Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Conversa de fim de jogo

Nos dias a seguir às eleições é sempre muito interessante ver os comentadores habituais e os dirigentes dos vários partidos explicarem os resultados eleitorais e não deixa de ser impressionante como há tanta gente capaz de prever e de explicar os resultados.
Fiquei, particularmente, perplexo com a explicação dada pelos líderes e altos dirigentes do BE e do PCP de que os seus maus resultados se deveram à ambição do PS em conseguir a maioria absoluta, razão porque teria aproveitado o chumbo do Orçamento de Estado para provocar eleições, e à bipolarização que se criou à esquerda.
Espanta como os dirigentes de ambos os partidos, que dizem usar métodos científicos para análise dos movimentos sociais e políticos, sabendo, antes de votarem contra o orçamento, que o PS queria ter maioria absoluta, não conseguiram ver que a bipolarização à esquerda era uma possibilidade real, pelo facto de muitos dos eleitores, que em 2019 haviam votado neles, preferirem um governo do PS que um governo de direita.
Coisa simples de entender, mas que os dirigentes do PCP e do BE ainda não perceberam.
Um dos argumentos destes partidos para votar contra o orçamento é que ele não resolveria os problemas fundamentais do país.
Não será preciso ser grande analista político para perceber que nenhum orçamento do estado, por si só, nem sequer um governo que dure quatro anos, vai resolver os problemas do país, sendo certo que a falta de visão e de ideias do PCP e BE fazem partem desses problemas.
Eles dizem e eu concordo, que um governo de maioria absoluta do PS não será melhor para os trabalhadores do que poderia ser um governo do PS com o apoio do PCP e BE. Contudo, fica-me a dúvida se não terão pensado que para os seus partidos era melhor ter um governo PS com maioria ou mesmo um governo de direita do que comprometerem-se no apoio a um governo minoritário do PS.
Queixam-se, os dirigentes do PCP e do BE, da falta de abertura ao diálogo por parte do PS, mas, segundo várias fontes, nunca em seis anos o PCP e o BE se reuniram para discutirem, em conjunto e de uma forma coordenada, com o PS as medidas orçamentais ou outras.
Para quem está de fora, esse diálogo afigura-se óbvio pois, certamente, estarão de acordo quanto ao que interessa ao cidadão comum. Se houver discordâncias será quanto à forma.
O problema é que a dificuldade em dialogarem tem raízes profundas nos anos antes e logo após o 25 de Abril de 1974, em que as lutas entre o PCP e os partidos que dariam origem ao BE foram frequentes e muitas vezes fratricidas.
As decisões, que levaram o BE, o PCP e de algum modo também o PSD e o CDS a terem tão maus resultados, mostram a importância de os partidos, além da direção, terem um grupo de pessoas cuja função fosse discordar da direção e levantar todos os problemas e dificuldades que as suas decisões possam implicar, para assegurar que sejam melhor ponderadas e refletidas.
Fevereiro 2022 Mário Pereira
10/02/2022

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