COISAS E GENTE DA MINHA TERRA de Nazaré Oliveira

A minha ida às sortes

A MINHA IDA ÀS SORTES

No tempo em que o serviço militar era obrigatório, os jovens eram chamados à Inspecção, para apuramento dos aptos para a tropa. Chamava-se a isso IR ÀS SORTES. Quando chegou a altura, eu e os nascidos no meu ano lá fomos. Dizia o Edital: “Convocam-se todos os mancebos nascidos em 1929… etc., etc.”

As “mancebas” não eram convocadas. Tropa era só para os homens. E nem todos serviam. O sexo fraco (?) não tinha lá cabimento. E ninguém reivindicava tal coisa. Nem as sufragistas. Isso da Padeira de Aljubarrota era uma treta! Fui ao dicionário ver os vários significados da palavra mancebo. Entre outros, encontrei: “jovem em idade militar, desde a altura em que é recenseado até ao alistamento”. Como se vê, o termo tinha uma conotação essencialmente militar. Pelos vistos, o mancebo deixava de o ser ao assentar praça. Passava a ser um número! O dicionário também regista a palavra manceba, não no sentido de rapariga jovem, mas de mulher que vive amancebada, independentemente da idade. Portanto, as raparigas não eram mancebas. Retiro a palavra. Fica só para o sexo masculino jovem. Mas o dicionário diz mais: “mancebo deriva do latim mancipiu que significa prisioneiro de guerra, escravo”. Mais uma analogia com a tropa!

Deixemos as divagações e vamos à minha IDA AS SORTES. No dia marcado, lá vamos nós, mancebos, para o salão da Câmara, onde iam decorrer as inspecções. Entrámos em pequenos grupos. Do meu lote faziam parte os meus amigos Zé Dias e Xalau, o que me deixou mais confortável. Deparámos com dois médicos militares à paisana, alapados frente a uma grande mesa coberta de papéis. Eram dois homens de meia idade. Um, pencudo, com óculos de grossas lentes, montados no nariz de cavalete. Alto e magro, devia ser meio vesgo. Olhava para nós por cima dos óculos e para os papéis através das lentes. Outro, com fartura de carnes, bochechudo e gorda barbela, todo ele era barriga; através das repas, vislumbrava-se o casco; aspecto lorpa e sorriso sorna, soltava de vez em quando um bocejo sonoro e malcriado. Quando os vi de pé, sem farda e sem o mínimo aspecto marcial, um alto e magro, outro baixo e redondo, uma imagem aflorou ao meu espírito: um taco e uma bola de bilhar.

Mas havia uma terceira personagem. Esse, sim. Embora à paisana, tudo nele cheirava a tropa. Alto e entroncado, cachaceira larga, mandíbula forte, nariz achatado de boxeur, solidez maciça. Um sargentão! Vermelhusco, devia gostar da pinga! Parco de palavras, falava por monossílabos. Em tom de quem dá ordens aos soldados, disparou-nos um seco e lacónico “dispam-se”. Lá fomos para um compartimento anexo, descascámo-nos e ficámos em pêlo tal qual Deus Nosso Senhor nos botou ao mundo. Voltámos para a sala onde estavam os instrumentos de medida: craveira, balança, fita métrica. Fomos medidos e pesados como uns vitelos. Quanto a mim, apontando-me a balança, disse: “salta”. E eu saltei. Lá me pesou a carcaça. E ditou para os médicos. Eu era magrito. Já não sei quanto pesava, mas não chegava a quatro arrobas. Apontou-me a craveira e ditou: “para ali”. Lá me prantei direitinho que nem um fuso. Mediu-me e ditou: “1 metro e 75”. Finalmente, mediu-me o perímetro do peito. Já não sei o valor, mas era fraquito, a avaliar pela torcedela de nariz. Depois passei para as mãos dos médicos. Passaram os olhos por um relatório do pneumologista Dr. Almeida Ferreira: eu tinha tido recentemente uma pleurisia. O gordo fez-me duas auscultadelas e lá viu que o fole era fraco, trocou umas impressões com o pencudo, rabiscaram alguns apontamentos e deram por finda a inspecção. Durante todo este tempo, eu nem tus nem bus. Entrei mudo e saí calado. E passaram a outro freguês.

Saí convencido de que ficava livre, dadas as minhas condições físicas e até porque o meu tio José Nazaré tinha metido uma cunha ao sargento, seu amigo íntimo desde as trincheiras da Grande Guerra, onde ambos haviam combatido. O sargento vinha muitas vezes de Aveiro a São Pedro do Sul para o meu tio lhe tratar do automóvel e para as patuscadas da vitela de Lafões, e o meu tio ia a Aveiro para as patuscadas das enguias e da lampreia. O Tio Zé era cunha já utilizada por alguns sampedrenses, devido às suas relações com alguns sargentos mais antigos. Ainda tentei dizer-lhe que para mim talvez não fosse preciso. Mas ele respondeu-me: “se eu meto cunha para os outros, por que não hei-de fazê-lo para ti?” E, pelo sim pelo não, lá deu o papelinho ao amigo. Creio que desta vez o sargento nem precisou de fazer batota.

Quando saíram os resultados, lá estava à frente do meu nome: “ISENTO”. O Zé Dias ficou apurado e assentou praça no Porto. Do Xalau, já não me lembro se foi para a tropa ou continuou a vender chapéus e bonés na Rua Direita. Eu fiquei livre da militança, mas não fiquei livre de pagar a Taxa Militar, imposto que abrangia todos os isentos, pagável em prestações anuais de 40 escudos, durante 25 anos. Deram-nos uma caderneta com 25 folhas. Todos os anos íamos às Finanças comprar o selo que era colado na respectiva folha, que lá ficava cortada com metade do selo. Nós ficávamos com o canhoto na caderneta. Durante 25 anos, andei a caminhar para as Finanças a pagar a Taxa Militar. Quem pretendesse emigrar tinha de remir a dívida.

Meia dúzia de anos depois da inspecção, voltei a encontrar o Sargento. Eu era professor no Colégio de S. Tomás de Aquino e fui encarregado de acompanhar alguns alunos a fazer exames no Liceu de Aveiro. Meu tio encarregou-me de visitar o seu amigo sargento e levar-lhe um abraço. Numa tarde, véspera de S. João, fui visitar o homem. Foi comigo o Reis, veterano do Colégio, meu amigo de sempre e agora meu aluno. Bom conhecedor da cidade onde havia nascido, era o meu cicerone. O Sargento, já aposentado, andava no quintal, a ornamentá-lo para uma sardinhada, na noite de S. João. Encontrei um homem muito diferente: comunicativo, cordial, falador. Já esperava a minha visita, por um telefonema de meu tio. Recebeu-me muito bem e convidou-nos para a sardinhada. Não me reconheceu da inspecção e eu não falei nisso. À noite, eu e o Reis lá fomos comer umas sardinhas e beber uns copos. Por pouco tempo, que no dia seguinte havia exames: o Reis, no Liceu de Aveiro e eu em Coimbra, na Faculdade, a fazer uma das últimas cadeiras para conclusão do meu curso.

Já lá vão mais de 70 anos após a minha ida às sortes. Recordo os “mancebos” desse tempo: alguns fortes, mesmo atléticos; eu, fraquito. A vida tem destas coisas: os fortes já cá não estão; eu, o fraquito, ainda cá estou. Até quando?

13/05/2021


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