Luís Pinheiro de Almeida*
“Don’t worry America, Israel is behind you” (01)
*Jornalista
Pelas piores razões (guerra), a Faixa de Gaza voltou às primeiras páginas mundiais. Tive a sorte e a ousadia de a visitar no dia 21 de Julho de 1992 em circunstâncias que me causaram alguns dissabores. Gaza era então um território ocupado por Israel, onde só se podia entrar num táxi com matrícula árabe.
De 1985 a 1995, trabalhei na Rádio Renascença/RFM, tanto na Informação (“Já Agora”) como em programas de autor (“Amigos de Alex”), e “Ob-La-Di Ob-La-Da” e “Há Horas Felizes” (ambos com Teresa Lage). Era também da Liga dos Amigos da Rádio Renascença desde os anos 60.
Este conjunto de circunstâncias permitiu-me usufruir de uma viagem especial a Israel, de 15 a 22 de Julho de 1992, organizada pela Rádio, ou seja, religiosa, apolítica, em peregrinação.
Visitei Haifa, Telavive, Nazaré, Tiberíades, Tabor (lugar místico da Terra Santa), Jerusalém, Hebron (a maior cidade da Cisjordânia), Belém e Ein Kerem (onde nasceu S. João Baptista), sempre muito bem comportado, integrado na “excursão das velhinhas religiosas”. O pior foi Gaza (21 de Julho), mas já lá vamos.
Não posso dizer que não gostei de Israel. Claro que gostei, políticas à parte. É um país bonito, histórico, sem dúvida, desenvolvido, mas assustador, por causa do conflito. O que vou escrever é tão-só um ponto de vista puramente turístico.
Logo no primeiro dia ouviram-se bombardeamentos ao longe, no porto de Haifa, uma das mais antigas cidades do mundo, o que deixou em pânico as “simpáticas velhinhas”. Mas tudo se passou sem grandes constrangimentos.
Telavive, a maior e mais populosa cidade de Israel, não tem grande história: é moderna, fundada em 1909 por uma comunidade judaica.
É Património Mundial da UNESCO (2003), capital financeira do país, a segunda maior economia do Médio Oriente, a seguir a Dubai, e a 31ª cidade mais cara do Mundo. Tem uma “vibrante vida nocturna, 24 horas por dia” (dados da Wikipedia), mas nem eu nem as “velhinhas” demos por isso.
“Don’t Worry America, Israel Is Behind You” – era a t-shirt de maior sucesso, um gozo descarado, havendo mesmo árabes a vendê-la. Este é outro aspecto da confusão que reina naquelas bandas.
Num dos melhores cafés da baixa de Jerusalém entra um jovem de t-shirt, calções e sandálias. Até aqui, nada de especial. Só que traz às costas, tipo guitarra de Bruce Springsteen, uma M-16. Na praia de Tiberíades, outro jovem deixa o corpo embrulhar-se pelo sol. Nada de mais normal. Só que não larga a sua M-16. Numa estrada do norte de Israel, um jovem está à boleia. Que mal há? Nada, a não ser a M-16 a tiracolo. Um adulto já de barba grisalha leva os filhos a almoçar em Haifa. Que cena mais familiar! Só que lá está a M-16.
E as jovens? A elas tudo é permitido: o penteado que quiserem, a maquilhagem que entenderem. E a farda e a arma não lhes retira um milímetro de feminidade. Bem pelo contrário, dá-lhes um ar exótico!
E quando se juntam eles e elas? O armamento é completo.
Nos anos 60 e 70, em Portugal, o serviço militar era a coisa mais odiada pela juventude. Em vez de guitarras na mão, andava-se de G-3. Por causa da guerra colonial, perdiam-se vidas, falhavam-se carreiras, as perspectivas de vida eram negativas.
Em Israel, país em guerra desde que nasceu há 74 anos, as coisas são bem diferentes. O cumprimento do serviço militar é assumido com sentido patriótico, há democracia e participação. É a defesa do próprio Estado.
Não exagero se disser que as lojas mais concorridas da famosa Ben Yehuda Street (Midrachov) são as das próprias IDF (Israel Defence Forces), que tudo vendem de armas brancas a máscaras antigás, passando por “pins”, fardas, bonés, etc.
Nada é proibido e tudo é aceite. E não há quebra de disciplina, nem menor sentido guerreiro, como me dizia o guia brasileiro judeu (provavelmente da Mossad). “Nós vivemos com a paranóia de que toda a gente nos quer matar. Por isso não há excepção na defesa de nós próprios”.
“Desculpe, importa-se de chegar a arma para o lado?” – é uma pergunta vulgar nos autocarros para os soldados que, verdade seja dita, andam com os carregadores no bolso, na mão, mas nunca na arma propriamente dita.
(continua)
**Não te preocupes América, Israel está atrás de ti

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