EDITORIAL 826
A caminhada pela democracia

Entre os finais de 1974 e o Verão de 1975, o conhecido cartoonista João Abel Manta publicou regularmente, em jornais de grande tiragem, trabalhos que exprimiam a situação político-social portuguesa nesse período pós-25 de Abril e que passaram a ser emblemáticos.
Entre esses trabalhos estiveram os cartazes que ilustravam as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do Movimento das Forças Armadas (MFA). Essas campanhas tinham como objetivo levar os ideais do 25 de Abril aos sítios mais recônditos do país, ao que hoje chamamos as regiões do interior, então profundamente marcadas pela ruralidade, pelo isolamento e por uma economia que raramente ultrapassava os níveis da subsistência.
Para além dos militares, foram mobilizados voluntários jovens, em geral estudantes universitários, que faziam sessões públicas sobre a nova situação, colaboravam na alfabetização, organizavam momentos culturais, mas também ajudavam nos trabalhos agrícolas e contribuíam para a resolução de problemas, desde a abertura de novos caminhos até ao acesso à eletricidade. Frequentemente ficavam alojados nas Juntas de Freguesia ou na casa de famílias locais.
No cartaz de João Abel Manta “MFA, Sentinela do Povo” (Maio de 1975), uma família de camponeses surge no canto inferior esquerdo, recolhida sobre si própria e na sua vida quotidiana, enquanto no canto oposto, um militar permanece de atalaia, sentado sobre a grande sigla do MFA. É a ideia da proteção e do respeito pela forma de vida daquelas comunidades.
Em “O Povo Está com o MFA” (Julho de 1975), a mensagem transmite a ideia da cooperação entre o militar que se coloca no plano das pessoas que a este se dirigem, estendendo-lhe os braços, oferecendo alimentos e outros objetos, numa invocação direta da hospitalidade rural e da recetividade ao movimento.
O interior já não é o que era há 50 anos, felizmente. Os avanços conseguidos com a saúde e a escola públicas, a universalidade dos vários elementos de proteção e segurança social, o fim tendencial da dependência de uma economia agrícola de subsistência, a generalização do acesso aos meios de comunicação, a afirmação da democracia e do poder local democrático, conseguiram arrancar estes territórios do atavismo e da pobreza.
Muito está ainda por fazer. As economias locais sofrem de grandes debilidades, subsistem focos de pobreza, as diferenças entre litoral e interior, entre áreas de baixa densidade demográfica e as áreas metropolitanas, são evidentes e podem agravar-se. O desígnio Constitucional da regionalização permanece indefinido. Porém, Passados 48 anos é muito difícil imaginar o que seria este país sem a revolução que sucedeu ao dia 25 de Abril de 1974.
28/04/2022

Comentários recentes