Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria

A par da agilidade de pensar em diferentes línguas, um intérprete desenvolve uma excelente memória de curto prazo: traduzir ideias e não palavras, na pressão da simultaneidade. O cérebro precisa então de criar espaço para esse desafio constante, tem de “esvaziar gavetas”. Membro da AIIC International Association of Conference Interpreters e com um currículo notabilíssimo – que inclui tanto as mais altas instâncias do Estado italiano e da Diplomacia, quanto do mundo da cultura, das artes e das comunicações – não é de estranhar que as lembranças mais antigas de Maria Cândida Alves da Costa sejam fragmentárias, se situem essencialmente em redor de sentimentos e de sensações, mais que de nomes ou datas, e delas aflorem raras personalidades que a marcaram definitivamente.
Entre elas, a figura mítica do avô Venâncio, um Vulcano dominador do fogo e do metal, atividade que a fascinava de pequenina, quando o ia ver trabalhar na forja. Do pai do seu pai, filho de um professor primário e casado com a filha de uma família tradicional de Paços de Ferreira, lembra o terror geral que causava: o ar severo, os cabelos brancos, as escassas palavras para os demais – mas não para esta neta, que se sentava ao seu colo, depois da leitura do jornal, e a quem ele contava da sua adolescência aventurosa no Brasil, da sua participação na Grande Guerra, do seu republicanismo que causou escândalo em Gandra (Paredes). Dele conserva Cândida uma antiga edição de bolso d’Os Lusíadas, que o acompanhara nas viagens e que, à força do uso, foi perdendo páginas – substituídas pelas transcrições manuscritas dessas passagens.
Da mesma casa, outra figura marcante, a quem deve o seu primeiro contacto com a Itália, era a querida tia Isaura, que vivia em Trieste, para onde fora trabalhar como nanny da filha da Vice-Cônsul do Brasil e aí ficara como membro da família. Muito alegre e generosa, amante das coisas boas da vida – as viagens, a ópera, os belos anéis que trouxe do Brasil e que Cândida hoje usa – desafiou a sobrinha a vir ter com ela; e foi assim que, com apenas 13 anos, atravessou sozinha a Europa e andou com a tia a percorrer o país, aprendendo o dialeto triestino antes mesmo que a língua italiana.
Cândida teve uma infância feliz, numa família unida que incluía a irmã, Fernanda – 4 anos, 4 meses e 4 dias mais nova que ela – e os pais, severos na educação, mas bondosos e de espírito largo, que lhe permitiam ler tudo. E se ela leu! Tinha uma saúde frágil; para sua tristeza, o Dr. Barata (de quem nunca esquecerá o lema «mais vale um burro vivo que um sábio morto») não a deixava ir à escola durante longos períodos; entretinha-se então a ler e a escrever – e tão bem que ganhou aos 13 anos um concurso, tendo como prémio o In Illo Tempore, as memórias de Trindade Coelho publicadas em 1902 (o que diz bem do anacronismo da Escola portuguesa desses tempos).
De resto, entre as 25 reguadas de palmatória que recebeu injustamente, por não ter querido punir ela mesma as colegas que não tinham estudado a lição, os moralismos («a altura da saia é justa se roça o chão quando ajoelhada») e outras deformações fascizantes, não guarda grandes memórias da Escola. Mais que no aprumo da cidade, ela sentia-se feliz era no campo, a irromper pelas casas dos camponeses, livre de apanhar cerejas e uvas das árvores, a beber o leite de vaca acabadinho de mungir – o que, aliás, lhe valeu uma tuberculose…
Se bem que gostasse de Ciências e até fizesse parte de um Clube de Biologia (tinha um fraquinho por Jacques Cousteau), adorara o Inglês, desde que tivera orgulhosamente de recuperar uma má nota, depois de uma operação às amígdalas e de um mês de ausência. Direito e Psicologia ficaram pelo caminho, decidiu cursar Filologia Germânica na Faculdade de Letras do Porto… Era o início do ano académico 1973/74, tendo vivido com grande emoção a Revolução de Abril e esse sentimento geral de alegria e de liberdade que se respirava pela primeira vez. Empenhou-se na vida académica como voluntária na associação de apoio aos trabalhadores-estudantes e fez os outros quatro anos do curso num clima de maior abertura, de que recorda as aulas de Literatura Americana e Literatura do Trabalho, a Literatura Comparada lecionada por Margarida Losa e o Italiano que estudou com Giuseppe Mea.
Dez dias depois de terminada a licenciatura, parte sozinha para África, com a inconsciência e o entusiasmo dos seus 22 anos e uma ideia vaguíssima do que iria fazer (falavam-lhe de projetos de engenharia, de Cahora Bassa). Quando, num dia escuro e chuvoso de julho de 1978, o motorista Choba-Choba (“empurra-empurra”) a transportou do Hotel Cardoso ao Ministério de Relações Exteriores, foi catapultada para o seu destino de intérprete, de tradutora e de professora de língua portuguesa – atividade que ainda hoje desenvolve na Universidade de Viterbo. Com a ajuda de um casal velhote de alemães, que durante três meses a nutriu a bolinhos e Kartoffelsalat, aprendeu as matérias que viria a interpretar nos cursos para os futuros diplomatas: Política Internacional, Economia Política, Materialismo Dialético, Protocolo, Direito do Mar… Esses três meses iniciais passaram a três anos e meio, trocando os shorts e os jeans pelos vestidos e as “sandálias das receções”, enviados de Portugal pela mãe, trabalhando para o Ministério liderado então por Joaquim Chissano.
África revelar-se-á uma paixão. Foi ali que, numa noite de neura em que não queria sair (número mágico: 29.09.1979) acabou por conhecer, num jantar e passeio pela praia da Costa do Sol, o amor e companheiro da sua vida, o biólogo Roberto Valdenassi; viera como voluntário do Movimento Liberazione e Sviluppo para trabalhar no Laboratório Nacional de Higiene de Águas e Alimentos e também ele, nessa noite, só saíra por grande insistência de um amigo. Casados em Roma em 1983, regressam ao continente com a filha recém-nascida, Helena, desta vez para São Tomé e Príncipe. Seguir-se-ão seis meses na Somália, onde colabora como voluntária com a Associazione Italiana Donne per lo Sviluppo na “I Conferência Internacional sobre a Infibulação Feminina”, antes do nascimento do filho Miguel. Depois tornará ainda com várias missões da Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas – Tanzânia, Quénia, Sudão, Congo…
Certa vez, trabalhando na Organização Internacional para as Migrações como intérprete, pediram-lhe que interviesse, sendo mulher e migrante, nesse convénio que abordava a questão, através de temas do imaginário coletivo: «Se fosse a personagem de uma fábula, quem seria?» A resposta surgiu espontânea: a Pequena Sereia – porque se a curiosidade ou o amor nos levam a desejar viver num mundo diferente do nosso, temos de perder algo de nós, para conquistarmos coisas novas. Se tivesse ficado em Portugal, não teria vivido no deserto ou no Equador, não teria explorado outras cidades, não teria conhecido tantas pessoas interessantes, nem estudado tantas matérias, não teria tocado, cheirado, sentido ela mesma um pouco desse mundo fascinante, com que sonhava desde os contos do avô Venâncio…
24/11/2021

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