EDITORIAL 823

A guerra criminosa

Depois da crise financeira de 2008, da qual ainda não recuperámos, e da crise pandémica que já nos leva dois anos, cai em cima do mundo a guerra mais sangrenta e com maior envolvimento de meios militares desde a Segunda Guerra Mundial.

A brutal invasão da Ucrânia pela Federação Russa está a desencadear uma nova crise em cima das anteriores, com graves consequências sociais, económicas, humanitárias e até ambientais. Cerca de uma semana após o início da guerra, os produtos petrolíferos já atingiam valores históricos máximos e o preço da eletricidade batia um novo recorde em Portugal e Espanha, com os salários a serem vincadamente erodidos pelo rápido crescimento da inflação.

A guerra na Europa, tendo como palco o inadmissível ataque militar à Ucrânia, não é apenas um limitado conflito regional. Expressa o declínio da economia e do mundo unipolar dominado pelos EUA/NATO e da ascensão de potências com aspirações hegemónicas a nível global em que, nesta fase, sobressaem os Estados da Rússia e da China, colocando em causa os equilíbrios e desequilíbrios pós-Guerra Fria.

Só podemos encarar esta guerra como criminosa, com milhares de mortos dos dois lados, uma nova vaga de milhões de refugiados, uma intolerável ameaça de desastres nucleares, destruição de infraestruturas, uma previsível crise económica que voltará a massacrar socialmente os mais frágeis, e com unidades industriais, como refinarias, a serem atacadas com tremendos impactes ambientais.

Na Europa foi-nos prometido um futuro de paz, mas a ilusão caiu por terra. Apelamos a que as nossas instituições, nomeadamente as Autarquias, criem condições nos nossos territórios para o acolhimento solidário com as pessoas refugiadas, ao mesmo tempo que os nossos desejos do fim da guerra não se fiquem pelos discursos vazios, mas passem por uma política consequente de defesa da paz e do direito internacional, de rejeição da corrida à militarização e ao armamentismo, de respeito pelos direitos humanos e promoção de todas as formas de cooperação, de conjugação de objetivos para enfrentar a crise climática, uma das grandes ameaças que enfrentamos.  Sim, é muita coisa junta, mas só assim poderemos evitar que a guerra se repita e alastre.

17/03/2022


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *