Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
A artista Carlota Mantero © Sara Sousa Machado
A minha alma está sempre a voar. É assim que termina a nossa entrevista, que, na verdade, não foi uma entrevista, mas um discurso livre, como peixes a nadarem numa água cristalina que corre. Carlota Mantero é uma artista das imagens, mas as suas palavras são preciosas como os gestos da bailarina que podia ter sido, exatas como a música que tão profundamente entende, e leves como duas asas em voo, planando sobre um universo ideal e em comunhão com ele, uma dimensão para lá da água e do ar, dos sons, da dança, da bidimensionalidade gráfica da fotografia, mas que em todas essas formas de expressão participa – harmoniosamente.
Promovida pela Sá da Costa – Arte e inaugurada na passada quinta-feira 27 de maio (patente até 18 de junho) no Espaço Camões, no coração do Chiado, a exposição coletiva Diários reúne João Rebolo, Margarida Cunha Belém, Pedro Noronha e Rita Draper Frazão a Carlota Mantero – cinco interpretações do que é o viver destes tempos, coado por cinco diversas sensibilidades artísticas. Tempos de recolhimento, propícios, por isso, a uma revisão do passado e a uma reinvenção do presente… Da tão sofrida pandemia havia também que encontrar um lado solar, florido e frutuoso: ei-lo.
O título escolhido pela artista para esta série de 41 imagens (quatro das quais presentes in loco, em jeito de introdução ao vídeo que as apresenta em sequência) abre o apetite para o mistério que as qualifica. CERCA TROVA refere-se à inscrição de um dos estandartes verdes, que o pintor e arquiteto quinhentista Giorgio Vasari introduziu no grande fresco do Palazzo Vecchio em Florença, ao representar a vitória militar de Cosimo I de’ Medici em val di Chiana; nesse mesmo espaço, tinha anteriormente Leonardo Da Vinci representado a Batalha de Anghiari, numa pintura mural entretanto desaparecida, e a inscrição vasariana referir-se-ia, segundo uma versão, a esse painel escondido debaixo da sua própria composição.
Há, pois, desde o título, toda a construção de um ideário, tanto estético quanto ético, da verdade para além da aparência, do profundo que supera o imediato – uma dualidade que Carlota Mantero conhece bem, dos seus signo e ascendente zodiacal em Peixes, até à sua biografia, a de uma artista (a tal alma sempre a voar) que é também mãe de três filhos, ensinamento da responsabilidade de viver com os pés bem assentes na terra. Para além de ter fundado uma família, de ser agricultora numa aldeia remota de Trás-os-Montes, de ser uma fotógrafa com um importante curriculum profissional e artístico, tem uma clara consciência do seu ser espiritual. Quem sou eu? e Qual é a minha missão no mundo? são dois interrogativos que a acompanham e constroem a cada passo.
O confinamento libertou-a, ofereceu-lhe tempo físico e mental para uma viagem interior, aos confins da infância, às memórias de todas as experiências que viveu. Nelas se cruzam sentimentos e sensações, como a do cheiro da maresia – por isso, assim que pôde, partiu à reconquista dos mares da meninice, na bela e selvagem costa de Sintra: da Praia Grande à Ericeira, passando pela Praia das Maçãs e pelo Magoito. E aí reencontrou a sua mesma natureza indomada, penalizada pela severidade da educação que recebeu e que, talvez, a tenha um pouco intimidado. No entanto, o que nos é certo assistindo ao correr das imagens, é que essa natureza não foi tocada e se revela no mester artístico de Carlota Mantero.
Disse “correr das imagens”, mas deveria ter dito “dançar”. E dançar não é só com a manipulação das imagens – que unem o seu movimento à sequência do vídeo – mas também com a metáfora daquilo pelo qual teve de abdicar da dança: a estenografia. Não tendo seguido, por imposição familiar, o seu sonho de ser bailarina, frequentou uma Escola de Línguas e Administração em que aprendeu, entre outras coisas, essa técnica de escrita por abreviaturas que tendem a aproximar-se em rapidez à própria fala. Esses vigorosos caracteres, que invadem o campo visual, que se sobrepõem à imagem do mar, que aprisionam no seu ideografismo a palavra e que contrastam com a liberdade da praia, são símbolos obscuros, de intuída carga energética, sobre a clareza dos céus – numa dança que faz as contas entre dois passados e os reconcilia no presente. A estenografia torna-se participante do belo, vem ligar-se ao movimento íntimo da vida, dançar. Na imagem que a retrata agarrando a neta pela mão, está também agarrando o futuro e a passar o seu testemunho de pacificação com a vida.
Carlota Mantero partilha os preceitos de Nikolai Roerich, autor do Pacto de 1935 com o seu nome, que defende a proteção da Cultura – simbolizada por um grande anel que abraça três esferas: Arte, Ciência e Religião – como o supremo valor da humanidade e ela é sensível à ideia de que esta é a via privilegiada para se aceder aos mistérios da vida e da natureza, no modo largo e clarividente com que os conceptualizou Helena Blavatsky, uma das fundadoras do Teosofia. Também por isso a intercomunicação entre as formas de arte lhe é absolutamente natural e é, aliás, através do fio condutor da música (a Sinfonia nº 5 de Gustav Mahler, em cujos cinco movimentos se concentram e contrastam a tragédia e a alegria) que nos acompanha pelo seu percurso gráfico, que isso se torna evidente.
Depois da formação em Fotografia na Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, começa a participar em diversas exposições coletivas e a trabalhar nas revistas Artes & Leilões, Arte Ibérica, Agenda Cultural de Lisboa, Aprender a Olhar como fotógrafa residente e diretora artística. Depois de outras experiências editoriais, como a publicação dos três volumes de Evangelhos Comentados, produziu em 2014 a exposição Do Sagrado na Arte, com a participação de 33 artistas contemporâneos portugueses. A sua indagação e labor artísticos, ligados a um percurso espiritual, continuarão com a individual de fotografia Na casa de meu Pai há muitas moradas na Galeria do Teatro de Almada, o livro Leva a Luz e não olhes para trás (comentário fotográfico de versículos do Mestre El Morya) e, na Sociedade Nacional de Belas Artes, a mostra O Deserto, evocativa de uma viagem do casal Roerich ao Gobi. Em 2019 apresentara em Lisboa Os meus retratos, em que estabelece um diálogo icónico e verbal com os personagens que povoam a sua vida e cuja psicologia interroga com o mesmo acume com que lhes capta a expressão.
Assisti, na véspera da inauguração, aos últimos retoques da montagem de CERCA TROVA: pairava no ar uma efervescência positiva e alegre, prenúncio do sucesso confirmado no dia seguinte. E ficaram-me os olhos e o pensamento nas palavras de José Carlos Calazans, que introduzem a exposição:
Os reflexos que os espelhos da Natureza e da natureza humana lhe dizem, ela escreve indecifravelmente, com letras que induzem o leitor a voar com esses pássaros de palavras transcendentes. Aqui e ali, a essência do ser humano revela-se tanto na sua negritude em assaltos contra natura, como na sua libertação, depois de ‘procurar e encontrar’, na linha do horizonte, aquela luz inefável, justa e bela do equilíbrio da vida. O Amor.
10/06/2021

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