Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Zonas de influência

Podemos estar perto de uma guerra, que a acontecer, causará enormes problemas, incluindo aqui, neste extremo da Europa.

Não há dúvida que a Rússia está a tentar recuperar o domínio sobre os países vizinhos, que estiveram unidos na URRS (União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas) formada em 1921 por Lenine e que se desintegrou em 1991.

O colapso do regime comunista fez surgir, em torno da Rússia, 15 novos países independentes, e também fez com que os países da Europa de Leste, de facto protetorados da Rússia, se libertassem ao ponto dalguns terem aderido à União Europeia e a NATO.

O objetivo da Rússia é recuperar alguma dessa influência e evitar que a Europa e os Estados Unidos aumentem a sua nessas regiões. Naturalmente, a Rússia gostaria que a Ucrânia e todos os países à sua volta fossem tão obedientes e submissos quanto é a Bielorrúsia.

A Ucrânia pela sua geografia e por ter grandes comunidades russas é um alvo óbvio e já sofreu diversos ataques da Rússia, incluindo a anexação da Crimeia e a ocupação das zonas orientais de maioria russa.

É mau que uns países queiram ter controlo sobre os outros, mas isso é mau todos os dias e não apenas de vez em quando.

Assistimos a discursos dos dirigentes europeus e sobretudo dos americanos muito indignados com a intenção da Rússia e também da China de criarem zonas de influência que protejam os seus interesses.

Claro que isso é mau, mas os Estados Unidos têm feito o mesmo centenas de vezes e será muito difícil a Rússia fazer na Ucrânia alguma coisa que os Estados Unidos não tenham já feito noutros países.

Invasões na América latina não têm conta. Apoio a grupos que agiam contra governos democráticos eleitos também não, basta lembrar o Chile de Salvados Allende, sem esquecer as guerras no Iraque, na Líbia ou no Afeganistão e muitas outras.

As pressões para manter zonas de influência recorrendo a ameaças, mais ou menos diretas, também chegaram a Portugal. Ainda não há muito tempo os embaixadores americanos fizeram ameaças caso o porto de Sines fosse concessionado a uma empresa chinesa.

Os russos e os chineses têm interesses sobre outros países que são tudo menos legítimos, mas isso não torna os interesses americanos e europeus legítimos.

Podemos dizer que os americanos representam os nossos interesses, mas o nosso interesse e o dos russos, em influenciar as decisões e a vida dos ucranianos, tem do ponto de vista da moral e do direito a mesma legitimidade: nenhuma!

Esta tensão e a guerra, que pode acontecer, de certo não interessam aos cidadãos comuns da Ucrânia nem da Rússia, mas podem ser de grande interesse para os fabricantes de armas de ambos os lados empenhados em estimular as vendas e para os militares justificarem fatias cada vez maiores dos orçamentos dos estados.

23/02/2022


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