Coisas e Gente da minha Terra de Nazaré de Oliveira
JOSÉ FERNANDES DE ALMEIDA
Entre as pessoas que, na minha juventude, tiveram grande influência na minha vida, conta-se JOSÉ FERNANDES DE ALMEIDA, para muitos o ZÉ DA CONSERVATÓRIA, de tal maneira se identificava com a sua função. Entre os amigos, era também conhecido pelo Zé do Emídio, por ser filho do artista do ferro Emídio Ferreiro, que foi avô do notável Gravador David de Almeida.
Fiz exame da 4ª classe em 1941. Tinha 11 anos. Saído das mãos do Prof. Metelo, eu, como a generalidade dos meus colegas, tinha uma boa preparação, especialmente na língua portuguesa e aritmética, as disciplinas fundamentais. Lia, interpretava e redigia bem e as quatro operações com números inteiros e fraccionários — quebrados lhes chamávamos nós — e decimais para nós não tinham segredos. Resolvíamos problemas práticos que muitos alunos de hoje (e até adultos) dificilmente resolvem, se lhe tirarem a máquina de calcular ou o computador.
Aos 11 anos, formado com a 4ª classe na “universidade da Negrosa”, um problema se punha. E agora? Colégio não havia. Era um anseio que só 8 anos depois se concretizaria. Para mim só havia um caminho: função pública. E foi assim que eu tive de deixar de usar calções e comecei a usar calças compridas, para entrar na Conservatória do Registo Predial como praticante. Foi aí que eu encontrei um homem que havia de deixar marcas na minha vida: José Fernandes de Almeida, Ajudante do Conservador, o Dr. Castro Lopes, cliente do meu pai, que era motorista de praça. Meu pai falou com ele e, com o aval de José Fernandes, passei dos bancos da escola para uma cadeira no topo de uma comprida mesa, como praticante da Conservatória. É evidente que não ganhava dinheiro. Mas ganhei sabedoria.
José Fernandes era um funcionário distinto, muito considerado entre o funcionalismo e na sociedade sampedrense. Nessa altura, andaria pelos 25 anos. Era um homem de boa figura, cuidadoso com a indumentária, sempre muito bem escanhoado, amável com toda a gente, inteligente e extremamente meticuloso. Tomou-se o meu ídolo de adolescente. Era a peça fundamental da Conservatória, até porque, além do Conservador, era funcionário único, agora com um praticante a quem tinha de ensinar tudo. O Conservador, Dr. Castro Lopes, tinha um gabinete privativo, anexo à sala única de trabalho e atendimento ao público. Era um homem simpático, educado, à espera do pouco tempo que lhe faltava para a aposentação. Chegava à repartição a meio da manhã, cumprimentava o Ajudante, um “olá, jovem” para mim, e enfiava-se no gabinete a ler os jornais. Praticamente, não tinha contacto com o público. Para isso bastava o Zé Fernandes. Nunca o vi fazer outra coisa que não fosse ler e assinar alguns papéis que o Ajudante lhe punha à frente e a que ele passava uma vista de olhos praticamente sem os ler, tal era a confiança que nele depositava. Numa altura em que o Dr. Castro Lopes esteve de férias, vi plenamente a suficiência de José Fernandes, que tudo fazia e assinava. E compreendi que o Dr. Castro Lopes era como um processo prestes a ser arquivado. Quase se limitava a ser simpático e educado.
A minha passagem pela Conservatória constituiu para mim um alargar de horizontes e de relações humanas. Passei do meu limitado horizonte de bairro periférico para um horizonte mais alargado: a Vila, com as suas actividades variadas, os serviços administrativos, as relações com as freguesias. Sob a batuta de José Fernandes, aprendi muito: fazer buscas nos calhamaços de registo de propriedades, minutar e fazer requerimentos, passar certificados; aperfeiçoei a minha caligrafia e enriqueci o meu vocabulário: termos e conceitos como doação, hipoteca, cabeça de casal, usufruto, partilhas e outros tomaram-se para mim familiares. E compreendi a importância do papel selado: a papel selado se disputavam as demanda em tribunal; em papel selado se comprava e vendia a propriedade; em papel selado se hipotecava a belga ou a casita; em papel selado se faziam e desfaziam casamentos. E tanta coisa mais! Cheguei à conclusão que Portugal não funcionava sem papel selado!
A Conservatória funcionava nos claustros do Convento, onde também funcionavam outras repartições. No antigo edifício dos frades franciscanos, além da Igreja, funcionava — com excepção do Notário — toda a administração pública: Câmara Municipal, Tribunal, Finanças, Registo Civil, para não remontar aos tempos em que funcionava a Cadeia. Durante o ano e meio que trabalhei na Conservatória, conheci muita gente, nomeadamente no sector do funcionalismo público. Depois, fui para Viseu prosseguir os estudos. Mas levei comigo a grande influência recebida de José Fernandes: meticulosidade, espírito de rigor e perfeição, persistência…
Mas José Fernandes de Almeida não foi só um funcionário distinto. Foi um Cidadão interveniente na vida pública social da sua terra. Tinha uma paixão: o teatro amador. Participou praticamente um tudo que, nesse domínio, durante as décadas de 30, 40 e 50, se fez em São Pedro do Sul. Algumas vezes como actor. A maior parte das vezes como ponto. Em alguns desses espectáculos participei também. José Fernandes era o Ponto crónico que, enfiado no seu cacifo, era a voz oculta que comandava os actores em palco.
Mas a sua acção cívica alargou-se a outros sectores da vida sampedrense. Fez parte das MESAS ADMINISTRATIVAS DA MISERICÓRDIA durante três triénios, várias COMISSÕES DE FESTAS DA VILA, pertenceu à Direcção do CLUBE DE SÃO PEDRO, participou na angariação de fundos para os CORTEJOS DAS OFERENDAS A FAVOR DO HOSPITAL.
Deixei de conviver com ele quando em 1956 deixei de residir em São Pedro do Sul. Acidentalmente, encontrávamo-nos em férias e no mês de Agosto, em Espinho, onde falávamos da nossa terra e recordávamos os tempos da Conservatória. Já depois da sua morte, nas minhas pesquisas em jornais antigos, encontrei no Povo da Beira uma notícia sobre os exames da Instrução Primária em São Pedro do Sul em 1927. Lá vinha: José Fernandes de Almeida aprovado com distinção. Não fiquei surpreendido, porque conhecia a sua inteligência e qualidades.
Passaram 80 anos desde que eu, miúdo de onze anos, me iniciei na vida de responsabilidades de adulto, sob a batuta de José Fernandes de Almeida. Com muita saudade, à sua memória dedico esta crónica.
16/12/2021

Comentários recentes