João Fraga de Oliveira

Guerra: somos todos miseráveis

Ainda que sob pena de “blasfemar” ao invocar em vão a poetisa (Sophia), “não podemos ignorar” o que “vemos, ouvimos e lemos” sobre a Ucrânia a partir da invasão militar deste país, em 24 de Fevereiro, por decisão do poder político da Rússia.

“Vemos, ouvimos e lemos” e sentimos.

Quem nasceu no fim de uma grande guerra, quem ouviu dos seus pais o que com essa guerra sofreram, quem escutou dos seus avós o testemunho de tal sofrimento não apenas com essa mas também com a anterior, quem, ele próprio, viveu e sofreu (foi obrigado a viver e sofrer) uma guerra, não pode deixar de sentir e reafirmar o absurdo de (mais) esta guerra, de qualquer guerra, venha ela de onde vier e sob que pretexto e forma for desencadeada.

Mas, para além da específica condição de cada um, decorrente da sua vivência pessoal, familiar ou social, não se vê como pode ser difícil compreender e reconhecer que qualquer guerra, em si e pelas suas inexoráveis consequências perversas de toda a ordem, é sempre uma expressão (circunstancial ou cristalizada no tempo) em escala de ódio de parte a parte, de insensibilidade ao sofrimento e mesmo à morte do Outro. Ou seja, de psicopatia e, mais generalizadamente, de sociopatia.

É por esse prisma de ordem geral que aqui se tenta reflectir esta situação. Na verdade, esta é tão complexa (histórica, social, geoestratégica, politicamente …) que não se compadece com qualquer esboço de pretensa(iosa) “análise” sustentada por quem, “sapateiro”, tem perfeita noção de que, neste assunto como em todos,  não pode nem deve “ir além da fivela”.

De qualquer modo, algo há de elementar e de ordem geral que, pelo referido prisma, se pode reflectir.

É certo que em qualquer guerra sempre surgem aduzidos (como aí estão nesta) argumentos racionais, muitas vezes sólidos, “justificando-a” com anteriores guerras de contextos ou desenvolvimentos similares, inclusive nas que então terá sido agredido (atacado / invadido) quem então é o agressor.

Infelizmente, a (re)construção da História, assenta muito na guerra. Em regra, com a predominância da versão dos vencedores.

A propósito, não se pode escamotear nisto o quanto, em anteriores conflitos internacionais noutras regiões do mundo (invasões militares mesmo), administrações de outros países (nomeadamente, com os Estados Unidos da América à cabeça) e organizações internacionais (inclusive a NATO) que agora condenam (e bem) o poder político e militar da Rússia como invasores da Ucrânia, se assumiram então activamente como invasoras de outros países, inclusive em situações em que, como nesta guerra, se pode invocar a violação do Direito Internacional. Como foram os casos, por exemplo, em 2003, no Iraque e, em 1998-1999, na Jugoslávia, na questão do Kosovo.

Também é certo que, nesta como noutras guerras, podem ser trazidas à discussão acções (ou omissões) políticas (internacionais, regionais – nomeadamente europeias – e nacionais) em que, para “combater” (é a palavra ironicamente apropriada) a guerra se recorreu ou se propuseram medidas bélicas susceptíveis de a agravar e prolongar ainda mais. Conforme a idade e o conhecimento de cada um, não nos é estranho que uma guerra, depois de começar, é muito difícil pôr-lhe cobro (e já ouvimos quanto a esta o presidente da França dizer que “vai ser uma guerra prolongada”). Qualquer guerra, já sendo dela fruto, tende a gerar essa mentalidade sociopata que vai determinar a insensibilidade desumana e social de decidir, para a “combater”, mais guerra … alimentando a guerra.

Outra “justificação” da guerra é o papel da comunicação social. Esta, por princípio (que é constitucional, não só em Portugal mas em qualquer país democrático), tem um papel social e político relevante no desenvolvimento da democracia, entendida esta como a antítese de qualquer opção pela guerra. Isto quando se mostra confiável ao, assumindo-se na sua actividade concreta como verdadeira, plural e isenta, passa a ter perante a sociedade a credibilidade de um “juiz” informativo-comunicacional das posições e acções em confronto, o que poderá ser de alguma maneira inibidor do desencadear de uma guerra ou, pelo “menos”, poderá contribuir efectivamente para que ela cesse.

Já renega esse papel (e responsabilidade), podendo ser um factor para agravar ou prolongar qualquer guerra (ou até para a desencadear) quando, ao fazendo degenerar a sua actividade para objectivos (“resultados”) essencialmente mercantis, passa a entender (também) a guerra como um “nicho de mercado” a explorar com coerentes processos de “comunicação”. Como, por exemplo, o sensacionalismo gratuito, a mentira, a desinformação, a falta de pluralidade e isenção e, mesmo, a censura (que, não raro, se consubstancia em … mais mostrar). Ou seja, quando a comunicação social, na (pela) real natureza da sua actividade, de facto, perde o jus a essa designação – social – e, assim, passando a ser mais sensível à “rentabilização” mercantil do que à sua responsabilidade social, justifica ser-lhe mais própria a qualificação de comercial: comunicação comercial.

Outra “explicação” aduzida para a guerra são as redes sociais. E há que convir que, se bem que nestas podemos encontrar preciosas pérolas de conhecimento, cultura, beleza e lucidez pela inteligência e sensatez, todos sabemos o que nas redes sociais grassa de superficialidade (de humana e socialmente supérfluo) e, pior, de mentira, de boçalidade, de confrontação e provocação primária e gratuita (eventual patológica procura de atenção e afirmação grosseira), até de expressão e incitamento ao ódio, de isolamento das pessoas em bolhas “sociais” (que, muitas vezes, de verdadeiramente socializantes pouco ou nada têm), distanciando-as do que de verdadeiramente humano e social se impõe considerar em qualquer guerra ou iminência desta. Neste quadro, pelo que não raro nelas de nefasto se vê, ouve e lê, desinformando e confundindo, podem mesmo ser (como aliás se sabe que têm sido) fomentadoras ou alimentadoras de guerras.

A propósito, não terá nada a ver com a comunicação “social” e, sobretudo, com as redes “sociais” (muito embora, naturalmente, a responsabilidade maior seja dos decisores por elas provavelmente influenciados) o facto de há três dias uma universidade de Milão cancelar um curso sobre Dostoievsky? Ou com o de um importante teatro de Génova desmarcar um festival dedicado também a Dostoievsky? Ou o de a Orquestra Filarmónica de Zagreb cancelar dois concertos com obras de Tchaikovsky?

Estes dois monstros da cultura russa há muito que fazem parte e são fonte não só da cultura “ocidental” mas, e isso é o mais importante e evidente, da própria cultura ucraniana.

Não deve haver qualquer hesitação ou tibieza em condenar, claramente e com toda a firmeza, a invasão, com desenvolvimento no sentido da guerra aberta, da Ucrânia por parte do poder político e militar da Rússia.

Mas são procedimentos absurdos e irracionais como estes, esta histeria (que também vem muito da degeneração irracional e primária do “social” destas fontes de informação) que podem contribuir para a paz?

Porventura já esquecemos Churchill quando na II Grande Guerra lhe falaram em cortar no orçamento para a cultura (“,,, Então estamos a fazer esta guerra para quê?”)?

Já não tememos o perigo para a paz daquela frase de um famigerado de má (odiosa) memória: “Quando me falam em cultura, puxo logo da pistola”?

De qualquer modo, nenhuma História, natureza da comunicação social ou das redes sociais, bem como outros elementos de contexto (nomeadamente, de relacionadas acções ou omissões de países ou organizações internacionais), não obstante não devam ser calados (e, mais, tidos em conta para responsabilização legal e política, com as respectivas consequências económicas e sociais), são aceitáveis como justificação para o desencadeamento, alastramento e agravamento de (mais) uma “nova” guerra.

Sempre, sempre, em tempo de guerra, em cada dia, hora, minuto, segundo, sujam-se (de sangue) as armas. Em todo o lado, em que circunstâncias forem, sejam de quem forem as armas.

Em qualquer guerra, todos, mas mesmo todos, perdem(os). Mesmo aqueles que, seus mentores, actores e alimentadores, “ganhando-a”, não deixam por isso de a perder. De serem (também) “miseráveis” (perceber-se-á mais adiante o porquê esta qualificação).

Por este prisma, podendo-se agora ser mais concreto quanto ao elementar desta situação, quanto ao essencial (evitar a perda de vidas e em geral o sofrimento humano), agora são estéreis quaisquer hesitações ou tibiezas quanto a tudo o que não seja a clara e firme condenação de (também) esta invasão militar de outro país por outro.

E, sobretudo, quanto à exigência do imediato (porque sempre tardio) cessar-fogo.

Ora, por objectiva responsabilidade na decisão reiterada no desencadeamento, manutenção e escalada da invasão e prosseguimento em guerra manifesta, isso compete ao poder político da Rússia, essencialmente (se não exclusivamente) ao seu Presidente da República, Sr. Putin. E, claro, a quem, por ideologias ou interesses sejam lá eles de que natureza forem (nomeadamente de ordem financeira e oligárquica, tanto quanto se sabe), também o apoiou e apoia no desencadear e prosseguimento desta guerra.

É que não é crível que esta invasão militar da Ucrânia tenha realmente assentado na efectiva vontade (que, ainda que agora emudecida pela coerção, tanto quanto se sabe, dá sinais de na própria Rússia se assumir contestando-a publicamente) da maioria do povo russo.

Sim, é difícil de conceber que, genuinamente, pela sua história e pela sua cultura e até pelo que agora já sofre também, o povo russo, pelo menos a sua maioria, seja insensível a este sofrimento humano de outro povo, aqui, mais directamente, do povo ucraniano. Até porque, afinal, este, além de vizinho, histórica e sociologicamente, é seu irmão.

Concluindo, agora, apesar de tarde, muito tarde já desde logo a partir do início da invasão, o que é essencial e urgente, para além de todo o apoio humanitário de toda as ordem que no mundo for possível mobilizar e concretizar para as vítimas desta guerra, é, como em todas as guerras, com as medidas internacionais adequadas (ainda que não bélicas – diplomáticas, económicas e outras), fazer cessar de imediato esta invasão militar da Ucrânia, no sentido de, concretamente, pôr cobro ao aumento do incomensurável sofrimento e morte e outras dramáticas consequências que já provocou e que se arrastarão por muitos anos. Para ucranianos, para russos, para cidadãos de todo o mundo.

Sim, porque, rigorosamente, ancorando-nos novamente num poeta (começámos com um – no caso uma – e acabamos com outro que já nos deixaram, não há poeta que não seja profeta …), em qualquer guerra, em cada dia, hora, minuto, segundo que essa guerra dure, não há no mundo ninguém, nomeadamente agora com não “apenas” ucranianos e russos mas com todos nós, que não seja cada vez mais miserável: “Basta a miséria de um desgraçado, para que todos nós sejamos miseráveis.” (Teixeira de Pascoaes).

 

Nota: Este texto foi escrito e entregue para publicação em 5 de Março de 2022.

17/03/2022


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