Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Carlota Proença de Almeida
De entre as primeiras, mais impressivas imagens que recorda, aquela de uma dimensão infinita, sem limites entre céu e terra, sem fronteiras a retalhar os territórios, amplidão a perder de vista, quilómetros de praia sem uma pegada humana – só as dos leões. África!
Curioso que essa medida-sem-medida tenha (in)definido um espaço que a arquiteta haveria, também cedo, de identificar, de compreender e de estruturar mentalmente, como veio a aperceber-se mais tarde. Em conversas com os pais confirmava a exatidão com que era capaz de reconstituir cada uma das muitas casas por onde viveu com a família até aos 10 anos.
O pai, militar de carreira, movia-se ao ritmo das diferentes “missões ultramarinas” em que era colocado, de dois em dois anos, e a mãe decidira não separar a família, acompanhando com os dois filhos o marido nessas várias deslocações. Deste modo, mudança e recomeço colaram-se à vida de Carlota Proença de Almeida, portuguesa do mundo, no mundo – de Lisboa, para Nacala e para a Beira, em Moçambique, e dali para o Norte de Angola, para a atual Uíge, cidade que então ainda se chamava Carmona. E não ficaria por aí…
De África, onde o tempo, como o espaço, se dilatava nessa infância que os pais lhe deixaram viver em grande liberdade («não recordo de alguma vez lhes ter ouvido dizerem-me não», sublinha), para além dos Natais quentes em fato de banho e de uma dolorosa mordedura de macaco, que ainda hoje traz cicatrizada na mão, ficaram os primeiros traços e as primeiras leituras.
Essa vocação para o desenho, partilhada com o irmão, talvez lhe viesse da avó materna precocemente desaparecida – Maria Carlota, como ela – de quem se lembra de ter visto bons desenhos a carvão, feitos aos 10 ou 11 anos. Quanto a livros, os mais marcantes foram os da inglesa Enid Blyton, que contavam a vida das famosas gémeas Pat e Isabel O’Sullivan no Colégio interno de Santa Clara. De tal forma esse entusiasmo se lhe pegou, que enfrentou a resistência dos pais e conseguiu que a inscrevessem no primeiro ano do Instituto de Odivelas, que frequentou dos 10 aos 17 anos.
Alguns ensinamentos essenciais lhe ficaram desse período feliz: a partilha dos espaços e dos objetos e a utilização densa e proveitosa do tempo. Com muitas horas de aulas e atividades formativas por dia, com pequenos intervalos para as refeições, Odivelas deu-lhe algumas as amizades “para toda a vida”, com quem haveria de viver aventuras memoráveis, como a primeira viagem ao Oriente: tinha 18 anos, comprou à revelia um bilhete para Macau e passou lá os dois meses das férias de verão.
O pai fora entretanto colocado como Adido de Defesa na Embaixada de Portugal junto do Quirinal e Carlota deixa Odivelas para ir ter com a família à capital italiana. Prepara-se por conta própria e faz os exames de 12º ano, que lhe permitem inscrever-se na prestigiosa Faculdade de Arquitetura da Università la Sapienza de Roma. Estava no segundo ano quando os pais regressam em Lisboa e é então que toma a grande decisão: FICAR.
Como as aulas não eram de frequência obrigatória, começou a trabalhar e a ganhar experiência num atelier de arquiteturae à universidade ia essencialmente para fazer os exames e assistir a uma ou outra aula de maior impacto, como as do famoso arquiteto Paolo Portoghesi. Carlota terminará o curso com as notas máximas e, inscrita na Ordem dos Arquitetos italiana, continua a trabalhar no mesmo atelier, além de fazer traduções, visitas guiadas a monumentos e de partecipar durante dois anos num programa da televisão italiana (RAI), como representante de Portugal num “Parlamento europeu” de jovens.
Carlota continua, entretanto, a desenvolver os seus interesses na área da construção e da urbanística, em paralelo com o restauro arquitetónico e funda em 1999 o seu próprio atelier – o Studio di Archittetura Carlota Proença de Almeida – com o qual começa a envolver-se em alguns projetos internacionais de grande interesse.
Um dos primeiros foi o estudo de regeneração urbana sustentável para cinco cidades da Jordânia, comissariado pelo Banco Mundial, em colaboração com Abt srl, com quem já tinha redigido um manual para a manutenção do património imobiliário da União Europeia em 50 países. Logo de seguida redigirá o Management Plan Guideline para o Centro Histórico de Macau, elevado a Património da Unesco em 2005. Da Argélia, cujas riquezas naturais levaram o governo a desejar renovar as suas infraestruturas e a descentralizar os centros urbanos da costa para o interior, veio outro desafio, que a envolveu de forma especial, até porque coordenava uma equipa multidisciplinar: para a completa projetação de novos bairros residenciais – nas cidades de Tlemcen, Sidi Bel Abbes, Annaba, Skikda – e uma inteira nova cidade no planalto de Boughezoul.
Mas também em Roma, cidade que escolheu, deixou Carlota a sua impressão digital: na recuperação dos pavilhões velho Matadouro do bairro de Testaccio, reutilizados como sede da Faculdade de Arquitetura da Università Roma Tre e no restauro de vários edifícios históricos de grande valor artístico. O passo seguinte dá-lo-á de 2013 a 2019, quando é encarregada por privados do restauro de importantes núcleos de património classificado (sujeitos, por isso, a toda uma regulamentação e cuidados novos): o complexo monumental de Villa Balbiano no Lago de Como (onde no início do ano passado Ridley Scott rodou em parte o filme House of Gucci), a Villa Astor-Tritone em Sorrento e o Villino Clara em Roma.
Neste últino ano 2021 foi convidada pelo FAI (Fondo Ambiente Italiano), uma fundação sem fins lucrativos para a salvaguarda e valorização do património artístico e natural italiano, convidando-a para integrar a delegação romana de “FAI ponte fra culture”, constituída por cidadãos estrangeiros residentes na cidade e que visa a promoção de atividades interculturais como forma de integração – desafio que aceitou de imediato, porque é algo que sente como muito seu, muito de acordo com o seu ser-estar no mundo.
Carlota Proença de Almeida nunca pediu a nacionalidade italiana, porque se sente bem sendo portuguesa; sente-se tão em casa em Roma e em Macau, como em Portugal, país talvez um pouco idealizado pela distância do quotidiano e pelas boas recordações que daqui conserva – como as das férias na Quinta da família em Carvalhais, olhando a Serra da Arada, onde de pequenina corria por entre um tapete de veludo, feito de pintainhos amarelos, que os tios Lima Raposo ali criavam…
13/01/2022

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