Manuel Silva
Que mobilidade social?

Em editorial publicado no jornal “Semanário” no tempo do cavaquismo, o seu director, Vitor Cunha Rego, descrevia assim a sociedade portuguesa da época: há uma escadaria. No fundo da mesma começa a haver menos gente. À medida que se sobe a escadaria, esta alarga, aí cabendo mais gente. A partir do meio, a escadaria estreitece. No cimo da escadaria, há cada vez menos gente. O andar superior tem uma porta demasiado estreita, na qual poucos passam e, para o fazerem, há grandes encontrões.
Os poucos que tentam penetrar no andar superior são os grandes detentores do capital. Entre eles há encontrões, ou seja, vigarices, aldrabices, corrupção, facadas nas costas. O comportamento de alguns cavaquistas em que o leitor está a pensar demonstrou-o claramente. Veja-se o caso BPN!
Na actual corrida à liderança do PSD, um dos candidatos, Paulo Rangel, tem como mote de campanha a chamada mobilidade social. O PSD foi, desde o início da revolução do 25 de Abril, o partido dos self made men, mas a mobilidade tanto pode ter um sentido ascendente como descendente. No tempo de Sá Carneiro, o sentido foi essencialmente ascendente, o que aconteceu também no tempo de Cavaco Silva, apesar do senão acima mencionado.
Durante o governo troika-Passos-Portas, a mobilidade social ocorreu, essencialmente, no sentido descendente. As classes médias empobreceram, os pobres ficaram ainda mais pobres. O governo da época defendia o empobrecimento, o que também constitui mobilidade social. Quem, nesse tempo, era pelo empobrecimento, a favor do país de cima contra o país de baixo, está, agora, com Rangel. Os críticos dessa política estão com Rui Rio. Esta é uma das condições essenciais que separa as duas candidaturas.
Paulo Rangel deverá ainda dizer que a mobilidade social, partindo do princípio que a quer de baixo para cima, deverá ser feita com honestidade, humildade e competência e não aos encontrões.
Cavaco Silva falava no “país de sucesso”. Deveria ter acrescentado esta frase: “com honestidade, garantia de igualdade de oportunidades e concorrência regulada pelo Estado”. A social-democracia é mais que isto, mas também é isto, com uma especial atenção aos que não são capazes de subir na vida, que não podem ser transformados em “lixo humano”, como também escrevia Vitor Cunha Rego em outro editorial, no “Semanário”, a propósito do Natal, onde afirmava que Cristo, naquela época, “nasceria” num viaduto onde dormiam os sem-abrigo, num bairro de lata, onde estivesse um pobre. Na altura, Cunha Rego era um liberal, na política e na economia, e defensor das teses de Reagan e Thatcher!…
Todas estas questões deverão ser discutidas na corrida à liderança do Partido Social-Democrata para os militantes escolherem a melhor alternativa ao “socialismo” decrépito e esgotado deste PS e de António Costa.

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