Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Um orçamento partido

As afirmações que os vários partidos, à exeção do PS, têm feito sobre o Orçamento de Estado levam-me a pensar que vão votar contra.
Ao PS cabe defender a proposta de orçamento do governo e por isso não me interessa especialmente a sua posição.
O PSD embora queira governar o país tem uma dificuldade crónica em governar-se a si próprio pelo que a atual direção só pode votar contra.
As afirmações do PC e BE de que estão dispostos a votar contra derivam da sua dificuldade em conviverem com governos que tenham uma política de esquerda ou que pelo menos não sejam de direita.
Se o PC e o BE tiverem mais votos do que têm agora, antevejo que, nos discursos da próxima noite eleitoral, os seus líderes irão dizer que tiveram uma grande vitória, ainda que o PSD fique em condições de puder formar governo, se necessário, aliado a todos os partidos da direita incluindo o Chega.
Isso seria o paraíso para os dirigentes destes partidos, ainda que possa ser o inferno para os seus eleitores, pois no fundo ainda não abandonaram definitivamente a estratégia do quanto pior melhor.
Podem existir, mas parecem-me mínimas, hipóteses de que o governo a sair das próximas eleições venha a fazer, na perspectiva do PC ou do BE, um orçamento melhor.
Fazer cair o governo só poderá fazer sentido se os dirigentes do PC e do BE tiverem a certeza de que, nas eleições antecipadas, vão aumentar a sua votação o suficiente para terem uma tal capacidade negocial que lhes permita obrigar o PS a formar um governo de coligação, em que tenham um poder efectivo, o que não se afigura tarefa fácil.
Na Europa, quando não há maioria clara de um partido ou de uma coligação pré-eleitoral, a tendência tem sido a formação de grandes coligações entre os partidos do centro político, de que é exemplo recente a própria Alemanha. Na Bélgica o governo é uma coligação de pelo menos sete partidos.
Assim, esperamos que todos tenham a consciência de que se o PS ou PSD não tiverem uma maioria robusta a solução mais provável para formar um governo estável será o recurso a uma grande coligação entre estes dois partidos, o que certamente implicaria longas negociações.
Precavendo-se para o futuro, convém que os dirigentes do PS e do PSD não façam declarações demasiado entusiasmadas contra uma coligação entre os seus partidos e não se insultem ao ponto de não conseguirem dialogar.
Embora a tradição, em Portugal, seja formar governos em poucos dias, em vários países europeus é comum precisarem de 6 meses de negociações para formar um governo, pelo que havendo eleições antecipadas existe a possibilidade de, no primeiro semestre do próximo ano, não termos orçamento nem governo em plenitude de funções.
Assim, talvez possa ser considerada a possibilidade de ser preferível termos um governo sem orçamento, do que não ter governo nem orçamento.
28/10/2021

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