EDITORIAL 816
Cem anos…
A Casa de Castro Daire em Lisboa homenageou as pessoas mais idosas de cada uma das freguesias do concelho, algumas com cerca de 100 anos de vida. Foram publicadas na página do Facebook daquela Casa as suas fotos, tendo o mais novo 91 anos e o mais idoso 103 anos.
A Gazeta da Beira associa-se a esta iniciativa nas suas páginas e quer assinalar outros dois centenários que dizem respeito a todos nós e que nos ajudam a entendermo-nos como comunidade, desde as freguesias rurais de Lafões atá ao todo nacional: o início das comemorações dos 100 anos do escritor José Saramago, prémio Nobel da Literatura, e o centenário da revista Seara Nova.
A abertura das comemorações do Centenário José Saramago (1922 – 2022) – que decorrerão ao longo dos próximos 365 dias – arrancou com o lançamento do “Manifesto pela Leitura”, da escritora Irene Vallejo, que começa assim: “Era uma vez uma mulher sozinha num território perigoso. Pequena e magra, todas as noites devia enfrentar uma temível ameaça. Mas, nas histórias, os mais pequenos, os fracos, os frágeis, possuem sempre um talismã salvador. Ela conhecia um sortilégio infalível: era capaz de erguer à sua volta um muro de ar para se defender. Os silhares dessa muralha invisível eram as palavras”.
Tudo isto é Saramago. A leitura como condição da escrita, a referência aos mais frágeis, às suas lutas contra as adversidades, a reflexão que abre caminhos, a mulher, a palavra que nos torna mais fortes… a insubmissão. Excelente arranque do Centenário de Saramago. Esperamos que seja o ponto de partida para que a desassombrada palavra de Saramago seja celebrada nos múltiplos sítios de Lafões, das escolas às bibliotecas, das associações teatrais às musicais, em cada local possível dos nossos quotidianos.
A ideia de uma revista de doutrina e crítica surgiu em Portugal há 100 anos numa reunião na Biblioteca Nacional, então dirigida por Jaime Cortesão, que, por inspiração de dois intelectuais da época, Aquilino Ribeiro e Câmara Reis, acabaria por surgir com o nome de Seara Nova, a 15 de outubro de 1921.
Logo no seu primeiro número, em pleno período conturbado da primeira República, a revista tornava claro ao que vinha: “Renovar a mentalidade da elite portuguesa pondo-a em contacto com as realidades do presente e dando-lhe a consciência nítida das necessidades nacionais. Criar uma falange intelectual que ponha com clareza os verdadeiros problemas a resolver, preconize as soluções mais nacionais e mais práticas e se se oponha ao espírito do egoísmo, do desinteresse social e de rapina que caracteriza as elites dominantes.”
Como refere a historiadora Helena Neves, a Seara Nova como quinzenário num tempo já de fragilidade política do governo republicano até à atualidade, o percurso acidentado em que, por vezes, se confrontam correntes ideológicas diversas, mas de comum matriz democrática, a Seara compromete-se a uma constante ação crítica, compromisso constante ainda que agudamente molestado pela censura que o fascismo instala.
Este centenário é “a celebração de um passado que se não encerra e antes, pelo contrário, urge abrir para o futuro. Futuro de mais Seara e mais Nova. A Seara será, é, essencial na história da História.”
25/11/2021

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