Crónica do Olheirão por Mário Pereira
Sinais contraditórios
Sinais contraditórios
Em Oliveira de Frades temos agora um Presidente da Câmara Municipal que é natural e crescido numa aldeia do concelho o que, pelo menos em democracia, é a primeira vez que acontece.
A eleição de um Presidente da Câmara natural de uma das freguesias mais distantes da sede do concelho é um sinal de valorização das pessoas ligadas às aldeias e poderá significar uma preocupação acrescida com a sua e as outras aldeias.
Aliás, o entusiasmo que a sua candidatura gerou na sua freguesia seria decisivo para a sua eleição.
Como contrapartida, também pela primeira vez em tempo de democracia, vamos ter um Presidente da Câmara que, desde há vários anos, reside em Viseu.
Tenho tudo a favor de um Presidente vindo de uma aldeia e não me causa nenhum incómodo especial que ele more em Viseu. Acredito até que não seja o único presidente de câmara da região nessa situação.
Bom seria que ele fosse o único jovem crescido nas nossas aldeias e na nossa vila que, tendo concluído estudos superiores, teve necessidade de fazer a sua carreira profissional fora do concelho, porém a triste realidade é que isso acontece com a larga maioria.
A situação do nosso Presidente da Câmara é consequência de um modelo de desenvolvimento que se instalou nas últimas décadas e que funciona como um acelerador do despovoamento das nossas aldeias.
A saída dos jovens é uma das causas da baixa natalidade que somada à morte natural das pessoas idosas não poderia resultar noutra coisa que não seja o despovoamento, menos notório nas vilas, como Oliveira de Frades, devido à migração de muitos jovens das aldeias.
Não vale a pena o Presidente de Câmara ter a ilusão que, por si só, vai alterar a situação. Infelizmente, esta realidade resulta de movimentos e políticas nacionais e internacionais e nós não temos a possibilidade de controlar, restando-nos ter a arte e o engenho necessários para lidar com eles de modo a reduzir os seus efeitos negativos.
Tudo o que a Câmara Municipal queira e possa fazer será uma gota de água no oceano, por isso é importante que tenha uma visão regional e nacional sobre o fenómeno.
Na última reunião da Assembleia da CIM Viseu Dão Lafões alguém levantou a necessidade de discutirmos o papel da cidade Viseu na nossa região, pois a resposta que dermos a esta questão é decisiva.
Dependendo das opções que forem feitas, Viseu poderá crescer e secar tudo à sua volta, qual eucalipto gigante, ou contribuir para uma região mais equilibrada.
É também tempo dos pequenos municípios se organizarem para darem a este problema a dimensão nacional que precisa de ter.
Uma das ações que está ao alcance do novo da Presidente da Câmara é acordar os deputados do distrito, da sua coligação e os outros, para estas questões, pois ninguém lhes ouve um pio na Assembleia da República sobre estas matérias.
14/10/2021

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