Manuel Silva

ALGUMAS LIÇÕES A TIRAR DO AFEGANISTÃO

No dia em que escrevo estas linhas passam 20 anos sobre o ataque de terroristas fundamentalistas islâmicos às torres gémeas.

O ataque de 11/09/2001 da Al Qaeda provocou uma grande viragem na geo-estratégia mundial. O fim da História, profetizado por Francis Fukuyama no livro com o título “O Fim da História e o Último Homem”, escrito após a queda das ditaduras comunistas e grande parte das de direita, provou estar errado, o que o seu autor reconhece agora.

Como resposta, o presidente George Bush ordenou uma guerra contra o Afeganistão, onde se acoitaria Bin Laden, líder da Al Qaeda, com o fim de o capturar, destruir a organização e o movimento talibã, bem como instaurar, de armas não mão, a democracia no Afeganistão.

A Al Qaeda sofreu duros golpes, Bin Laden foi morto quando Obama era Presidente, mas no Paquistão, o governo talibã caiu. No entanto, o movimento partiu para as montanhas de onde desencadeou a luta de guerrilhas.

O governo eleito, pró-americano, destacou-se pela corrupção e a cleptocracia. Não havia qualquer tipo de democracia e a esmagadora maioria do povo rejeitava-o e via-o como um governo fantoche ao serviço do ocupante. Daí que os talibãs tivessem forte apoio popular, pois se assim não fosse, não chegariam tão depressa a Cabul, esmagando o “exército de elite” que os States diziam ter criado.

No passado, ingleses, na luta pela independência, e soviéticos foram derrotados pelas guerrilhas locais. Se os soviéticos tiveram ali o seu Vietname, os americanos tiveram a segunda Indochina, quando, na primavera de 1975, fugiram do Vietname, Laos e Camboja, onde foram vergonhosamente derrotados. Após 20 anos de combates, os talibãs mostraram ser uma força invencível, o que levou o doente mental Trump a negociar a saída das tropas do seu país com o inimigo até 31 de Agosto deste ano.

O presidente Biden não poderia rasgar aquele acordo. No entanto, não tomou as devidas medidas para salvar os estrangeiros e os afegãos inimigos do novo regime talibã antes que estes ocupassem a capital.

A primeira lição a tirar desta guerra é que não se pode impôr a democracia à força, contra a vontade e a cultura dos povos. A democracia não nasce com um simples estalar de dedos. É necessária uma preparação prévia, que, muitas vezes, dura séculos. O conceito de democracia moderna, no ocidente, consolidou-se após séculos de tirania, inquisição, absolutismo e obscurantismo, que no nosso país ainda existe em algumas pessoas. Andam por aí “talibãs” do catolicismo, os que chamam o Papa Francisco de “comunista” e “agente do demónio”.

Segunda lição: os afegãos que fogem são uma minoria. Goste-se ou não, a esmagadora maioria dos afegãos identifica-se com os talibãs, a maior parte das mulheres acham muito bem andarem de burka e serem submissas aos homens.

Terceira lição: Biden, não sendo nacionalista como Trump, também endossa o “America first”, ainda que bem relacionado com os seus parceiros tradicionais. Consigo, a águia não voará ou, se o fizer, será muito baixinho.

Quarta lição: a China aparece como novo aliado do Afeganistão. A Rússia também passa a mão no pêlo dos novos senhores de Cabul.

Quinta lição: acaba de iniciar-se uma nova geo-estratégia mundial, em que os EUA e seus aliados ocidentais serão um parceiro menor face a regimes autoritários e (ou) ditatoriais. As consequências ver-se-ão…

16/09/2021


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