Fernando Luís*
Estórias da Nossa História - O Povo e a Medicina (II)

*Professor
Manhouce, a conhecida freguesia da serra, depois da cantada via romana, que ligava Porto a Viseu, só voltou a ter estrada nova, ainda que em macadame, nos finais dos anos sessenta.
Neste isolamento, as fraquezas curavam-se com sopas de cavalo cansado e algumas gemadas.
O médico, como hoje o conhecemos, só era chamado quando todas as receitas tradicionais e mezinhas falhavam.
Aconteceu que, num inverno, lá para os anos cinquenta, a matriarca de uma família numerosa, que cedo enviuvou, tinha caído de cama, gravemente doente.
O filho mais velho, regressado do Brasil, perante a choradeira das irmãs, com a experiência de quem já tinha mijado no mar, entendeu que só o médico lhe podia segurar a mãe que já contava oitenta e quatro, feitos em Fevereiro, no dia da Senhora das Candeias.
Não havia tempo a perder. Como S. Pedro ficava longe, logo mandou mensageiro à vila, com mais um cavalo à arreata, que ficaria em Sã Joana (S. João da Serra), para trazer o doutor, apeado do automóvel, até Manhouce.
Como a coisa era grave, logo encarregaram também um outro moço de ir à residência paroquial pedir ao senhor abade para vir urgentemente com o sagrado viático.
Quando o sacerdote estava a acabar de ministrar a extrema unção, chegou o médico. Por respeito ao doutor, aguardou que este fizesse a consulta para, de seguida, se despedir.
Depois de auscultar a doente, pelo peito e pelas costas e de fazer as devidas palpações, o médico olhou em redor e apercebeu-se do ar pesado e interrogativo estampado na cara de todos os presentes.
Não querendo adiar mais o luto que inevitavelmente iria chegar, escolheu o padre para mensageiro das más novas. Chamando-o à parte, logo traçou o veredicto:
– Aqui, já não há nada a fazer. Está no fim…
Perante tal diagnóstico, o padre entendeu que esta era também a hora de não adiar segredos:
– Amigo doutor, se a ti Miquelina está por horas, poderão os filhos, ao menos, satisfazer-lhe um último desejo?
Intrigado, o médico, de cofre, questionou:
-Mas que desejo?
– O filho mais velho, o que o mandou chamar, disse-me que, quando a mãe caiu de cama, a única coisa que pedia era um pouco de aguardente…
– Ora… Ora… senhor abade! Aguardente, cachaça, que receita! Mas olhe, que não seja por isso. Façam lá chegar o tal bagaço nem que seja num paninho para molhar os lábios…
O certo é quo e a mulher arribou e chegou muito perto dos cem.
Quem o escreve é quem o ouviu e quem o contou não mentia.
Também, no mistério da vida, há razões que a razão desconhece.
(Neste texto, o autor optou por não seguir as normas do novo acordo ortográfico)
24/06/2021

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