Entrevista a João Pedro Correia Lopes

Empresário

“Qualquer negócio e principalmente na restauração, além da rentabilidade, tem sempre de ter em conta a inovação e a diferenciação; sempre que se começa algo novo, ser igual ao que já existe não te vai fazer crescer a curto/médio prazo!”

 

• Paula Jorge

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

 

Ficha Biográfica

Nome: João Pedro Correia Lopes

Idade: 36 anos

Profissão: empresário

Livro preferido:

Destino de sonho: Nova Iorque

Personalidade que admira: Luís Rasquilha

 

Muito obrigada, João Pedro, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?

João Pedro Correia Lopes (JP) – Olá, Paula. Antes de mais quero agradecer-te pela gentileza deste convite, é um gosto participar nesta entrevista. Estudei Publicidade e Relações Públicas em Viseu, na Escola Superior de Educação de Viseu, depois estagiei em Lisboa, numa empresa de gestão de marketing e publicidade, onde fiquei a trabalhar nos 5 anos seguintes até ao meu regresso às origens. No ano anterior à abertura do meu negócio, trabalhei num bar em Oliveira de Frades.

 

PJ – É um jovem empreendedor da região de Lafões. Tem um bar que é uma referência nas Termas de São Pedro do Sul. Como lida com esta responsabilidade diariamente?

JP – – Lido tranquilamente e, na verdade, julgo que não sinto nem vejo isso como uma responsabilidade. Tento ter um negócio à minha imagem, que expresse o que gosto de fazer e de proporcionar aos clientes experiências a que não estavam habituados nesta região. Qualquer negócio e principalmente na restauração, além da rentabilidade, tem sempre de ter em conta a inovação e a diferenciação; sempre que se começa algo novo, ser igual ao que já existe não te vai fazer crescer a curto/médio prazo! Vais ser novidade no início, mas isso é passageiro e afinal és só mais um, daí que tenha permanentemente vontade de inovar, ano após ano e, nos 6 anos em que a Casa da Quinta existe, temos novidades diferentes a cada temporada e muitas delas que nunca se viram neste tipo de negócio. A minha única responsabilidade é proporcionar um serviço e produto aos clientes de que eles gostem e que os faça voltar e, sinceramente, deixa-me sempre feliz ouvir opiniões extremamente positivas de clientes, muitos deles de fora, e que se lembrem sempre de São Pedro do Sul por bons motivos!

 

PJ – Que apoios existem para ajudar e/ou impulsionar os jovens na área empresarial?

JP – Não existem praticamente nenhuns. Os únicos que continuam a existir são os de apoio à contratação e facilidades de crédito, não sei se ainda há apoios para pessoas mais jovens como eu, até porque já tenho 36 anos, mas quando comecei não havia nenhum, além desse que referi.

PJ – Fale-nos da experiência que viveu e continua a viver, no seu ramo de negócio, no que respeita à epidemia covid-19.

JP – Foi um período muito difícil na minha vida; passei dias sem dormir, sem saber como iria pagar as contas, porque a maioria das despesas se mantinha; muitas delas simplesmente passaram para os meses posteriores, mas nós continuámos sempre com a porta fechada. Toda a restauração sofreu imenso e os apoios foram medíocres. Por exemplo, um dos apoios só recebi em julho de 2021, quase 2 anos depois de toda esta crise e, se não me tivesse aguentado, provavelmente teria fechado o negócio e recebia o apoio já com ele encerrado. Mas, felizmente aguentei, muitos dos empresários desta área aguentaram-se e tenho a esperança e a convicção de que a partir de agora a situação melhore.

 

PJ – A aposta na formação de barman para se manter atualizado numa área que está sempre a inovar é uma preocupação da sua parte?

PJ – Sim, é das coisas mais importantes neste segmento em que me quero inserir. Nenhum bar pode ser bar se não tiver um serviço sério e profissional de bar; não nos podemos chamar de bares só porque temos essa designação na porta. É o mesmo que me chamar de restaurante e servir apenas uns rissóis, chamuças e croquetes, nunca é o mesmo! Algumas das formações que tirei são dentro da área de gestão de bar, cocktelaria e mixologia e passo sempre esse conhecimento a todos os que trabalham comigo, até à minha mãe, que é um incrível apoio até hoje e já faz umas coisas bonitas (risos)!

Quando abri a CASA DA QUINTA com este conceito, de cocktails e gin & tonic, inicialmente muitos não o receberam logo de braços abertos, não só por não estarem habituados, mas também porque é evidente que os preços são diferentes. No entanto, ao longo do tempo as pessoas começaram a provar, a gostar! Acabam por ser bebidas “instagramáveis” por causa das decorações, e, neste momento, quando nos procuram, noto que é efetivamente pela qualidade das nossas bebidas, o que me deixa muito feliz. Portugal está uma década atrasado neste conceito, que já está perfeitamente implementado e faz parte da cultura de outros países da Europa. E nós somos muito competentes nesta área! Aliás, a pouco e pouco, já começa a surgir em várias cidades, porque realmente se começou a perceber que resulta e que tem clientes que valorizam não só a qualidade da bebida, mas todo o trabalho que está envolvido.

PJ – O empresário “faz” o cliente (fazendo com que ele procure o seu produto) ou adapta-se ao cliente?

JP – Eu penso que os dois fatores se conjugam: a nossa identidade tem de estar bem diferenciada, temos de saber o produto que queremos vender e, ao mesmo tempo, o tipo de cliente que vamos receber, a zona onde vamos trabalhar, estudar o mercado envolvente. Todos estes aspetos fazem parte de um trabalho prévio, antes da abertura de qualquer negócio. Sendo de São Pedro do Sul, conheço os meus conterrâneos, logo tenho perceção do que procuram e do tipo de clientes que são. Para além disso, já trabalhei e vivi longe daqui, como em Lisboa e Zurique, adoro viajar e conhecer outros países e culturas e vou sempre absorvendo o que vejo lá fora para depois poder transformar isso numa coisa vendável e rentável na nossa região, seja para as pessoas do nosso distrito, seja para os turistas.

Já fomos uma vila cheia de animação! Vinha gente de todo o país para os nossos bares e discotecas e, de repente, isso desapareceu! Nós, empresários que continuamos a investir por cá, temos esse desafio diário. Todos os meus colegas de bares em São Pedro do Sul são também empresários novos e é precisamente por percebermos isso é que somos, do meu ponto de vista, uma concorrência saudável uns para os outros.

Tínhamos, em São Pedro do Sul, um sentimento de nos diminuirmos face ao que estava ao nosso redor e às outras cidades. As pessoas de São Pedro do Sul acham que aqui nunca podemos ter a mesma qualidade que nos outros sítios, mas isso é mentira e eu sempre quis prová-lo! Podemos sim ter melhor qualidade e serviço até do que bares de grandes cidades, não nos podemos diminuir seja neste tipo de negócio, seja noutro qualquer e podemo-nos orgulhar de ser dos maiores vendedores de muitas marcas premium portuguesas no distrito, que faz com que sejamos frequentemente abordados por várias marcas que nem sequer tinham ouvido falar de São Pedro do Sul, mas que hoje já colocam a cidade no mapa, porque estão atentas, porque os seus produto foram bem vendidos, sendo bem representadas nesta pequena cidade do interior.

 

PJ – Gostaria de saber qual é a sua perspetiva relativamente à dinâmica cultural do concelho de São Pedro do Sul.

JP – São Pedro do Sul perdeu progressivamente a dinâmica cultural que lhe estava associada. Parecemos um bocadinho atrasados em relação aos dias que vivemos hoje, mas aos poucos estamos a recuperar e penso que uma cidade que se quer turística tem de apostar fortemente na cultura e nas suas diferentes vertentes e iniciativas. Tenho notado que esse trabalho se tem desenvolvido até pela realização de eventos diferenciados, como o festival de jazz que existiu aqui nas Termas, mas tem de haver mais! Têm que ser feitas festas e arraiais, mas temos de deixar de ser uma cidade em que só há isso, porque, se queremos turismo a sério, turismo jovem (que é umas das maiores lacunas da região) e turistas dispostos a gastar o seu dinheiro temos de trabalhar muito mais e proporcionar-lhes experiências, serviços e eventos, isto é, uma oferta cultural que não defraude as suas expectativas, e, naturalmente, não pode ser só o setor privado a lutar sozinho.

 

PJ – Quer partilhar connosco outro projeto em que esteja envolvido e que ainda não tenhamos falado?

JP – Este projeto já me ocupa imenso tempo (risos), mas temos também um serviço de bar e cocktelaria em casamentos e eventos, um serviço diferenciado e de qualidade que não é muito comum. Está um pouco em stand-by por alguns constrangimentos, causados pela pandemia no setor, mas espero voltar este verão em força, levando a CASA DA QUINTA para fora do espaço em que existe, proporcionando a mesma qualidade e excelência no serviço.

 

PJ – Para além da sua ocupação profissional, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?

JP – Viajar é das coisas que mais adoro, que melhor me faz, nem que seja meter-me num avião sozinho e ir ter com um amigo a um ou outro país. Outro dos meus interesses é a política, especialmente como pessoa preocupada em contribuir para o desenvolvimento da minha região. Por esse motivo comecei a estar mais atento, mas também mais presente nessa área.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

JP – Resiliente. Venho de famílias humildes, trabalhei e lutei pelo que gosto, formei-me, corri atrás do que gosto de fazer e abri o meu próprio negócio com todos os seus altos e baixos, para além de ter passado pelo meio de umas das maiores crises mundiais e ter-me voltado a erguer. Agradeço muito aos meus pais pela educação que me deram para hoje ser o que sou e para ter força e vontade para lutar.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

JP – O meu coração diz-me para deixarmos este ódio gratuito em que hoje a nossa sociedade vive e que é destilado por todo o lado, principalmente pela Internet. Se as pessoas se focassem mais no bem e nelas próprias e não nos outros, tudo seria melhor e mais bonito.

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, João Pedro. Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem a todos os nossos leitores.

JP – A minha mensagem para todos é que valorizemos mais a nossa região, que é linda, que desfrutemos dela e de tudo o que ela nos pode oferecer. Espero que nos visitem, porque para além da grande variedade de bebidas que oferece e do serviço que proporciona, a CASA DA QUINTA situa-se numa cidade de grande beleza e que merece ser conhecida e vivida!

24/02/2022


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