Gente e Coisas da minha Terra por Nazaré Oliveira

Um Baile de Carnaval nas Termas de São Pedro do Sul em 1959

Até mim chegou um exemplar do anúncio-convite que integra esta crónica. Fora então enviado ao meu amigo de juventude Orlando Carvalhas. Este exemplar do convite foi-me agora enviado por sua filha Ângela Carvalhas de quem guardo recordação, porque frequentou as minhas aulas de Filosofia, nos finais dos anos sessenta. Eu também recebi igual convite, mas não o guardei. Estava então no fulgor dos meus 30 anos e também fui a esse baile. Havia casado três anos antes e lá fui com a minha mulher e a professora Lídia Santos que então leccionava no Colégio de Santo Agostinho, que eu estava a dirigir.

Como pode ver-se pelo convite, a comissão promotora era constituída por oito casais da elite sampedrense: Dr. Sales Loureiro, Presidente da Câmara, e esposa D. Margarida; Dr. Teixeira Pascoal, conceituado cirurgião/D.Mª Lurdes; Dr. Abílio Tavares, conceituado advogado/D. Maria Elisa; Fradique Carvalhas/D. Maria Rita; Dr.Jaime Gralheiro, jovem advogado/D. Margarida; Amadeu Carvalho Homem, Secretário da Câmara/D. Cidalina, professora do Colégio; Manuel de Sá Quintela/D. Maria Ernanda; e Gastão Carvalhas/D. Olímpia, professora.

O Hotel Lisboa era uma das boas unidades hoteleiras das Termas de São Pedro do Sul. Os seus proprietárias e gerentes, José Melo e Esposa, estavam sempre abertos a manifestações culturais e recreativas, nomeadamente à juventude lafonense, que ali acorria frequentemente aos jantares à americana animados por baile.

Mas este BAILE DE CARNAVAL DE 1959 revestia-se de características próprias: desde logo, o facto de ser uma época festiva. E a festa, desde tempos imemoriais, tem sido sempre uma dimensão importante da vida humana. Todo o homem tem os seus narcóticos. E o Carnaval, até pela sua curta duração, é dos mais salutares. Por outro lado, pelo facto de ter sido promovido por uma elite sampedrense, lá estava gente da vida social lafonense (São Pedro do Sul, Vouzela, Oliveira de Frades) e até de Viseu. Para além de todos os casais da Comissão de Honra, lá estava o Dr. Marques Teixeira, então Governador Civil, com sua esposa D. Eduarda, o Dr. Pinho Bandeira e a D. Maria da Conceição. E tantos outros. Os convites e até os preços, que não eram baratos para a época, (30$00 de entrada mais 30$00 de marcação de mesa) seleccionaram a assistência. Era um baile chique! Mas havia muita gente. A parte musical estava a cargo de duas orquestras: uma de fora e outra local, constituída por jovens da terra e designada no programa por Conjunto Académico de São Pedro do Sul mas depois haveria de firmar-se com o nome ORQUESTRA ABRIL EM PORTUGAL. Era constituída por: José Borges (acordeão), Dionísio Vila Maior (piano e voz) , António Viriato (viola), Américo Silva (saxofone), Martins da Adega (bateria), António Carvalhais (matracas) e Licínio Oliveira, meu saudoso irmão, no contrabaixo.

Muita gente, boa música, bom serviço de bar, como era próprio do Hotel Lisboa.

O baile foi aberto pelo Governador Civil e os casais da Comissão Promotora, ao som do tango em voga Adiós Pampa Mia, ao gosto dos mais velhos. A pompa e formalismo iniciais, ao som de novos ritmos musicais, rapidamente deram lugar à descontracção carnavalesca.

Quanto a mim e a minha mulher, aproveitámos bem e embalámos na dança. Era o nosso primeiro baile após o casamento, que tinha pouco mais de dois anos: era uma espécie de rescaldo nupcial. Mas não me limitei a dançar. Como gosto de observar os ambientes e as pessoas, ia lançando o olho e fazendo a radiografia do baile. Havia gente de variadas idades. Comecemos pelo sector feminino. Havia senhoras já entradotas com os seios a suspirar pelo passado; jovens adolescentes com os seios a suspirar pelo futuro; e mulheres na pujança da vida cujos seios não precisavam de suspirar por nada, porque haveria quem por eles suspirasse. Daquele baile de 1959 guardo recordações de que deixo alguns retalhos. No amplo salão de baile, rodopiavam os pares dançantes e, entre eles, reluzia a cabeça brilhante do Dr. Silvestre, completamente escanhoada, à Yul Brynner; dançava com a professora Lídia, a quem andava a fazer a corte, como observei na mesa que ambos partilhavam comigo e minha mulher. Com a minha liberdade de amigo, costumava eu dizer ao Dr. Silvestre que a sua cabeça devia ser a mais brilhante de Portugal. Mas é justo que eu aqui diga que a cabeça do Dr. Silvestre não era só brilhante por fora; era-o também por dentro, dadas a sua inteligência e cultura.

Numa mesa ao lado da minha, um casal de pesos pesados, enfarpelados com mau gosto. Não dançavam. Limitavam-se a ver, ouvir e aplacar os ídolos do ventre. Ela, gorda e mamuda, embutida em jóias. Ele, barriga de prosperidade burguesa que lhe fazia abrir as pernas, entalado num fato a que não estaria muito habituado, os gorgomilos entupidos pelos colarinhos e pela gravata; devia estar mais habituado à manga de alpaca no manuseio dos livros de “deve-haver”. Tinham todo o aspecto de novos-ricos. Deviam ser hóspedes do Hotel que estavam em tratamento termal.

Não havia mesas vazias. De um modo geral, eram ocupadas por gente mais velha cujo fôlego já não dava para grandes danças. As orquestras revezavam-se mas a preferência ia para o conjunto da terra, por razões óbvias e até porque tocavam música mais apelativa para a gente mais nova.

O baile foi-se prolongando pela noite dentro. Os mais velhos iam-se ficando pelas mesas, onde os homens bebiam umas taças de espumante e as mulheres eram mirones atentas. Os mais foliões não perdiam uma e continuavam no rodopio dançante, sob o olho crítico e a língua afiada de respeitáveis mães de família. Ninguém arredou pé.

Mas tudo tem um fim. Anunciada a última música, tocada pelas duas orquestras, todos os que ainda tinham fôlego saltaram para a pista de dança. E aquele Carnaval de 1959 nas Termas de São Pedro do Sul acabou em festa.

Ao escrever esta crónica, algumas vezes me emocionei. Sessenta e dois anos vão passados. É muito tempo. Se alguém que lá esteve conseguiu — como eu — fintar o tempo e ler esta crónica, há-de certamente sentir saudades. Eu recordo com muita emoção toda esta gente da minha terra, alguns dos quais foram meus amigos íntimos, como os irmãos Carvalhas, meus companheiros de infância, o Dr. Silvestre, a professora Lídia Santos, que viu nascer a minha primeira filha, e, de forma especial, o meu Irmão Licínio e Minha Mulher.

11/11/2021


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