Coisas e Gente da minha Terra (96) por Nazaré Oliveira
TEMPO DE PAUSA

Desde Junho de 2017 tenho vindo a publicar, em todos os números da Gazeta da Beira, as minhas crónicas sobre “Coisas e Gente da Minha Terra”. Esta é a número 96. Foi uma longa e ininterrupta maratona de 5 anos. Não quero pensar que tenha sido o meu último fôlego em matéria de escrita. Prefiro pensar que seja apenas um tempo de pausa, para ganhar fôlego e continuar. E não me faltam assuntos para isso. Tenho em mente matéria para outras tantas crónicas. Mas a vida é sempre curta para se fazer tudo o que desejaríamos. Já Camões dizia pela boca de Jacob: “mais servira se não fora para tão longo amor tão curta a vida”. Assim, após uma breve pausa, espero voltar com novas crónicas, embora noutro ritmo de publicação e enquanto sentir que elas são lidas com algum interesse. Mas, como ninguém é bom juiz em causa própria, as minhas filhas são o fiel da balança: por enquanto, dizem-me “continua”; quando me disserem “pára”, “arrumarei as chuteiras”, como se diz na gíria futebolística. E limitar-me-ei a reler o que escrevi e reviver tempos que preencheram boa parte da minha vida.
As minhas crónicas pretenderam ajudar as gerações mais velhas a recordar e dar a conhecer às gerações mais novas um pouco de São Pedro do Sul, de finais dos anos 30, anos 40 e primeira metade dos anos 50. E reportei-me a estes limites temporais, porque em 1956, por razões profissionais, deixei de residir na minha terra, embora a ela ficasse sempre Iigado por laços familiares, amizades e através da investigação histórica e da escrita. Nas minhas crónicas, recordei acontecimentos mais ou menos importantes, episódios picarescos, perfis de figuras típicas, ambientes, hábitos, costumes e muito do que caracterizou um espaço social e uma época de que eu próprio fui testemunha ou mesmo participante. Procurei fazê-lo num estilo simples e linguagem clara, acessível a todos os leitores. Uma boa parte destas crónicas foram “escritas” de noite, quando o sono tardava a chegar. Quando se trata de recordar o passado, às vezes vê-se melhor com olhos fechados. Depois, no dia seguinte, as ideias escorrem para o bico da pena.

Chegaram até mim testemunhos de que as minhas crónicas eram lidas com interesse. Muitos dos meus amigos, alguns dos quais meus antigos alunos do Colégio de S. Tomás de Aquino, e até mesmo desconhecidos me manifestaram o seu apreço pela sua leitura. Gostaram, porque lhes falava da sua terra e da sua gente, de acontecimentos em que eles próprios ou os seus familiares, pais, avós, participaram. Alguns, cujos nomes referi nas respectivas crónicas, me mandaram fotografias e sugestões. Não posso deixar de destacar o Prof. Fernando Luís Santos, jornalista, homem de escrita e antigo director da Gazeta da Beira, onde publicou uma crónica sobre as minhas crónicas. Não posso deixar de recordar com saudade meu irmão Licínio, que sempre me apoiou e, algumas vezes, me ajudou a avivar a memória. Infelizmente, já não leu as últimas crónicas.

Durante sete décadas, na imprensa regional, em revista e em obras autónomas que fui publicando, escrevi sobre a Minha Terra e sobre a Região de Lafões. Nos últimos anos, em que deixei de poder dedicar-me à investigação histórica, que implica deslocações a bibliotecas e arquivos, voltei-me para os arquivos da memória e para as minhas vivências da vida sampedrense e, ao longo de cinco anos, saíram estas 96 crónicas. Manancial de recordações que dariam para outras tantas, se isso fosse possível! Mesmo assim, espero escrever mais algumas!
Tenho pena de que as minhas crónicas não fiquem publicadas em livro. Os jornais, depois de lidos, são rasgados, salvo alguns que ficam arquivados em Bibliotecas. E até havia uma Editora que se propunha fazer a edição, desde que houvesse um patrocínio. Era a Palimage Editores que, em 2002, publicou o meu livro Termas de São Pedro do Sul, patrocinado pela Câmara Municipal. Já em 1996 a Câmara Municipal de então havia editado o meu livro A Rainha D. Amélia em São Pedro do Sul. Mas isso eram outros tempos. Eu tinha menos 20 anos, outra mobilidade e não havia pandemia!

10/02/2022

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