Graça Barão*

Álvaro Laborinho Lúcio - O Chamador

Álvaro Laborinho Lúcio é sobejamente conhecido dos portugueses. Além da Magistratura, desempenhou os cargos de deputado, Ministro da República para a Região Autónoma dos Açores, Ministro da Justiça. Foi docente de Direito Penal e deu o rosto a várias organizações humanitárias (“Apoio à Vítima”, “Direito dos Menores e da Família”, entre outras). Munido de um discurso objetivo, isento e inequívoco tem pautado a sua ação em defesa do exercício de uma cidadania ativa e responsável e de uma educação consciente e construtiva. Autor de vários livros sobre temas associados ao seu percurso profissional e de vida é, no entanto, no domínio ficcional que nos detemos.

Em “O Chamador”, livro com o qual se estreia na ficção, o autor sob a máscara de um “homem do teatro” traz à cena figuras esquecidas, de um passado pouco banal – a descoberta que um chofer de uma “camioneta da carreira” (senhor João António) pode ter uma paixão pela música de Wagner, e se deleita a escutá-la após um dia de trabalho e antes de regressar a casa, faz prova que o mundo é bem mais rico do que certas condições podiam deixar supor. Esta impressão, gravada e recuperada da memória, atesta que “Nenhum homem é uma ilha isolada”1, não vivemos nem chegamos ao que seremos sem o contributo, indelével, de todos aqueles com quem nos cruzámos na montagem da teia que constituirá a nossa vida. Caberá a cada um de nós, via rememorações e vivências, fazer justiça a quem já esquecemos.

(1) John Donne (1572-1631). In Meditações VII.
*Coordenadora Interconcelhia das Bibliotecas Escolares (CIBE)

13/01/2022


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