Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Que Governo somos? Como nos podemos então definir? Deu-nos o Presidente da República a bússola que guiará esta marcha. Quis-nos isentos em relação às forças políticas. Exigiu de nós a independência que se demarca dos afrontamentos e conflitos. Ao desafio lançado responderemos sem equívocos: a isenção é inteira, porque de nós depende. Não fecharemos os ouvidos a quem disser que os tempos são duros, que a vida está cara, que sobre o povo cai uma pesada carga. Se alguém privilegiarmos, que sejam os descriminados, os mais desfavorecidos; outra coisa nos não pode pedir a justiça – e dessa preferência não deixaremos de dar conta. A luta que travamos é contra o tempo. Empurrá-lo, como diz o Poeta, «ao encontro das cidades futuras»…
Começavam assim, com palavras expressivas de um misto de determinação e de missão (e esta última bem sublinhada pela evocação poética de Carlos de Oliveira), os 100 dias de governo da única mulher que, até hoje, ocupou no nosso país o lugar de Primeiro-Ministro – ou seria Primeira-Ministra? A novidade absoluta da situação, bem explícita na incerta flexão nominal, viria a pôr em crise bem mais que a morfologia da língua portuguesa… A Maria de Lourdes Pintasilgo fora pedido pelo então Presidente Ramalho Eanes que assegurasse esses três meses de governação (de 1 de agosto de 1979 a 3 de janeiro de 1980) entre a queda do IV Governo Constitucional e as eleições legislativas intercalares marcadas para dezembro.
Reconhecida internamente pela sua coerência e sentido social e prestigiada internacionalmente como Embaixadora de Portugal e Membro do Conselho Executivo na Organização das Nações Unidas, parecia a pessoa indicada para não favorecer alguma fação política, nem tampouco se deixar bloquear pelos ataques partidários a que estaria sujeita nessas funções. Não se limitando a serem de simples manutenção administrativa até à eleição que guindou à chefia do Governo Sá Carneiro, esses meses viriam a revelar-se de intenso fermento legislativo, visando sobretudo «os descriminados, os mais desfavorecidos», como preanunciara no seu discurso: aumento do salário mínimo nacional, aumento das pensões por velhice e deficiência, aumento do subsídio de desemprego.
Apesar de todos estes bons presságios, como era possível que o povo não se reconhecesse em quem tão evidentemente defendia os interesses populares? Porque é que a primeira mulher portuguesa com verdadeira relevância na vida política nacional não recebeu o apoio da generalidade das mulheres? Porque é que a Igreja, em que se empenhara ativamente desde a juventude, a considerava perigosa? Porque é que em seu redor, à direita e à esquerda, se ergueram barreiras de hostilidade, que determinaram o inqualificável desinteresse político em apoiar a sua potencial candidatura à Direção Geral da UNESCO, quando esta recolhia já o entusiasmo de outros países?
Sobre esta singularíssima mulher desalinhada, num país proverbial e estreitamente enfileirado em posições estáticas e prudentes – mulher cuja imprevisibilidade de independente surgiria como uma ameaça a cada uma das fações a que não quis pertencer – nos fala um documentário realizado em 2010 por Graça Castanheira, produzido pela RTP2 e agora disponível on line. Desde o seu início ouvem-se os acordes de Chopin: é a Sonata n. 3, na interpretação quase etérea de Maria João Pires, recordando-nos que a artista foi uma das grandes personalidades da vida nacional a apoiar a candidatura de Maria de Lourdes Pintasilgo à Presidência da República, e que ofereceu, no Coliseu de Lisboa, um recital de piano para angariar fundos para a campanha.
Maria de Lourdes Pintasilgo
Os resultados das presidenciais de 26 de janeiro de 1986 foram dececionantes para Maria de Lourdes Pintasilgo, que obteve apenas 7,4% dos votos. O «projeto de revitalização da democracia portuguesa» (nas suas palavras) haveria de ganhar, com o tempo, um significado cultural inversamente proporcional à exiguidade do espaço político alcançado por quem se movia sem o amparo de um aparelho partidário e não cedia aos Medos o território da Esperança, que era o seu, como expressivamente recorda Francisco Louçã.
Bem ciente da cultura discriminatória vigente, que lograra superar individualmente com a força do seu caráter e inteligência, instalara em 1975, enquanto Ministra dos Assuntos Sociais, a Comissão da Condição Feminina e aí reafirmara a sua convicção de que as mulheres poderiam construir uma política nova, longe dos esquemas tecnocráticos masculinos, e partindo das necessidades concretas das pessoas: o pão, a saúde, a segurança social, a comunicação e a cultura. Tal continuou a ser a sua reflexão e o seu credo políticos, que propalou até ao fim da vida, através de numerosas publicações e comunicações pelo mundo inteiro, e também na presidência da Comissão Internacional para a População e Qualidade de Vida e do “Comité des Sages” da Comissão Europeia.
No âmbito do movimento feminino cristão Graal – que introduzira em 1957 em Portugal, com Teresa Santa Clara Gomes (1936-1996), e a que dedicou grande parte da sua vida – criou em julho de 2001 a Fundação Cuidar o Futuro (https://fundacaocuidarofuturo.pt/) com o «objetivo elaborar propostas de pensamento e ação para o futuro, enraizadas nos valores espirituais e nas opções estratégicas que as características do tempo em que vivemos indicam como vitais para a sobrevivência da sociedade e do planeta, e para a crescente humanização das pessoas em todas as vertentes das suas vidas». Este é hoje também um centro de preservação e divulgação do legado intelectual de Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004), onde se pressentem e ressentem aquelas mesmas palavras de união do Ser com o seu Mundo, de Terra de harmonia:
I
Cantar
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras
fique embora mais breve a nossa vida
II
Tu, coração, não cantes menos
que a harmonia da terra,
nem chores mais
que as lágrimas dos rios.
17/03/2022

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