Manuel Silva

PSD prepara-se para nova viragem à direita

Sobre as últimas eleições legislativas já foi comentado praticamente tudo. Surpreendentemente, o PS venceu-as com maioria absoluta. O comportamento do PCP e do BE, chumbando o O.E./2022 e colocando o PS na qualidade de vítima, deu uma grande ajuda à retumbante vitória de António Costa e do seu partido.

Mais uma vez se provou que a “esquerda” é maior que a “direita”. Apesar da derrota que sofreu, se o PSD não se apresentasse como um partido de centro, a vitória do PS ainda seria mais ampla. Haveria uma bipolarização “esquerda”/”direita”, o que seria muito prejudicial para o regime democrático.

A derrota do PSD não se deve essencialmente a Rui Rio. O PSD atravessa uma crise estrutural desde os fins do cavaquismo. Com Cavaco, a vida dos portugueses melhorou significativamente. Recusando o neo-liberalismo e o “estado mínimo”, aplicando uma política keynesiana de forte investimento público, criou infra-estruturas fundamentais.

Nos últimos anos do cavaquismo, tudo correu mal ao PSD. A repressão violentíssima sobre os manifestantes que protestavam contra o aumento das portagens na ponte 25 de Abril, no Verão de 1994, o carnaval de 1993, a corrupção de gente que subiu com Cavaco, o défice democrático vivido no partido (quem não era pelo chefe era contra o chefe, sendo mesmo expulso, como aconteceu com o militante nº 3 do PSD, Carlos Macedo), entre outros factores, retiraram grande credibilidade ao PSD, que sofreu uma amarga derrota em Outubro de 1995.

Marcelo Rebelo de Sousa sucede, na liderança partidária, a Cavaco. Além de mostrar ter jeito para tudo menos para as funções que exercia, virou à direita, ensaiando uma aliança com o CDS e Paulo Portas, fracassada. Seguiu-se Durão Barroso, que fez regressar o PSD ao poder, aliado ao mesmo Portas e ao seu partido. O governo da “direita” parecia estar imbuído de espírito reformista, o qual não passou das intenções.

Claramente derrotado nas eleições para o P.E. de 2004, Barroso abandona o cargo e torna-se presidente da Comissão Europeia. Quem conhece as voltas e reviravoltas deste senhor desde o MRPP, no PREC, não fica espantado. O governo de Santana Lopes foi o desastre que se viu, o qual ocasionou a maioria absoluta obtida por José Sócrates.

Manuela Ferreira Leite deu nova credibilidade ao partido. No entanto, como diria Santana Lopes, na sua função de “astrólogo”, estava escrito nas estrelas que nunca chegaria a primeira-ministra. Passos Coelho e Miguel Relvas foram os maiores responsáveis por tal e não Sócrates ou o Partido Socialista, que perderam a maioria absoluta em 2009.

Com Passos Coelho que, mais papista que o Papa, foi além da troika, o PSD tornou-se um partido da direita radical, que pôs contra si os reformados, os jovens que não obtinham emprego, perdeu os sectores mais dinâmicos da sociedade, viu virarem-lhe as costas as elites, intelectuais, cientistas, professores universitários, artistas, empresários, especialmente os pequenos e médios. Boa parte da classe média foi destruída e proletarizada.

Foi este o partido herdado por Rui Rio. Melhor que ele, ninguém faria.

Pelos possíveis candidatos à liderança do PSD, este partido virará novamente à direita, liderando uma frente direitista radical. Há uns que dizem dever tornar-se num partido de centro-direita, “sem complexos”, como é o caso de Rangel, para outros, como o presidente da C.M. de Aveiro, Ribau Esteves, “o PSD deve manter a matriz social-democrata, assente no centro-direita”. Nem vale a pena comentar a ignorância deste senhor quanto à origem e à evolução da social-democracia. Dr. Ribau Esteves, a actividade política não é “como comer umas gajas boas”, à semelhança do que disse, numa entrevista ao “Expresso”, quando era secretário-geral do partido durante a liderança do Menezes de Gaia.

Se o PSD seguir este caminho, resta aos muito poucos sociais-democratas que ainda no mesmo militam fazer as malas e lutar pela social-democracia em outro lugar.

23/02/2022


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