EDITORIAL 811
A responsabilidade autárquica de preservar a Vitela de Lafões

A Vitela de Lafões (Identificação Geográfica Protegida – IGP) tornou-se, inquestionavelmente, uma marca identitária dos territórios de Lafões, em termos culturais, paisagísticos, económicos e gastronómicos. O reconhecimento da sua qualidade já vem mencionada na literatura desde meados do séc. XIX, tendo essa qualidade e especificidade sido reconhecida internacionalmente.
Todas as regiões procuram obter, promover e certificar uma marca que as diferencie, como condição para a afirmação de produtos dos respetivos territórios pelo lado da excelência, do único, do tradicional e da modernidade da resposta às novas procuras. Hoje em dia, com a profusão da oferta no mercado, mais do que a quantidade é a qualidade que interessa.
Quem não tem essas marcas distintivas, procura descobri-las, trabalhá-las e projetá-las. Quem já as tem dedica-lhes toda a atenção, apoia-as e defende-as, com amor e inteligência, como se de uma enorme riqueza herdade dos seus progenitores se tratasse, pelo valor e vantagem que representam.
Torna-se cada vez mais estranho e incompreensível o desinvestimento que tem acontecido em relação à Vitela de Lafões. O esforço iniciado pela ADRL em 1993 para a certificação nacional e europeia da Vitela de Lafões foi bem-sucedido com o reconhecimento como IGP, em 1996, pela entidade da UE responsável pelo registo legal de produtos de qualidade com identificação geográfica. Esta foi uma enorme conquista que muitos ainda procuram alcançar nos seus territórios para os seus produtos, mas que Lafões já garantiu.
Porém, estamos a assistir a uma degradação, que até poderia ser considerada criminosa, da marca Vitela de Lafões IGP, que é usada e abusada sem qualquer critério de qualidade e que levará à sua descaracterização e depreciação, com forte prejuízo para a região, incluindo atores económicos, pela adulteração do produto e de todo o contexto histórico, cultural e gastronómico que o envolve.
Hoje em dia não há, efetivamente, comercialização da Vitela de Lafões IGP. Os produtores estão abandonados e nenhuma entidade (empresa, cooperativa ou associação) assegura o processo que garanta a distribuição de Vitela de Lafões IGP, certificada. No entanto, continua a vender-se toneladas de “vitela de Lafões”, sem qualquer critério nem controlo de qualidade em talhos e restaurantes da região e de todo o país.
É preciso ser absolutamente frontal: esta irresponsabilidade por inação de quem devia olhar e cuidar por esta marca de qualidade que os nossos antepassados criaram e deixaram como legado, está a dar origem a que os consumidores acabem por ser confrontados com “gato por lebre”. Há quem esteja interessado e a lucrar com isto, porque desviam a vitela produzida em Lafões para outras regiões que acaba por ser vendida com a marca dessas mesmas regiões. “Do mal o menos”, dirão alguns. Mas esta lógica pequenina do “mal menor” está a deitar pela borda fora uma das maiores riquezas da região, com uma inadmissível complacência dos atores políticos, económicos, cooperativos e associativos locais. Tenhamos brio e honremos as nossas melhores tradições!
14/09/2021

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