Coisas e Gente da minha Terra de Nazaré Oliveira

O DR. ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA

Não vou escrever sobre o Poeta, que não conheci, embora aprecie a sua obra. Vou escrever sobre um ilustre sampedrense, seu homónimo e contemporâneo. Sobre ele já escrevi, em 2009, assinalando o cinquentenário da sua morte.

ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA nasceu em São Pedro do Sul em 1894. Aos 15 anos, alterou o seu nome para António Correia de Almeida e Oliveira, para evitar confusões com o poeta seu homónimo e seu conterrâneo. Mas o Almeida não pegou e para toda a gente continuou a ser apenas António Correia de Oliveira. Este, sim, conheci-o intimamente, porque, não obstante a nossa grande diferença de idades, me honrou com a sua amizade e exerceu grande influência na minha formação intelectual.

Mas vamos à sua biografia e obra: concluído o curso liceal, foi estudar para Coimbra, frequentando, em simultâneo, as Faculdades de Letras e de Direito. Licenciou-se em Letras e chegou ao 5º ano de Direito. Razões de saúde impediram-no de realizar os últimos exames do curso jurídico, que não concluiu. Na Escola Normal Superior preparou-se para seguir a carreira docente, vindo a ser um dos mais destacadas pedagogos do país. Foi professor dos liceus de Vila Real, Viseu, Aveiro e finalmente Coimbra. No Liceu D. João III, foi até à sua morte, professor metodólogo. Com ele estagiaram várias gerações de professores de Português e de Francês. Muitos conheci. Todos se referiam a ele com carinho e apreço, pelo seu saber, pelas suas qualidades de pedagogo e pelos seus dotes naturais de humanidade e simpatia. Dedicou-se também à elaboração de manuais escolares. Os seus compêndios de Português e de Francês foram durante muitos anos aprovados como livros únicos para todo o país. Homem de cultura, no verdadeiro sentido do termo, repartiu as suas actividades pela Pedagogia, Filosofia, História, Arte e, sobretudo, Crítica Literária. Os seus trabalhos de Estudos Literários atingiam, em extensão e profundidade, as Literaturas Portuguesa, Espanhola, Francesa e Italiana. Deixou publicada uma vasta bibliografia, com especial incidência em Estudos de Literatura Portuguesa e Espanhola dos séculos XVI e XVII, de que era especialista e em que a argúcia crítica dos seus comentários é valorizada por uma exposição clara e elegante. Em contacto com os melhores metodologistas estrangeiros, foi um didacta notável, que fez escola e abriu horizontes na metodologia das línguas portuguesa e francesa.

Personalidade multifacetada, dotado de requintada sensibilidade, também cultivou as artes. Para além da poesia e prosa dispersas por várias publicações, pintava e desenhava, deixando quadros a aguarela, lápis e à pena. Ele próprio executava as ilustrações dos seus livros didácticos.

Sempre muito ligado à sua terra, onde tinha duas quintas provenientes dos antepassados: a Quinta da Caravela, um pouco acima das Moitinhas, e a Quinta de Pouves, onde tinha uma casa, à beira do rio Sul. Ali vinha passar sempre as sua férias. Fui-lhe apresentado por meu tio António Nazaré, em Pouves. Desde logo a sua cativante simpatia me atraiu. Eu estava a concluir o curso liceal. Despediu-se de mim com estas palavras: “Quando fores para Coimbra, aparece em minha casa, que eu quero acompanhar os teus estudos”. Quando lhe disse que tencionava matricular-me como aluno voluntário, respondeu: “Mais uma razão, porque as dificuldades são maiores”. Assim fiz. Bisonho caloiro, bati-Ihe à porta que, a partir daquele momento, se me franqueou. A sua biblioteca esteve sempre à minha disposição. Para mim, chegou a mandar vir livros do seu livreiro francês. O seu saber, o seu convívio rasgaram-se horizontes, abriram-me perspectivas. Espírito comunicativo e aberto, temperamento afectuoso, conversador aliciante e afável, os nossos colóquios de Verão, à beira do Rio Sul, na sua Quinta de Pouves, eram para mim momentos de enriquecimento e prazer. Quando chegou a altura, fez questão de desenhar, à pena, para o meu livro da Queima das Fitas, a minha caricatura junto da Tribuna de Lafões, onde eu começava a escrevinhar. E quando eu, jovem de vinte e poucos anos, ainda estudante, iniciei a minha carreira de professor no Colégio de S. Tomás de Aquino, foi ainda o seu conselho amigo que, algumas vezes, me serviu de guia pedagógico. Entretanto acabei o meu curso e casei. O Dr. Correia de Oliveira e a Esposa foram os meus padrinhos de casamento. Ainda hoje guardo no meu dedo o anel de licenciatura que me ofereceu como presente de casamento.

Infelizmente, pouco mais tempo convivi como ele. Pouco mais de três anos depois, inesperadamente deixou a vida, com 65 anos, quando ainda havia tanto a esperar da sua inteligência e do seu saber. Estava no Hotel Vouga, onde se instalava para tratamentos termais, quando se sentiu mal. Levaram-no para Coimbra, mas de nada valeram os esforços da medicina. Repousa no cemitério antigo de São Pedro do Sul, no jazigo da família Correia de Oliveira, onde eu sempre o visitava no dia de Finados, no tempo em que eu ainda ia à minha terra. Agora que só pelo pensamento e pela escrita lá vou, não quero terminar as minhas crónicas sem lhe deixar esta Homenagem.

24/11/2021


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