Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Em abril de 2019 era lançado o último livro de Leonor Xavier, de título odorífero e matizado de cores e luzes, exclamação lançada um dia na capital grega entre amigos e por eles fixado como felicíssimo resumo do que foi a vida desta jornalista, que amou tanto as viagens como os aromas e os sabores da cozinha. De tudo isso e mais se fez Há laranjeiras em Atenas, compilação de textos de natureza vária, escritos a partir de apontamentos tirados ao longo de diferentes momentos e que, atrás da aparente simplicidade de quem “arruma gavetas”, se filia verdadeiramente nesse género literário quinhentista que é a miscellanea, antecessora do ensaio, onde se entrecruzam opinião, instrução e divertimento.

Explicou a autora que uma primeira ideia de fazer deste um “livro de viagens” se foi deixando contaminar afetivamente para se tornar, efetivamente, num “livro de memórias” – híbrido, como são todas as coisas que, do coração à cabeça e desta ao coração, constituem o fluir da vida com todas as suas contradições. O que não tem dúvida nem contradição é o valor subjacente a esta escrita variada, que inclui versos entre a prosa e tantas citações de autores queridos entre recordações, reflexões e receitas culinárias. Dele falava Leonor Xavier em dia de apresentação: «Os Padres do deserto, no século IV, diziam que o maior pecado é a distração. O que eu sinto que este livre talvez passe às pessoas é que é importante ver, olhar, reparar, contar, pensar, saber os pormenores das pessoas, das coisas, e o mundo onde nós vivemos.»
A obra de Leonor Xavier é bem exemplificativa dessa atenção e desse tempo que, com respeito ou compaixão, com amor ou com interesse crítico, dedicou aos outros – quer se tratem dos “transparentes nesta vida”, os anónimos das cidades, de quem entrevê e com quem partilha um sentimento humano, quer sejam as figuras eminentes que interessaram a biógrafa, nessa tensão entre público e privado. Recorde-se, por exemplo, Maria Barroso, Um Olhar sobre a Vida (Difusão Cultural, 1995), em que a revisão do notável percurso da atriz e Primeira Dama portuguesa, não descura a humanidade com que lhe delineia os contornos, nem pretende iludir a grande admiração que lhe dedica. Ou ainda Raul Solnado, A Vida Não Se Perdeu (Oficina do Livro, 2003), sobre o grande homem de teatro, que conheceu em março de 1987 e de quem viria mais tarde a ser companheira, até ao fim da vida deste, em 2009.
Relendo agora Há laranjeiras em Atenas, a sensação mais forte que me fica é a desse outro aspeto essencial na vida de Leonor Xavier, e que se liga tanto à atenção quanto ao humanismo acima descritos: o valor da amizade. São páginas são atravessadas, a propósito de cada coisa, de personagens mais ou menos conhecidas, mas que protagonizaram viagens e episódios da vida da autora e de quem esta soube colher um sentido para esses momentos que recorda. As casas – sempre as casas, lugares de impregnados de memória, que lhe inspiraram Casas Contadas (Leya, 2018) – regressam aqui associadas às pessoas: as conversas com François C. na mansão secular da sua família, no coração do Berry; a casa e o jardim repletos de perfumes e sabores de Teresa Belo, nos arredores de Lisboa; os recadinhos espalhados pela casa carioca de Marci Dória ou o que certa vez lhe deixou Liliane B. no seu elegante apartamento de Bruxelas; um fim de ano com a mesma Liliane e um grupo de amigos num chalet dos Alpes Franceses; ou o aperitivo no terraço de Tassos Kriekoukis, sobre os telhados de Atenas…
A revolução de abril apanhou-a em início de vida familiar com o marido, Alberto Xavier, a cuja memória este livro é dedicado. Fiscalista e Assistente na Faculdade de Direito de Lisboa, foi Secretário de Estado do Planeamento durante os últimos 40 dias do governo de Marcello Caetano, depois do que partiu para o Rio de Janeiro, com a mulher e os três filhos, entre os 8 e os 3 anos de idade, tendo vindo a ensinar na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Considerada a obra maior de Leonor Xavier, Portugal, Tempo de Paixão (Temas&Debates, 2000) é o resultado do inquérito de uma entrevistadora, que ouve 100 testemunhos de homens e mulheres, com diferentes posições políticas, sobre o “Verão Quente” de 1975 e o Processo Revolucionário que se lhe seguiu: «Desde os primeiros testemunhos já eu descobria que todos os portugueses tiveram em comum uma vertigem de medo, de perigo, de angústia. (…) A liberdade era um desentendido e o regime democrático uma causa em aberto.»
No Brasil, onde viveu de 1975 a 1987, entre o Rio de Janeiro e São Paulo, iniciará a sua carreira jornalística, primeiro como correspondente do jornal Tempo e, pouco depois no Espaço T Magazine, a convite de Maria José Costa Félix; virá a colaborar também com Mundo Português e a ser correspondente do Diário de Notícias. É ainda aqui que irá escrever o seu primeiro romance, Ponte-Aérea (Nórdica, Rio de Janeiro, 1983) – o mesmo país que estará no centro dos seus ensaios Contributo para a história dos portugueses no Brasil (Sec. Estado Emigração, 1985) e Portugueses do Brasil e brasileiros de Portugal (Oficina do Livro, 2016). Virá a adquirir a dupla nacionalidade portuguesa e brasileira.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira (a quem a autora dedica neste volume o breve e belíssimo capítulo “Virtude Maior”, reflexão compartilhada entre ambas sobre a coragem) releva, como uma das constantes na vida de Leonor Xavier, a alegria: «E embora este livro não se dedique a este tema, atravessa-o a alegria de alguém que se sente reconciliada com a vida. Nele estão presente lutos, separações, exílios e doenças, mas nunca se perdeu a capacidade lúdica da diversão», escreve a filósofa, a respeito de Há laranjeiras em Atenas – obra que a autora termina neste tom, emocionado e emocionante:
Relendo um pouco estes passos da minha escrita, vejo-me de olhos abertos em face das nuvens que passam no céu, assim os pensamentos desfilam em mim. As nuvens correm, transformam-se, desenham-se. São claras, escuras, brancas, transparentes. Não têm forma nem modelo, abrem-nos a imaginação. Elas voam para o outro lado do mundo.
Leonor Xavier voou «para o outro lado do mundo» no dia 12 deste mês. Tinha 78 anos e lutava desde 2014 contra o cancro, esse Passageiro Clandestino (Temas&Debates, 2014), livro que lhe valeu em 2016 o “Prémio Frei Bernardo Domingues” do Instituto D. António Ferreira Gomes. Formada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi, no regresso do Brasil, redatora da revista Máxima. Publicou vários volumes de ensaio, biografia, crónica e romance e foi agraciada com o grau de Oficial da Ordem do Mérito.
30/12/2021

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