Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

A conversa com a pintora Isabel Ramos começa num fim de tarde, com a luz rasante do Tejo coada pelo arvoredo do largo fronteiro, nesse amplo atelier que é, ele mesmo, um espaço de memórias. Era este o lugar de trabalho de seu pai, o arquiteto Carlos Manuel Oliveira Ramos (1922-2012), recordado, sobretudo, por ter desenhado o magnífico edifício da indústria de lapidação de diamantes DIALAP (atual sede da RTP), o Estádio do Restelo – ele mesmo aberto ao Tejo que lhe está em frente, exemplo da de uma extraordinária consciência de inserção na paisagem – e por ter recebido em 1958 o importante Prémio Valmor pelo traço do Edifício do Laboratório Pasteur nos Olivais.

O claro sorriso da artista ilumina-lhe o rosto ao recordar essa casa, frequentada pelo mundo das artes e das letras, onde nasceu e onde pontuava a figura tutelar do avô paterno, também ele arquiteto, urbanista e pedagogo – esse grande Carlos Chambers Ramos (1897-1969) que, emparceirado por Pardal Monteiro, Cottinelli Telmo, Cassiano Branco, Cristino da Silva e Jorge Segurado, escreveu a primeira página do modernismo arquitetónico em Portugal, tendo tido um papel fundamental na reforma que guindou a Superior o ensino das Belas-Artes, enquanto diretor da Escola do Porto.

Recorda, entre as experiências mais fascinantes da sua infância, aquela noite em que acompanhou o avô à misteriosa cave de um palácio na Rua do Alecrim, que se encontrava repleta de máscaras e artefactos africanos – provindos da recolha do antropólogo Jorge Dias (1907-1973) no Norte de Moçambique – e que estariam na base da histórica exposição “Vida e arte do povo maconde”, que teve lugar em 1959 no Palácio Foz. Conserva também, entre as experiências mais emocionantes, a de terem estado entre os 2100 convidados de André Malraux (então Ministro da Cultura) na Ópera Garnier de Paris, na noite de 23 de setembro de 1964, e, ao som dos compassos mozartiana Sinfonia “Júpiter”, ter visto o lustre central iluminar pela primeira vez a grande cúpula que Marc Chagall acabara de pintar aos 77 anos…

Mas tão incisivas como estas memórias, urbanas e sofisticadas, permeadas do encantamento da arte e da convivência com uma elite cultural, permanecem outras completamente despojadas de tudo o que não fosse alegria de vida rodeada pela natureza. As mais fortes situam-se na Quinta de Chocapalha (Aldeia Galega da Merceana – Alenquer) doada no início do séc. XIX por Constantino O`Neil a um seu antepassado por via materna, Diogo Duff, de origem escocesa; ali, sinestesias de sons e cheiros, mas sobretudo os pinheiros, os choupos, os eucaliptos gigantes e o colher dos marmelos, os troncos e os ramos – motivos de mágica recorrência, desde o apelido da pintora, ao que se avista da vidraça deste mesmo atelier –  formas e cores, materialidade transposta para a superfície, lutando contra a bidimensionalidade da tela, que regressam à sua pintura em fases sucessivas, ao sabor dos estímulos que lhe trazem diferentes circunstâncias. São cheias de sentido as palavras que lhe dedica Sílvia Chicó:

Muitas das suas imagens são colhidas em ambientes marítimos ou campestres, que a artista elege para com essas representações do real construir obras singulares ou séries. Mais do que uma atitude de apenas investigação profissional, sente-se claramente que o que iniciou o processo foi um momento de encantamento com a realidade paisagística, da qual a artista recolheu imagens, para com elas iniciar um percurso de elaboração de uma linguagem plástica própria. Por uma questão apenas taxinómica, poderemos inserir esta pintura na categoria do abstracionismo lírico.

Antes de entrar para a Faculdade, os seus testes psicotécnicos davam-lhe os mesmos 100% nas matemáticas e nas artes. Há, sem qualquer dúvida, uma geometria subjacente ao espaço e Isabel Ramos assume, no seu mester de artista, a missão de interpretar um Real que não pode ser imitado. Há tempos, num momento de fragilidade, partiu para uma casinha embrenhada na Mata Atlântica – esse longo trecho de floresta tropical que se estende pela costa brasileira – ficou curada em 10 dias; assim como as raízes se infiltram na terra e, como tirantes, se firmam na força do nutrimento, se energizam esplendorosas a caminho do alto (colunas arquitetónicas, verticais estéticas), também a artista, uma com a natureza, se reergueu. E são, por isso, fibras vegetais a falarem de troncos, pedriscos e areias, sinédoques de continentes, a vida que invade a sua pintura – “abstracionismo lírico”, justamente notou a grande crítica da arte, que acompanha a Artista desde o tempo em que eram colegas da Faculdade e faziam grupo com outras figuras afirmadas no panorama cultural português, como Julião Sarmento e Fernando Calhau.

Para além destas amizades para a vida, pouco mais recorda com verdadeira saudade dos tempos em que frequentou as Belas-Artes; entre elas, o marcante encontro com Mestre Lagoa Henriques e com aquele professor de Antropologia que, depois de muitos contratempos e arrelias de percurso, a convenceu a terminar a Licenciatura em Artes Plásticas. Curiosamente, 34 anos da sua vida profissional dedicou-os Isabel Ramos ao ensino, passando por várias escolas, marcando deixando-se marcar nesse contacto, por vezes inesperadamente enriquecedor, com os alunos. Uma vocação que experienciou na sala de aula, mas também colaborando com o então denominado Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), instituto parceiro do Ministério da Educação, como coautora e coordenadora de provas de exame da área artística e tecnológica, participando também no acompanhamento da reforma curricular e formação de professores na área metropolitana de Lisboa.

Desde que deixou o ensino, tem podido dedicar-se com maior liberdade à criação e exposição da sua pintura: duas individuais que lhe deram particular prazer foram Memórias, em agosto de 2014, no Museu do Arroz (Comporta) – em que «a disposição e montagem não só têm em conta o magnífico espaço museológico, como tiram partido da sua implantação e abertura ao exterior, estabelecendo uma dicotomia singular», disse, então, em entrevista –  e, entre janeiro e fevereiro de 2018, INSIGHTS na Sociedade Nacional de Belas Artes, em que veio a saber de uma secreta “consagração” por inconfidência da vigilante: um professor da casa pedira a chave da galeria, fora do horário de abertura, para lá se ir fechar tempos sem fim, em silêncio, a observar as obras.

A obra de Isabel Ramos é extensa e variada – das primeiras colaborações com o atelier do pai, fazendo desenho de interiores, à interessante experiência com o famoso designer norte-americano Gerald Gulotta, com quem fez uma viagem de estudo à Escandinávia e chegou a trabalhar na Fábrica da Vista Alegre. Criou também padrões para estamparia de tecidos e azulejos, um percurso variado em que o denominador comum é a largueza do gesto e o voo da alma. Despedi-me da artista nesse fim de tarde luminoso e, olhando o arvoredo do largo fronteiro, já tudo me parecia saído de uma tela de Isabel Ramos.

https://www.isabelpramos.com/

11/11/2021


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