Fernando Luís
Estórias da Nossa História - O Povo e a Medicina (I)
O Povo e a Medicina (I)

Há duas cousas no mundo
Que eu não posso compreender:
Um padre não se salvar
Um cirurgião morrer! (Da tradição popular)
O enigma da vida foi sempre uma razão de inquietude para o homem. Ao longo dos séculos, encontrar soluções que adiem a inevitável morte é uma eterna esperança da ciência.
Em situações de doença generalizada, como a que agora vivemos, encontrar o remédio é a prioridade das prioridades na governação dos países.
Mesmo com médicos, formados em academias de excelência, com equipamentos que lhes facultam minuciosos exames, tudo parece impotente perante uma gripe que já fez, no mundo, perto de quatro milhões de vítimas.
Será que a medicina, está tão avançada como as engenharias e a electrónica?
Em relação à saúde, persiste, no homem, uma nuvem de dúvidas e interrogações.
Muito antes das escolas médicas do Porto e Coimbra ministrarem o curso de médico-cirurgião, já o físico-mor do reino concedia licença aos boticários e os generosos curandeiros usavam várias técnicas que chegaram aos nossos dias como a homeopatia e a acupuntura.
A fama desses antigos boticários prevaleceu ao longo dos tempos. É reler, neste jornal, a crónica do Dr. Nazaré de Oliveira, quando, em Abril do ano passado, nos descreve, de um modo singular, a figura do Zé da Farmácia.
O autor confessa-nos pormenorizadamente como, por ele, foi bem tratado, num tempo em que os remédios eram manipulados :“… pesar o bicarbonato e outras drogas que misturava num almofariz a que juntava umas gotinhas que pingavam de um grande frasco e estava feita a mistela que, entre os dedos do Zé da Farmácia se ia transformar em pílulas, para muita gente remédio milagroso”.
Nesses tempos, já com médicos de canudo passado, em modernas faculdades, o receituário pouco passava de pontas de fogo, papas de linhaça, ventosas… e remédio para as bichas.
Contextualizada a assistência no seu tempo de menino, Nazaré de Oliveira, em 2018, ao retratar o seu bairro da Negrosa, referiu três coisas que marcavam o lugar: a escola, a sopa dos pobres e o hospital.
Para além destes três serviços, também não faltava a mulher de virtudes, para rezas e benzeduras e a Micas Gralheira que, morando em Drizes, era a jeitosa que ajudou a pôr muita gente no mundo. Os catraios não nasciam nas maternidades de hoje, amparados pelo obstetra e ao colo da enfermeira especialista.
Como em todo o lado, até ficarem a cargo do cangalheiro e do coveiro, era ao médico local, ao bom João Semana, a quem competia amparar a vida dos pobres, ricos e remediados.
Naquele tempo, no nosso tempo, foi com estas personalidades que se escreveu e escreve a história do nosso serviço de saúde.
No próximo número, ainda dentro deste tema. contaremos uma estória passada na serra que nos confirma que há causas naturais e sobrenaturais que condicionam a saúde e que nem sempre têm explicação lógica.
(Neste texto, o autor optou por não seguir as normas do novo acordo ortográfico)
10/06/2021

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