Fernando Luís
Estórias da Nossa História - Crenças e Superstições (III)
O ZÉ GRILO
José era o seu nome de Baptismo. Naquele tempo, não era na conservatória que registavam os nascimentos. O padre da freguesia encarregava-se de acrescentar nos livros o novo cristão e consequentemente um novo cidadão. Para além do primeiro nome não lhe ficaram conhecidos sobrenomes. Talvez por ter nascido na serra, longe do lugar, onde as casas de lavoura marcavam as famílias mais abastadas, adquiriu a alcunha de Grilo.

Os pais nasceram e viviam na serra, à lonjura de uma hora de caminho. Aí continuavam a amanhar um pouco de terra e, pelos montes, apascentavam um rebanho de gado miúdo.
Encostado a um penedo tinham o seu abrigo a que, naquela altura e muito menos hoje, podemos classificar como casa. Aí se acoitavam da chuva e do frio, no inverno, e se resguardavam do calor, no verão.
Assim, entre giestas, sargaços e urzes e à sombra dos carvalhos e alguns pinheiros e sobreiros criaram um rancho de filhos – um ao peito, outro na barriga – e engordaram cabras e ovelhas que lhes davam o leite e a carne e ainda lã para se cobriram a par do linho criado e macerado no riacho.
Voltemos ao Zé grilo. Ora, o pequeno tinha também queda para a música. De qualquer pedaço de cana fazia uma flauta e então, saltando de monte em monte, parecia um rouxinol que, entre Março e Maio, alegrava a Primavera que sempre lhe trazia a erva tenra para regalo das ovelhas. Ou que fosse pela arte musical ou porque o refúgio onde pernoitava se estendia por baixo do penedo, como a toca do teixugo que em Agosto visitava os milheirais do povoado, a alcunha de grilo acompanhou-o para sempre.
Acontece que o pequeno Zé, à semelhança do que aconteceu com os irmãos e irmãs, quando atingiu a idade de ir servir, como criado, desceu da serra para o povoado. Ainda descalço, disse adeus às cabras e não deixou de juntar as suas lágrimas às da mãe quando esta lhe entregou, um farnel e o pequeno e fraco enxoval. Apertado num lenço, amarrado em quatro pontas, enfiou a trouxa no cajado e lá foi encosta abaixo.
Se tivesse sorte, na aldeia, encontraria nova família que lhe desse cama, mesa e roupa lavada. Nesta esperança ficou o coração da mãe e a certeza do pai que sabia ir mandar o seu Zé para uma casa farta e de boas famílias.
Em Covas, o moço fez-se homem e, a seu tempo, casou com uma rapariga bonita e desempenada que tinha vindo de mais longe, lá dos lados de Moura Morta, de Castro Daire.
Se o Zé, de vez em quando, ia até à serra matar saudades da mãe e dos irmãos, a sua Maria só contava com a visita dos pais de ano a ano, pelo S. Miguel, quando vinham por mor da filha mas principalmente para levar o saco cheio de alguma fruta e outros mimos que o rigor do inverno não deixava vingar no Montemuro.
Passou a viver na casa do caseiro, em que a cozinha, de lareira funda, servia também de sala de estar, lugar de serões onde as mulheres fiavam a lã e o linho. Sempre no respeito pelo senhor, dono da maioria das terras, à custa de muito trabalho, o Zé Grilo deixou de ser pobre e passou a remediado.
Para além da labuta, de sol a sol, as horas de folga contava-as, ao domingo à tarde, numa passagem breve pela venda, na ida à missa, na celebração dos santos e nas romarias de verão onde voltava a alegria da música agora no realejo ou gaita de beiços como também era conhecida.
A flauta reservava-a para animar as vozes da juventude que, em grupo, ia, ano a não, de casa em casa, cantar as Janeiras ou tirar os Reis.
E é nesta obediência pelos costumes, respeitando o que aprendeu nas duas dimensões, a natural e a sobrenatural, que se vou escrever, no próximo mês, uma das estórias do amigo Zé Grilo.
Nota: Neste texto, o autor optou por não seguir as regras do novo acordo ortográfico.
28/10/2021

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