Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
© Ricardo Castro
Lisboa, temos a sensação que a de Célia Nunes Pereira tem sido uma vitória conquistada dia a dia, sob o signo dessa lição que recebeu do seu avô materno, Francisco Martins Nunes (a quem sempre tratou só por Chico): não há limites, nem impossibilidades, para quem tem a coragem de tentar. De certo modo, isso liga-se também ao lugar onde estamos e à profissão que abraçou há anos – o de Conservadora do Museu Arqueológico do Carmo, fundado em 1864, entre as pedras mandadas erguer pelo Condestável D. Nuno Álvares Pereira em 1389, para hospedar os Carmelitas da Antiga Observância. Todos os dias, desde 2 de maio de 2006, transpõe o portal gótico e chega a um lugar onde se sente muito feliz. E é felicidade o que transmite àquilo que faz, de forma natural e harmoniosa.
Foi com os avós que começou, de muito pequena, a viajar por Portugal, sobretudo pelo norte do país. Inesquecível permanece o impacto desse primeiro encontro com o Barroco triunfante da Igreja de São Francisco, no Porto. O Chico efabulava e a menina ouvia, ia perdendo medo às terríficas imagens dos Senhores dos Passos e dos mártires, ia sentindo uma paixão a nascer por esse excesso de formas e cores. As economias do mealheiro iam então todas para a coleção da National Geographic até que, no 7º ano, surgiu enfim a grande oportunidade: reevocar a morte de Cleópatra na disciplina de História – encenação aventurosa e com alguns desastres pelo meio, que a uniria por toda a vida a Cláudia, Vera e Susana, que com ela partilharam o trabalho e a nota máxima. A confirmação havia de chegar três anos mais tarde, ao frequentar as aulas do Professor Telo Canhão, temido pela sua renomada severidade, mas que identificou em Célia, imediatamente, a vocação para a história.
Terminado o Liceu, porém, a vida apresentava circunstâncias que quase a fizeram desistir de prosseguir os estudos naquela altura e ficou a dever à insistência da Escapita (Ana Paula Escapa) a inscrição na Faculdade de Letras de Lisboa, de cujos impressos fora portadora a própria amiga. Todas as dúvidas se dissiparam imediatamente no encontro que fez, logo nesse primeiro ano, com o Professor Vítor Serrão, em quem reconheceu outra pessoa admirável, para quem não havia impossíveis; alguém que acreditou nas suas capacidades e a apoiou desde o início – quando desejou estudar duas pinturas de Pierre-Antoine Quillard (1700-1733), pertencentes a Teresa Schönborn-Wiesentheid, e a sua timidez a ia levando a deitar por terra o projeto. Com o apoio do Professor, encontrou a Condessa na Quinta da Piedade, em Sintra, e o brilhantismo desse seu primeiro trabalho consagrou-lhe a estreia como Historiadora da Arte.
Pouco tempo depois da conclusão da Licenciatura, concorreu e foi chamada pela Câmara de Loures, para o projeto-piloto o “SOS Igreja Segura”, que se tratava de um grande desafio, dado que incluía o inventário global da Matriz de Santa Maria e viria a servir de modelo para o estudo de outros monumentos. Das fichas às fotografias e ao levantamento documental, tudo lhe foi confiado com total autonomia por Ana Paula Assunção, outra figura de referência que a continua a acompanhar. Terminado este trabalho, no início de 2006, iniciou aquilo a que chama, com espírito, o seu “namoro” com o Carmo – uma série de trabalhos sucessivos que incluíram a inventariação do acervo do museu, estudos de conservação preventiva do edifício e segurança das coleções.
Do “namoro” ao “casamento”, o “noivado” havia de iniciar quase imediatamente, entre 2007 e 2010, com o Mestrado que dedicou à investigação do Convento carmelita desde a sua fundação até ao grande terramoto de Lisboa em 1755, que lhe conferiu a silhueta que conhecemos e que o tornou num ex-libris da cidade. Esse estudo foi em parte baseado na análise do manuscrito iluminado de 1725, onde Frei Manuel de Sá registou, detalhada e amoravelmente, tudo o que presenciou nessa passagem pelo Carmo. Foi por concessão de Maria Inês Cordeiro, Diretora-geral da Biblioteca Nacional de Portugal, proprietária do documento, que foi possível incluir o seu fac-simile e transcrição integrais no II volume de A Igreja e o Convento de Santa Maria do Carmo de Lisboa (1389-1755), título com o qual a tese de Célia Nunes viria a ser publicada pela Associação dos Arqueólogos Portugueses em 2016.
Entretanto, a saúde queria trocar-lhe as voltas, e uma feroz reação alérgica à cura da tuberculose, que lhe foi diagnosticada no início de 2014, obrigou-a a convalescer durante todo esse ano. Decidiu que iria escalar as centenas de lamelas dos remédios ingeridos com um par de vertiginosos saltos vermelhos, que permaneciam por estrear. Assim, o que era vitória sobre a morte, tornou-se projeto artístico: primeiro com a colaboração do fotógrafo Filipe Romão, que a imortalizou nesse ato simbólico; depois, estimulada pelo entusiasmo do artista e companheiro Ricardo Castro, descrevendo esse processo no livro Oh Glória, publicado em primorosa edição do atelier O Homem do Saco. Daí viria ainda a partir sua intervenção artística Glória do meu sangue, com que participou este ano na coletiva Un Ballo in Maschera, a 13ª edição da Chiado / Carmo / Paris que, depois de Lisboa, segue para Évora, Paris (Casa de Portugal), Lodz, e Florença (Sala Ghiberti).
Sob o signo de (IN)Somnium et Mirabilia, Célia Nunes Pereira retomou há pouco a Universidade, e em redor de um inovativo projeto de doutoramento imaginou um museu do sonho. Das imagens que assaltam espírito durante de dia ou de noite à utopia, à ilusão, à felicidade… No sonho cabe quase tudo; será que ele cabe num museu? Ao cabo de sete anos de leituras cruzadas em redor do tema e enriquecida pela experiência de voluntariado junto de doentes psiquiátricos, sob a orientação da Drª Ana Ramos, as suas conclusões vão-se aproximando dos estudos de António Damásio. “Galopante” – é como define o seu interesse sobre este tema, que a levará em breve (como prova in itere) à organização de um projeto museográfico ensaiado junto de um público real.
Preciosa colaboradora de José Arnaud e da equipa do Carmo, Célia Nunes Pereira continua a dar provas das suas capacidades, não só na gestão das coleções, mas também como curadora de um sem-número de iniciativas, como a atual participação no projeto da Universidade do Minho, ao abrigo do Heritage Within (HWITHIN) Creative Europe e em colaboração com instituições europeias, para o desenvolvimento de metodologias integradas na visualização e interpretação de dados recolhidos com drones e outras tecnologias, que permitirão fazer uma reconstrução virtual do Convento antes do Terramoto, integrando técnicas de imagiologia com realidade aumentada.
Enfim: para a neta do Chico não há limites, nem impossibilidades: «Pelo sonho é que vamos»… E no bolso traz mais um projeto: o Dicionário Cabresto de Francisco Pé-de-Goivo, homenagem a esse avô tão marcante, e às expressões aldeãs de Paiágua, com que ele colorou o conto da sua infância.
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