Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Pianista Dulce Nagy
Em seu redor forma-se um tempo. Um tempo outro, cheio de doçura e de solenidade, prenhe de mistérios ancestrais, jamais capturado pelos minutos do relógio. O tempo feito de silêncios e de palavras, a ponderação sobre o significado de cada gesto, sobre o peso e a leveza de cada som – essa vocação primeira e definitiva, súmula de quantas vocações encontrou na vida: a música.
E, nos lábios em flor, as pétalas de um pensamento carmesim, atravessando os séculos, do barroco alemão até ao aqui e ao agora: A rosa não tem porquê… É como se Angelus Silesius estivesse na ampla sala de Dulce Nagy, sentado na poltrona em frente da sua, em redor da lareira, entre os livros e as conchas, os objetos da memória que se infunde no presente, o belo piano de cauda e a luz oceânica da foz larga do Tejo.
Visito a casa onde cresceram os quatro filhos da pianista e por onde passaram tantas e tantas personalidades da cultura portuguesa e mundial – caem-me os olhos, numa parede, sobre a desenhada letra de Mestre Almada Negreiros, que ali inscreveu, a 25 de agosto de 1966, em forma oracular e poética «Chegar à vida pela / primeira vez em cada / instante». E é como se a alma do lugar me abraçasse e acolhesse, com o sorriso e a alegria dos donos da casa renovados a cada instante, como que pela primeira vez; como neste delicioso retrato de há quase cinquenta anos…
Há cor na bicromia da fotografia: o verde intenso da mata atlântica, que vence a aridez da gravilha… ao calor desse meio-dia a pique sobre um casal que se adora descubro algo de para-além-dos-dois. O arquétipo do encontro. A essência do feminino e do masculino. Eis Dulce e Piñeiro Nagy, os construtores desta casa feliz, em que a música (sem porquês, como a rosa) resume e reafirma a vida, atualiza a maravilha a cada momento, surgindo tudo como que pela primeira vez…
Vinda de uma família com longa tradição musical (seu pai fora um importante violinista e seu avô clarinetista), Dulce havia de ser pianista, como a sua bisavó, e dedicar grande parte da sua vida ao ensino dessas teclas, a brincar entre o forte e o piano e o pianoforte… Entretanto casou, foi mãe, o casamento não funcionou e decidiu recomeçar. Fazer coisas diferentes. Aprender, por exemplo, um novo instrumento musical.
E foi assim que, certo dia, entrando na Academia de Amadores de Música, encontrou Piñeiro Nagy, o discípulo do eminente Emílio Pujol e introdutor do Curso de Guitarra em Portugal… Aquela que era, antes de mais, a reunião de duas sensibilidades ligadas à arte, havia de tornar-se a ligação de duas pessoas movidas por uma mesma energia dinâmica, animadas pela vontade de construir – como o fizeram desde então. Assim nasceu o Festival Lisboa Estoril – como “Festival de Música da Costa do Sol” em 1975, «sob proposta do guitarrista Piñeiro Nagy e o aval do compositor Fernando Lopes-Graça, do musicólogo João de Freitas Branco e da pianista Helena de Sá e Costa», pode ler-se em https://www.festorilisbon.com/historia/festival/.
Enquanto apresenta artistas do maior prestígio mundial (Mstislav Rostropovich, Rudolf Nureyev, Ruggero Ricci, Teresa Berganza, Marcel Marceau, entre um milhar de nomes), o Festival continua a ser também uma rampa de lançamento para novos valores artísticos e de criações recentes – com mais de trezentas obras ali apresentadas em estreia mundial. A execução dos concertos em monumentos nacionais e salas históricas portuguesas sublinha a longa tradição europeia em que se filia e a assunção da música como património imaterial da humanidade. O Festival viu a sua importante missão reconhecida internacionalmente, com a admissão na European Festivals Association em 1983, e em Portugal, quando, pelo 30º aniversário da sua fundação, o Presidente Sampaio concedeu ao Diretor Artístico a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique.
O que está aquém e além deste imenso sucesso na sua face mais evidente, está intimamente ligado a Dulce Nagy – à inenarrável magia do seu encanto, ao seu ser silencioso que torna mais importantes as palavras, à sua mesma extraordinária fisicidade: a marmórea pele muito branca, o cabelo fulvo e aceso, a luz qualificando a cor e esta a luz. Não foram certamente as belezas do país nem a importância dos cachês a trazerem artistas do calibre do alaudista americano Hopkinson Smith a Portugal – mas o afeto que o ligava a Piñeiro Nagy e a Dulce, cujo dulcíssimo nome dizia gostar de saborear “como um caramelo” (diz)… E há aquele comovente episódio do violinista argentino Alberto Lysy, que esperou a mão de Dulce para se despedir da vida em Lausanne, no fim de 2009…
Entre outras, figura de grande relevo na vida de Dulce é a do compositor e musicólogo Fernando Lopes-Graça, cujo repertório guitarrístico tem sido divulgado no país e no estrangeiro por Piñeiro Nagy (a quem parte deste foi dedicado). O Maestro tornou-se visita familiar da casa e entrou carinhosamente nos seus ritmos domésticos, chegando a tomar conta dos meninos, ainda pequenos… Mente brilhante e alma generosa, estabeleceu com Dulce uma grande cumplicidade intelectual para toda a vida.
Esse constante acompanhar Piñeiro Nagy nos festivais internacionais ou nas masterclasses em que este participa, tem levado Dulce a viajar muito pela Europa, Estados Unidos e Oriente – e talvez daí venha em parte o grande interesse que dedica às disciplinas espirituais das terras de Sol Nascente. Se hoje Piñeiro Nagy ousa apresentar-se em Espanha sem a mulher, logo lhe perguntam à descarada: «Hombre, ¿dónde está tu Santa?»
A expressão dos seus olhos é a de quem vê o fundo das coisas e ninguém sabe dar a mão da forma calorosa com que ela a dá. O seu nome vem dos confins da Meia Idade – de Dolça d’Aragó, a segunda rainha de Portugal e protagonista d’O bobo de Herculano. O seu carisma, de onde vem? Não se sabe, não é importante saber-se… A rosa não tem porquê…
PS: Muito agradeço ao António a ajuda neste texto para a sua querida Mãe.
23/02/2022

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