Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Dezanove anos! Reevoco essa idade mágica e de passagem, do longo sono da adolescência para os grandes sonhos da primeira idade adulta, quando cada coisa principia, quando temos todas as possibilidades pela frente – e todo o universo se nos afigura como aquela Brasília, de que escreveu Sophia:

(…) despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem

Nítida como Babilónia

Esguia como um fuste de palmeira

Sobre a lisa página do planalto

A arquitetura escreveu a sua própria paisagem (…)

 

Não é de arquitetura que falamos hoje, mas de juventude, de nitidez, e da lisura de uma página (quase) em branco, onde a sensibilidade artística de Mariana Frias Costa começa a inscrever as paisagens possíveis de novos mundos, aos dezanove anos acabados de fazer, curiosamente sobre o signo do número dois – pois nasceu a 02.02.2002. Uma vocação adivinhada e apoiada desde sempre pelo pai, com quem tem viajado pelo país e pelo estrangeiro, com quem tem visto museus e exposições e espetáculos e contactado, assim, de forma direta, com a grande arte – juntando cultura à paixão artística.

Mas é talvez por entre a ascendência materna que podemos encontrar uma mais imediata fonte para o seu temperamento e criatividade, em particular, na figura tutelar da querida tia-avó Mimia, a pintora Maria Emília Prates, cuja recordação se liga tanto ao sorriso e à calma que dela se desprendia e transmitia ao derredor, quanto à cor do seu Alentejo, essa vibrante paisagem que é também da alma, uma das topografias que mais fundamente tocam a jovem artista. Esse é ainda o exemplo de uma mulher forte, oriunda de uma família conservadora, cuja resistência teve de vencer, para vir cursar Desenho e Pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

Evidentemente, uma força criadora, sobretudo nesse início tateante e aventuroso, não se pode restringir a uma forma de expressão. Antes, na exploração de territórios, afins ou não das artes plásticas, há certamente uma riqueza sinestésica de experiências que, enriquecendo o património sensível e cultural de um criador, o conduzem a margens inesperadas, sempre novas. Se é verdade que Mariana, desde que conseguiu firmar com a mão um lápis de cor, com cerca de dois anos, é recordada pela família a desenhar horas e horas a fio, também é verdade que essa não seria a sua primeira, a sua mais evidente vocação, sendo filha da pianista Margarida Prates e tendo, por influência materna, iniciado os estudos musicais aos seis anos de idade. Frequenta a escola profissional Academia Musical dos Amigos das Crianças (AMAC), cujo curso oficial na área de violino está agora a completar, fazendo também parte da Orquestra Juvenil da AMAC, dirigida pelo Maestro Alexandre Delgado.

 O que tem em comum o violino com a pintura? «As sensações que sinto», responde. E esconde-se, na aparente simplicidade da asserção, a fundura das coisas verdadeiras, mas tão novas, que ainda não têm palavras para a definir. Certamente mais espontânea que a minha imediata associação ao tonal e fantástico universo pictórico de Marc Chagall, o “pintor da música” como alguém lhe chamou, e aos vários violinistas que pintou, batizados com os nomes das cores que os pervadem…

Próximo no tempo e numa certa visão fantástica da vida a este artista russo-francês, está o surrealista belga René Magritte, le saboteur tranquille, um dos mitos de Mariana Frias Costa, estimulada como se sente pela sua aproximação ao visível através de uma técnica figurativa rigorosa, baseada no trompe l’oeil, mas que apenas serve para confirmar que «na vida, tudo é mistério», não para interpretar ou para retratar a própria realidade. Um pouco anterior, mas sempre pertencente ao panorama europeu oitocentista, vai a jovem buscar outra lição inspiradora para a sua pintura: a das generosas manchas de cor de Vincent van Gogh, de emocionante expressividade, e cujos ecos podemos encontrar em alguns dos trabalhos desta aluna de primeiro ano da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, como aquele com que foi recentemente reconhecida em Itália… Inesperadamente, não uma pintura, mas uma fotografia – a do movimento de uma antiga nora, ainda em função, transportando água, no jardim público da Quinta das Conchas, em Lisboa:

Este sistema hidráulico continua a funcionar, evitando os gastos excessivos e as perdas e promovendo o armazenamento, distribuição, recolha e infiltração da água. Milhares de pessoas passam indiferentes por esta nora, não pensando no quanto a mesma contribui de forma tão positiva para ambiente. Assim, captei o momento do transporte da água realizado pela nora de forma dinâmica, enérgica, impactante, atordoante, estonteante e vertiginosa, de modo a apelar à intensidade da problemática da sustentabilidade, mais especificamente, da sustentabilidade da água, tão importante nos dias de hoje.

Quando viu anunciado, na Associação de Estudantes da Faculdade, o concurso para a edição 2021 da Milan Design Week, que acaba de decorrer de 12 a 18 de abril na capital lombarda, não perdeu tempo a selecionar, de entre os seus últimos trabalhos, aquele que melhor se enquadrava na proposta da start-up milanesa WeMove, em colaboração com a portuguesa RevArt (uma plataforma digital para a promoção de artistas emergentes): o tema da experiência integrada da arte, artesania e design na promoção do bem-estar emocional e físico e na criação de uma economia circular, envolvendo comunidades locais e internacionais.

Este projeto europeu saldou-se numa série de eventos, que incluíram exposições, painéis e workshops, alguns deles apresentados localmente nos Navigli (o coração artístico de Milão) e outros disponibilizados online. Dos 11 candidatos portugueses avaliados pelo júri que incluiu o artista Thiago Goms, Marco Mercadante (CEO da WeMove SSD), Alex Dipalo (CEO da RevArt), da arquiteta e designer Mariangela Papangelo e da curadora Nicoletta Gutu, Mariana Frias Costa foi a vencedora – e a representante de Portugal em Itália.

A imagem simbólica da nora, a de um mecanismo antigo ligado à força eternamente renovada da água – passado e futuro fundidos no momento presente – e o dramatismo com que no-la apresenta, como intensa imagem desfocada, forma do movimento mesmo, dinamismo perpetuado em pincelada de cor (que é, afinal, uma afortunada acumulação de pixéis, identificada na sua qualidade artística pela sensibilidade estética de Mariana), tem tanto do campo aberto a planar à beira Tejo, que tanto ama, quanto dessa secreta luz intimista, absolutamente característica da obra de Mimi Tavares, cujo atelier frequentou entre os 10 e os 13 anos, e com quem se iniciou nas técnicas da pintura sobre tela, na descoberta das infinitas possibilidades que podem surgir da mistura de apenas duas cores…

Estreia de tamanho prestígio prenuncia um futuro brilhante, que é o que desejamos de coração à jovem artista Mariana Frias Costa: uma amplíssima “lisa página” em que possa escrever “a sua própria paisagem” e outras tantas a partir de agora – sob o benigno signo da água e do seu movimento sempre renovado.

13/05/2021


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