Entrevista a Ekaterina Malginova
Escritora

“A meu ver, a missão da cultura e da sua promoção e com ela, a promoção turística e tudo o que lhe está ligado é um dever de todos aqueles que gostam do local onde vivem e dos que querem vê-lo desenvolvido, dinâmico, visitado. Independentemente de terem nascido aqui ou não. Eu considero-me uma dessas pessoas. Eu sou daqui! Eu gosto de viver aqui!”
Olá! Estarei convosco para responder a mais um desafio. Espero não vos desiludir.
A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
• Paula Jorge
Ficha Biográfica
Nome: Ekaterina Malginova
Idade: 30
Profissão: (neste momento desempregada)
Livro preferido: Podem ser dois? Pais e Filhos de Ivan Turgienev e O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde.
Destino de sonho: Japão
Personalidade que admira: Nenhuma em especial. Admiro pessoas de/com valor(es) e de coragem.
Muito obrigada, Ekaterina Malginova, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?
Ekaterina Malginova (EM) – Obrigada eu! Vim para Portugal em 2001. Com nove anos fui para a quarta classe, em Serrazes, na Escola Primária. Depois, EBI de Santa Cruz da Trapa, Escola Secundária de São Pedro do Sul (nestas três instituições tive a sorte de encontrar professoras e professores com os quais mantenho uma ótima relação até aos dias de hoje e, que me ensinaram (para além do português) vários princípios que trago comigo até hoje. Em Coimbra, licenciei-me em Estudos Europeus, na Faculdade de Letras, e durante esse percurso fiz Erasmus na belíssima cidade de Maastricht (Países Baixos), onde foi instituída a União Europeia. Regressei à cidade da capa e batina e tirei o mestrado com especialização em Política Regional. Durante esses cinco anos fiz parte do Senado da Universidade de Coimbra, da Secção dos Direitos Humanos e outros grupos e associações universitárias que também proporcionam o convívio e novas amizades naquela cidade.

O percurso profissional “a sério”, digo “a sério” porque durante o percurso académico trabalhei “em” voluntariado e “em” estágio. Então… começou em Arouca, na ADRIMAG (Associação de Desenvolvimento Rural Integrado das Serras do Montemuro, Arada e Gralheira). Adorei trabalhar lá! Adorei fazer parte da equipa das Montanhas Mágicas (marca turística e territorial, da qual São Pedro do Sul também faz parte) e, sobretudo, de promover para além do território, o saber das gentes, a cultura, o património edificado e gastronómico, isso é que me dava um regozijo enorme. Apenas a deslocação fez com que optasse por outras opções mais perto de casa. Todos os dias atravessava a Arada (Landeira, Coelheira, Candal) … a Freita e depois lá chegava à terra das castanhas doces! A paisagem do percurso? Fantástica! Uma vista inigualável só para mim. As vacas arouquesas a darem-me licença para passar de carro. As gentes… os mesmos rostos, as mesmas tarefas todos os dias, nas terras. E o pôr do sol? Mágico!
Depois disso, em São Pedro do Sul, trabalhei num projeto de internacionalização do destino e dos serviços turísticos, que me proporcionou o contacto com muitas pessoas novas e deu a possibilidade de explorar destinos novos também. Aprendi muito e quero acreditar que deixei boas marcas.
Neste momento, estou à procura de novos desafios profissionais.

PJ – Fale-nos um pouco da sua missão ao nível da cultura no concelho de São Pedro do Sul.
EM – A meu ver, a missão da cultura e da sua promoção e com ela, a promoção turística e tudo o que lhe está ligado é um dever de todos aqueles que gostam do local onde vivem e dos que querem vê-lo desenvolvido, dinâmico, visitado. Independentemente de terem nascido aqui ou não. Eu considero-me uma dessas pessoas. Eu sou daqui! Eu gosto de viver aqui! Para todo lado que vou, com orgulho, falo de São Pedro do Sul, do que temos, quem somos, o que é possível fazer enquanto se está cá… também converso sobre o que nos falta para sermos ainda melhores, comparo. Se nós não gostarmos do que é nosso como é que podemos promover e “vender” o nosso concelho, a nossa região? Penso que a missão começa aqui, sendo uma missão individual.
PJ – A Ekaterina tem já uma obra feita. Como começou esta paixão pela escrita?
EM – A paixão pela literatura começou primeiro, com a minha avó paterna. Ela passava muito tempo comigo e incentivava-me a ler. Em pequena, decorava poemas inteiros e histórias… e nas festas da escola ou convívios entre família recitava. Eu e os meus colegas e amigos, era muito comum. É um estímulo excelente para a memória e para o cérebro. A paixão pela escrita surgiu quando já estava em Portugal. Comecei a escrever inspirada pelas aulas de língua portuguesa e de Literatura portuguesa. Tive professoras inspiradoras!
PJ – Pode falar-nos do seu percurso ao nível da escrita, enunciando os seus livros?
EM – Publiquei em 2010, Espelhos de Alma e Pé de meia memória, em 2015. Os dois livros são de poesia. Colaborei na obra do Professor António Ferreira Gomes, A Grande Guerra: O legado de São Pedro do Sul, 2016, com a escrita do prefácio, colaboração que me orgulha imenso, não só pelo facto do autor ter sido meu professor, mas também pelo tema do livro. Participei também, numa das edições da Antologia de Poesia Contemporânea Entre o Sono e o Sonho, da Chiado Books, em 2015.
PJ – Quais os temas que mais gosta de abordar quando escreve e quais os géneros literários que mais gosta de escrever?
EM – A relação entre as pessoas, o amor, a amizade, as saudades; interrogações sobre o estado das coisas, a vida do dia-a-dia. Até agora tem prevalecido a poesia, mas estou a começar a escrever em prosa.

PJ – Gosta de ler? Considera importante ler para se escrever bem?
EM – Gosto! Quando um livro me prende a atenção, gosto! Quando assim não é, deixo-o para voltar a pegar nele mais tarde. Gostaria de ter mais tempo para ler (mas penso que todos que gostam de ler acabam por responder o mesmo). Considero muito importante ler para se escrever bem e também para se falar bem. Ler não só aumenta a nossa imaginação como aumenta o vocabulário.
PJ – Quer falar-nos de algum outro projeto, ao nível de escrita ou de outra área, que esteja para ver a luz do dia?
EM – Este é um período de transição para mim. Fui mãe durante o período da pandemia e a maternidade é por si, um enorme projeto! Não estou a trabalhar neste momento e, por isso, tenho tido mais tempo para pensar em alguns projetos, mas nenhum deles que ainda deva ser partilhado. Talvez apenas o de que estou a escrever para crianças, algo que sempre quis! Espero ter mais novidades em breve!
PJ – Acredita que a sociedade dá a devida importância ao setor da cultura?
EM – É uma boa questão. É um assunto que traz consigo outras interrogações: As pessoas usufruem da cultura? É preciso mais investimento na cultura? A cultura é igualmente acessível para todos? Quem é o responsável pela inexistência ou falta de apoios, patrocínios, instalações para a cultura? É o Estado? Vem-me à ideia, a propósito disto… Na antiga URSS, durante o regime que de mau teve muito, investiu-se na cultura e na educação de uma forma extraordinária. Na minha família, a minha bisavó sabia ler e escrever, a minha avó acabou os estudos no Instituto Superior, os meus pais na Universidade… isto diz muito de uma sociedade, não é verdade? No que se investisse agora, colhe-se mais tarde e na cultura não é diferente! Mas do ponto de vista mais local… A sociedade são as pessoas não é verdade!? A meu ver, o dar ou não importância ao sector da cultura faz parte da educação das pessoas e por sua vez da sociedade. O que é a cultura? Nas nossas casas damos importância à cultura? e nas nossas escolas, damos importância à cultura? Acredito que depende muito, neste último exemplo, dos professores e técnicos (da sua criatividade) que acompanham as nossas crianças, que têm ou não espírito de iniciativa, mas também dos próprios programas da DGS e dos financiamentos existentes. Começa aí. O acesso à cultura (aqui abraço os espetáculos de teatro, de música, exposições, feiras do livro e outros tipos de atividades culturais de entretenimento e de aprendizagem) é igual para todos? Não! Mas há coisas que podem ser feitas a nível local (algumas já têm vindo a ser feitas) para que de certa forma essa falta ou escassez de acesso por parte da população seja preenchida. Investir na cultura local, nos artistas locais, descentralizar a própria cultura. Escola de Artes e de Música (medida a ser implementada no nosso município), a Bibliomóvel, que é também um meio de cultura. São alguns dos caminhos (a meu ver). Este é, sem dúvida, um tema interessante e desafiante na política local. Já para não falar no sector do turismo, no qual a cultura tem um papel não menos importante que a gastronomia e os serviços. A cultura faz parte de tudo. Devia fazer.
PJ – Para além da escrita, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?
EM – O contacto com a natureza, o estar com os meus amigos e a minha família. Viajar! Passear! Jardinar! Temas como a bioética, direitos humanos, política local.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
EM– Transparente.
PM – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
EM – Obrigada! Até um dia destes por aí…
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Ekaterina Malginova! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
EM – Leiam, escrevam, valorizem o território onde vivem, a sua cultura, o seu património! E não querendo apressar o tempo das coisas, mas já que tenho a oportunidade, desejo uma ótima quadra natalícia para todos e todas!
25/11/2021

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