Manuel Silva
Sob o pavimento o mar

Dentro de poucos dias estaremos no mês de Maio. Passarão 54 anos sobre o Maio de 68, em França.
Uma das palavras de ordem daquela revolução era “sob o pavimento o mar”. Do interior da sociedade surgia uma grande revolta contra o conservadorismo social, pela revolução de costumes, especialmente a revolução sexual e, essencialmente, contra o funcionamento do capitalismo naquele tempo. Os dirigentes do Maio de 68 identificavam-se com as ideologias de esquerda radical, como o trotskismo, o maoismo, o guevarismo, etc.
O movimento que inicialmente era constituído essencialmente por estudantes, estendeu-se às fábricas. O Partido Comunista Francês (PCF) foi claramente ultrapassado. No entanto, com os acordos de Grenelle entre governo, sindicatos e patrões, que deliberaram aumentar os salários em 60%, o que provocou pouco mais tarde uma espiral inflacionista, os operários abandonam a luta.
Como disse, numa fase mais realista da sua vida, o antigo dirigente estudantil do MRPP, Saldanha Sanches, “os operários não queriam a revolução, queriam era viver melhor”. Os estudantes ficaram isolados. No dia 30 de Maio de 1968, um milhão de franceses apoiava, numa manifestação realizada em Paris, o então presidente De Gaulle. No mês de Junho decorreriam eleições que a direita gaullista venceria por larga maioria. O sonho de uma sociedade de iguais tinha terminado.
Falhou a revolução política, ganhou a revolução de costumes, tornando-se a sociedade francesa muito mais aberta. Também os trabalhadores obtiveram mais regalias.
Até à queda do muro de Berlim, viveu-se nos países desenvolvidos um capitalismo inteligente e com rosto humano, regulado pelo Estado de Direito e acompanhado pelo Estado Providência, corrector das desigualdades inerentes ao capitalismo e garante de políticas sociais no acesso à saúde, à educação e à segurança social.
A partir de Reagan e Thatcher, o neo-liberalismo permitiu abusos do grande capital, destruiu as bases do Estado Providência e cavou as desigualdades sociais.
Após a queda do muro de Berlim e o fim dos regimes totalitários comunistas, certo capitalismo abusou muito mais, culminando com a globalização, a qual tirou milhões de pessoas da pobreza, mas aumentou e muito as desigualdades sociais, incluindo nos países ocidentais.
Com a federalista UE e o aparecimento do euro no início deste século, as economias europeias passaram a crescer muito menos. Em Portugal, a economia encontra-se praticamente estagnada desde então. Houve, no entanto, uma economia que cresceu acentuadamente, a alemã, porque o euro ficou ao nível do antigo marco. É caso para dizer: abençoado euro! O desemprego aumenta, à semelhança da inflação.
Todos estes factores estão a criar um novo mar que rebenta os pavimentos actuais, mas agora de extrema-direita, em grande parte do globo, com destaque para os coletes amarelos franceses.
A base social de apoio destes partidos e organizações é constituída por pouca gente rica, mas por uma classe média proletarizada e operários, especialmente desempregados, como aconteceu com a eleição de Trump e com o forte apoio a Marine Le Pen.
Lenine dizia “o capitalismo vender-nos-á a corda com que o havemos de enforcar”. Hoje, o mesmo capitalismo e os políticos medíocres que dominam o mundo estão a vender a corda com que poderá ser enforcada a democracia.
28/04/2022

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