Crónica do Olheirão por Mário Pereira

O barato sai caro

Desde há anos que há um movimento contra as regalias dos políticos e como costume passámos do 80 para o zero, sem a devida ponderação, apenas para calar o clamor.

A redução dessas regalias gerou economias, mas também situações que prejudicam a qualidade da governação e da democracia.

O salário do presidente de uma câmara pequena é inferior ao salário de um professor nos escalões superiores ou de que um juiz em início de carreira e também os salários dos ministros, secretários de estado e deputados são baixos.

Acabou também o subsídio de integração, que teve muitos abusos, nomeadamente, por funcionários públicos que no fim do mandato voltavam aos seus lugares e recebiam esse subsídio.

Este subsídio, muito criticado, pode fazer sentido, pois alguém que tivesse uma carreira profissional independente ao sair da política pode não ter facilidade em recuperar os seus clientes e se for empregado no setor privado, pode já não ter emprego.

Isto tem consequências para a governação e a democracia. Até, Rui Rio disse ter dificuldade em atrair para as listas pessoas com carreira profissionais bem sucedidas, porque os prejuízos para elas seriam excessivos.

As listas de candidatos a deputados também refletem essa degradação. Em Viseu, nas listas do PSD e do PS, não se vê ninguém com grande prestígio na região, na maioria  serão funcionários públicos com envolvimento partidário.

Excluídos os dirigentes partidários que aparecem na televisão, penso que não haverá muitas pessoas capazes de dizer o nome de 10 deputados da próxima Assembleia da República.

A política já deixou de compensar até para quem ia por más razões, pois ao colocar as pessoas sob o foco da comunicação social e da justiça torna alguns esquemas mais difíceis, como mostra a confissão do ex-ministro Manuel Pinho ao Jornal Expresso de 18 de Dezembro: “Fiz mal em ir para o governo. Perdi uma fortuna incalculável”.

As pessoas não devem ter ganhos patrimoniais por desempenhar um cargo político, mas também não podemos pedir-lhe que, sem um salário adequado sejam muito competentes e incansáveis.

Quando me dizem: “mas o meu salário é muito menor”, peço que compararem o salário dos políticos com os dirigentes de muitas empresas e que comparem o património que um político honesto ou um pequeno empresário bem sucedido igualmente honesto podem construir.

Só para facilitar, diga-se que o BES pagava a quem dirigia uma coleção de fotografia mais do que ganha o ministro das finanças.

Dizem-me que nas empresas o salário é justificado pelo mérito, mas já vi ilustres gestores, quando experimentaram a política, fazerem pior do que outros vindos das juventudes partidárias.

Não deixa se ser estranho ver tantas pessoas empenhadas em que os melhores não entrem na política, daí a pergunta: a quem interessam políticos pouco competentes ou dependentes de favores?

30/12/2021


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