EDITORIAL 824

“Sou idoso, mas não idiota!”

Carlos San Juan, com quase 80 anos, residente em Valência, Espanha, lançou uma petição com o título “Sou idoso, mas não idiota”, porque se fartou da forma como o seu banco o tratava.  Os acessos aos serviços do banco dependem cada vez mais de meios digitais, recorrendo à Internet, fazendo com que muitos idosos tenham dificuldade e percam autonomia quando precisam de tratar alguma coisa com o banco.

Sempre que Carlos San Juan necessitava de ajuda, a resposta do outro lado era um verdadeiro atestado de incapacidade por velhice: “venha com um familiar que será mais rápido”, ou “peça ajuda aos seus filhos”, ou ainda “se vem ao balcão pode apanhar o vírus, é melhor não vir”. Pensou no assunto e ficou incomodado: ”se por vezes tenho dificuldade, o que será de muitos idosos que ainda têm menos agilidade do que eu para trabalhar com a internet?”  Perante esta situação, resolveu agir.

Utilizando os meios digitais, demonstrando que as dificuldades no acesso a serviço bancários pela internet não acontece apenas a pessoas com baixa literacia, lançou uma petição exigindo à banca respeito pelos mais idosos. Três semanas após o lançamento, a petição tornou-se viral e ultrapassou largamente as 600 mil subscrições.

Os problemas que Carlos San Juan apontava na petição eram variados: com os bancos virados para a digitalização e para a redução de pessoal, quem precisa de atendimento presencial por não saber usar estas ferramentas acaba por se sentir excluído, seja por os horários de atendimento serem curtos ou por haver cada vez menos balcões abertos e normalmente com menos pessoal disponível para atendimento. Mesmo quando o atendimento presencial existe, apontava San Juan, há falta de “humanidade” e de paciência com os mais velhos.

“O que peço é respeito. Se os bancos ganham milhares de milhões e, quando as coisas correm mal, são os nossos impostos que pagam, creio que não lhes custaria assim tanto ter uma atenção pessoal connosco”, disse o impulsionador da petição. O apoio gerado em torno desta iniciativa evidenciou que existe uma parte da sociedade que está a ser deixada de lado pelos bancos, apesar do desejo de captarem as suas pequenas poupanças.

“Por favor, assinem para pedir que os bancos atendam as pessoas mais velhas sem obstáculos tecnológicos e com mais paciência e humanidade. E mantenham balcões onde possamos ser atendidos por alguém… que nem tudo seja feito na internet”.

O Governo espanhol sentiu-se obrigado a intervir e a negociar com os bancos uma série de medidas para responder às preocupações manifestadas pela petição e às queixas das pessoas que “estão sozinhas e não têm ninguém que as ajude” e que querem continuar a ser “o mais independentes possível”, mas sentem o dia a dia dificultado pela obrigação de usar ferramentas digitais que não dominam e pelos problemas de mobilidade.

Estes problemas também são sentidos por muitos portugueses, idosos e de grupos vulneráveis. A situação tem sido denunciada pela Deco, mas é reconhecida apenas timidamente pelo Banco de Portugal. Em Espanha a mobilização cidadã resultou. Resta agora saber se as promessas de mudança e de maior atenção às pessoas de mais idade serão cumpridas.

31/03/2022


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