João Fraga de Oliveira
A paz e as guerras da (pela) guerra

No terreno (Ucrânia), desencadeada por uma invasão desse país pelo poder político e militar de outro (a Rússia), prossegue, há mais de um mês, uma guerra propriamente dita, bélica, em que, por razões políticas, ideológicas, religiosas, económicas, geoestratégicas, para além se ir criando um rasto de outras consequências humanas e sociais (estropiamento físico, doença, fome, frio, miséria, medo, desabrigo, desenraizamento social, exílio…), de parte a parte, como em todas as guerras, pessoas se aniquilam fisicamente.
Explorando à náusea essa (real) guerra, emergiu uma guerra mediática na comunicação social onde, ainda que não sendo tal novidade agora com a guerra, esta actividade com dignidade constitucional tendeu a degenerar para referências de “informação” (mormente a televisiva) em que impera o sensacionalismo gratuito e repetitivo como instrumento de mais resultados mercantis (“audiências” / publicidade) do que de informação objectiva, isenta e socialmente responsável. Também neste assunto, como noutros de grande importância e responsabilidade social, assim, a formação de uma opinião pública informada de forma (e conteúdo) clara e isenta, que possa discernir lucidamente sobre propostas e mobilização para a paz, é inversamente proporcional à histeria, dissenção (a polémica e “zaragata” vendem …) e depressão que cria, não sendo exagero dizer-se de que tal resulta serem as pessoas socio-mentalmente. “aniquiladas”.
Ao mesmo tempo, tendo como pretexto aquela mesma guerra, emergiu também e incrementa-se, mormente nas redes “sociais” e nas caixas de comentários dos jornais online, uma guerra cibernética onde, agressiva, sectária, e mesmo boçalmente, pessoas se aniquilam socio-“digitalmente”.
E há, ainda, a guerra das (pelas) palavras. Inconsciente ou conscientemente (como estratégia de guerra), aumenta de tom agressivo a linguagem de guerra de entidades não apenas militares mas políticas (que não necessariamente dos povos que formalmente representam no exercício dos cargos que assumem).
Convém-se que não surpreende, muito mais no decorrer de uma guerra, que cresça da parte de responsáveis políticos e militares e mesmo se generalize uma linguagem bélica.
Talvez por a História (de que a nossa não é excepção) assentar muito na guerra (batalhas, conquistas, heróis militares …), mesmo em paz, banalizou-se, a propósito de quase tudo (desporto, economia, gestão, política, quotidiano em geral) uma linguagem de guerra: por isto ou por aquilo, por mais banal que seja, lá se recorre à muleta vocabular de “lutas”, “combates”, “batalhas”, “bazuca” …
Mas, ainda que muitas vezes despercebida, há uma relação entre as palavras e as coisas. Se as coisas fazem palavras, estas, as palavras, fazem (e desfazem) coisas.
Aplica-se aqui isto no sentido concreto e actual de que as palavras potenciam o despoletar de acções, no caso, eventualmente, de acções de quem tem as armas (que até podem ser minúsculos botões…) à mão.
Apesar de este texto fugir ao enfoque da guerra propriamente dita do ponto de vista político, militar e geoestratégico (para isso não faltam “especialistas”…), o que se quer aqui relevar é que estas guerras (para já não referir outras, por exemplo, na cultura e no desporto, mesmo omitindo, porque mais da “lógica” da guerra, na economia) alimentam-se e reforçam-se umas às outras, sendo disso evidência mais grave a crescente ferocidade da aniquilação física que alastra na primeira, na guerra propriamente dita.
Algo que (nos) deveria fazer repensar e inibir o sensacionalismo e ferocidade gratuita com que tanta gente, objectivamente, de algum modo, efectiva e ou potencialmente, alimenta e agrava se não lá longe (se bem que nas guerras cada vez haja menos distâncias a considerar…) a guerra real. Pelo menos (que é muito …), o seu rasto de consequências nefastas quanto a sociabilidade (grupal, comunitária, familiar mesmo) e, daí, mais generalizada e profundamente, talvez mesmo prolongadamente, sociais. Enfim, com que tanta gente, mental, relacional e socialmente, nas guerras da (pela) guerra, aniquilando os outros, é aniquilada e se aniquila mutuamente.
O que, acrescendo ao prolongamento do horror da morte, do sofrimento humano e destruição económica da (na) guerra propriamente dita, do ponto de vista de projectos de vida de cada um e da sociedade em que se insere, não é socialmente (e daí económica e politicamente) inócuo, na medida em que, mediática, cibernética e político-linguisticamente, se não pela apologia (clara ou velada) de (mais) guerra e inerente (mais) armamentismo (para “combater” a guerra), alimenta, ao mesmo tempo que por ela é alimentado, a desacreditação da possibilidade um projecto de paz imediata.
31/03/2022

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