem aquelas que considerava as primeiras experiências literárias, tão afins do seu temperamento imaginativo, já potencialmente aberto àquela que se viria a revelar a sua vocação para a escrita. De facto, Natália Nunes recordava na mesma entrevista:
Eu não tive literatura infantil nem me contaram as histórias que as avós costumam contar aos netos. Tive outras histórias. Enquanto estive na Beira, a caseira do meu tio contava-nos as coisas mais fantásticas sobre almas penadas; pessoas que durante a missa tinham visto um espírito rebentar ao ver o Santíssimo… Havia também uma mulher meio louca, como há em todas as terras – “la folle du village” -, cujas histórias eram verdadeiros delírios verbais. Depois ouvia as lendas, os romances das criadas da casa.
Assinalaram-se no ano passado os cem anos sobre o nascimento de Natália Nunes, amiga desde os tempos de frequência do Liceu Maria Amália, em Lisboa, de Maria Judite de Carvalho, outra interessante autora portuguesa, que tivemos ocasião de evocar nesta rubrica há alguns meses. Assim, no passado dia 18 de novembro, Teresa Sousa de Almeida, diretora do projeto “Escritoras Portuguesas no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo”, que se tem interessado por esta obra e pugnado para que ela vença o injusto esquecimento a que tem sido votada, interveio, com a filha da escritora, Cristina Carvalho, num colóquio de homenagem organizado pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e moderado por Margarida Braga Neves.
Um primeiro passo para a desejável reedição da obra de Natália Nunes, que a devolva a um público lato, e para o recrudescimento de um interesse académico sobre esta importante escritora, tradutora (de, entre outros, Dostoievsky, Tolstoi e Balzac) e ensaísta, com mais de 30 títulos publicados entre 1952 e 2006, que passam da ficção e do teatro, aos livros de memórias e viagens.
E não obstante a ficção constitua a parte mais abundante da sua obra, como romancista e contista (citem-se, de relance, Autobiografia de uma Mulher Romântica de 1955, Assembleia de Mulheres de 1964, reeditado em 1997, e o seu último romance, de 1997, Vénus Turbulenta), foi curiosamente com um registo biográfico que Natália Nunes se estreou, com a publicação de Horas Vivas: Memórias da Minha Infância, em que regressa a essa idade mágica dos sete anos, vivida, como dizíamos, em Oliveira de Frades – e objeto de uma interessante leitura no ensaio de Isabel Cristina Mateus, investigadora do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, intitulado “Natália Nunes e Natália Correia: duas mulheres à procura de um país”.
Através da rememoração – e, portanto, da revivência – dessas fortes experiências sensoriais vividas numa infância, em que horas novas (Horas Vivas, justamente) se impõe no quotidiano da menina de cidade, lançada de modo imprevisto, aparentemente dramático e afinal venturoso, na realidade da vida do campo e do contacto com o vigor da natureza, concretiza-se uma verdadeira construção identitária. Como afirma Isabel Cristina Mateus, «Em Horas Vivas a memória da menina retém, tal como em Proust, muito especialmente sensações (cheiros, sons, sabores, sensações visuais ou tácteis); sensações que a voz narrativa adulta reconstrói e investe de significado.» Exemplo dessa reconstrução, que, segundo a estudiosa, dá à narrativa de Natália Nunes um cunho mais fortemente autobiográfico que memorialístico, o trecho deste livro primeiro, de 1952:
Nessa tarde de verão eu percebi que o mundo todo tinha vida e uma vida ardente, impetuosa, indomável. A mica faiscava na areia branca do jardim, as flores pareciam pequenos sóis à luz dum sol maior que iluminava a terra com um fulgor escandecido duma brasa e, pelos meus braços vermelhos do calor, roçava o corpo dos besoiros entontecidos que zumbiam e se introduziam, sôfregos, nas corolas das flores roxas da varanda. Quase que sentia o sangue circular de alto a baixo do meu corpo, veloz, quente, e essa quentura, provocava-me ímpetos de sair lá para fora e fazer gestos largos, sem propósito. Apetecia-me ir para um campo muito vazio e correr à doida, arrancar plantas, cheirar flores, trincar frutos, espadanar na água até não ter mais forças e ficar depois, numa lassitude cálida, estendida no cimo dum monte, toda nua, debaixo do Sol…
Um tal amor pela vida, «estado de graça» como o definiu na entrevista a Maria José Mauperrin, mesmo numa mulher que cultivava uma atitude intelectualizada e serena perante a vida («Não tenho paixões: tenho perseverança. Procuro ser na vida como na escrita: racionalista.»), tornavam evidentemente a morte escandalosa e trágica – quando não mesmo absurda. De Natália Nunes permanece uma obra que revive a cada página que se volta, na vida dos seus leitores.
Para além da sua atividade literária, Natália Nunes foi também bibliotecária-arquivista e conservadora nas Bibliotecas da Ajuda e Nacional, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo e na Escola Superior de Belas-Artes, tendo recebido o Prémio da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas em 1977. Não se considerando uma política, antes empenhada em ideais sociais, foi resistente antifascista e integrou a última direção da Sociedade Portuguesa de Escritores antes do seu encerramento pela PIDE, em 1965.
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