Coisas e Gente da minha Terra por Nazaré de Oliveira*

A D. Eurídice

Pertencia à burguesia endinheirada sampedrense. Era casada com Aires Correia de Almeida, conceituado ourives couraçado em libras, com loja na Rua Serpa Pinto, sob a sua residência. Não geraram filhos, mas o instinto maternal da D. Eurídice estava lá e arranjaram uma filha: uma sobrinha-afilhada, filha biológica de meu tio José Nazaré e da tia Marta. Apadrinharam-na e logo tomaram conta dela como se sua filho fora. Deram-lhe o nome de Elsa e criaram-na com extremos de amor e carinho, embora com a austeridade moralista e beata da D. Eurídice, o que deixou marcas na personalidade da Elsa. Por isso, ela nunca teve grande intimidade com a família de sangue, mesmo os pais biológicos. Eu próprio, que era seu primo, praticamente não convivi com ela. Mulher feita, a Elsa estava em idade de casar. D. Eurídice preocupou-se em arranjar-lhe um bom casamento. Mulher prática, um bom casamento não era o que resultasse de namoro prévio, mas o que garantisse à afilhada um bom estatuto material e social. E foi assim que a Elsa acrescentou ao seu nome o do marido — Pombal — sampedrense de Sul, e partiu para o Congo Belga, onde ele era sócio do grande empório comercial Manga-Manga. E, tanto quanto sei, a Elsa foi feliz no casamento. D. Eurídice sofreu ao vê-la partir para as longínquas terras africanas, mas a felicidade da afilhada que amava como filha estava em primeiro lugar. Não alimentava sentimentalismos. Mulher rija, como um leão abanou a juba e partiu para a sua luta habitual.

Era uma senhora bem nutrida e a transpirar prosperidade. O Aires, além da ourivesaria, tinha uma quinta em Drizes, gerida por um feitor da sua confiança, onde cultivava especialmente a vinha. Ali, o vinho era engarrafado e vendido para vários pontos do país, como vinho de marca com o rótulo Aires Correia de Almeida. D. Eurídice, mulher despachada, desempenhava papel importante no negócio do vinho. Enquanto o marido ficava a vender anéis, pulseiras e cordões, eu via-a passar frequentemente à minha porta, a caminho de Drizes, onde passava algumas horas — roubadas às suas tarefas religiosas — a zelar pelos trabalhos da quinta. Sim, porque D. Eurídice era uma mulher de Igreja. Religiosa até à medula, com arrancos de moralidade e grande influência na fauna paroquial do beatério. Ao começo do dia, era a missinha matutina. À tarde, era a catequese, que eu frequentava, no tempo do velho Vigário, anos trinta. Com passo marcial de sargento que vai para a guerra, D. Eurídice subia a Praça, atravessava o Adro, entrava na Igreja e, autoritária, dava as suas ordens. Levantava a não como se dissesse “Alto”. Estendia um braço: “meninas para aqui”; estendia o outro braço “meninos para ali”. Parecia o polícia sinaleiro a comandar o trânsito; só lhe faltavam as luvas brancas e o apito. Dava instruções às catequistas e desandava a meter o bedelho noutras actividades da igreja, esquadrinhando tudo, com olhos de analista à procura de defeitos: eram as toalhas dos altares que tinham pingos de cera das velas oferecidas pelos devotos, era a pia da água benta, as galhetas, a limpeza geral. Fazia as sua recomendações ao sacristão Mário Batata, o que para ele até era cómodo, porque dividia as responsabilidades. Não era das mais assíduas frequentadoras do confessionário, mas passava muito tempo na sacristia a planificar com o Vigário as coisas da Igreja: era a primeira comunhão, o crisma, as cerimónias da Páscoa, a festa da Imaculada Conceição de que era mordoma vitalícia. Houve um ano em que lhe coube ser reitora da mordomia. Caprichou. Puxou pelos cordões da bolsa — eram mais umas libras do alforge do Aires — e a Senhora da Conceição, que se venerava no Convento, teve uma bela festa, com as tradicionais novenas, procissão, missa cantada e sermão por pregador de fora. Nossa Senhora deve ter ficado satisfeita e foram mais uns créditos a favor da D. Eurídice na contabilidade do Céu.

Se eu tivesse de apontar os traços fundamentais da sua personalidade, destacaria a simbiose de dois vectores: servir/mandando. Tinha prazer em servir e necessidade de mandar.Com a morte do velho Vigário, em 1943, o Cónego Isidro herdou as beatas do antecessor. A vida paroquial mudou. D. Eurídice e o beatério perderam terreno. Mas o Cónego Isidro soube aproveitar a disponibilidade e o desejo de servir da D. Eurídice. Provedor da Misericórdia, entregou-lhe a orientação da Sopa dos Pobres, que funcionava no Bairro da Negrosa, num barracão situado no lugar onde funciona hoje o Lar dos Idosos. Nas minhas deambulações pelo meu bairro, algumas vezes assisti à distribuição da sopa que a Irmã Glória e as cozinheiras confeccionavam em grandes panelões, em cujo ventre ferviam os legumes e a carne que, diariamente, iam alimentar estômagos vazios daquela fauna humana de todas as idades, homens e mulheres que ali vinham, amachucados pela vida, empurrados pela miséria. Afeitos à sua condição de pobres, era o último quinhão que lhes cabia de uma vida madrasta. Lá estava a D. Eurídice, caritativa e autoritária, a dirigir a distribuição. Ajudava-a a disciplinar a turba, o Fernando Canguiço, velho trolha da minha infância, agora comensal da sopa, pitosga e bem falante, que tinha um certo ascendente sobre os outros e tinha artes de arredondar as palavras para falar com a D. Eurídice.

A única coisa que às vezes a fazia murchar eram as saudades da afilhada. Algumas vezes, quando passava à minha porta, a caminho de Drizes, desabafava com a minha mãe, que era tia da Elsa, uma vez que ela era filha biológica de seu irmão José. Quando a afilhada vinha de férias a Portugal, D. Eurídice remoçava. Depois eram de novo as saudades. Mas o ânimo forte e a ajuda dos santos faziam-na seguir a sua rotina.

Entretanto, deram-se alterações políticas na África e a independência do antigo Congo Belga. Pombal e a Elsa regressaram definitivamente a Portugal e à sua terra. Instalaram-se numa grande vivenda que haviam comprado, no centro da Vila, no lugar da Companhia. Era uma vivenda de estilo tropical que tinha sido construída por um casal luso-brasileiro.

Depois de sair de São Pedro do Sul, raramente voltei a ver a D. Eurídice, mas o bastante para notar que o tempo ia deixando as suas marcas. Sei que, depois de ficar viúva, foi viver com a afilhada e lá acabou os seus dias, certamente com os seus santos e devoções.

*Professor

15/07/2021


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